Caminhos da reportagem aborda a trajetória e os desafios do futebol feminino no brasil

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: © Paulo Pinto/ Agência Brasil

Em menos de um ano, em junho de 2027, oito cidades brasileiras sediarão jogos da primeira edição de uma Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul, recebendo 32 seleções de todo o planeta. A grandiosidade deste evento esportivo reforça a urgência do debate em torno do futebol praticado por mulheres, evidenciando que, embora haja avanços significativos na modalidade, barre ellas e a plena igualdade ainda precisam ser rompidas.

Se a geração inaugural de atletas a representar o país na seleção não contava com remuneração fixa e dependia exclusivamente de ajudas de custo modestas — inclusive no âmbito dos clubes —, hoje a realidade apresenta um panorama mais estruturado. Atualmente, o país dispõe de diversas competições de âmbito nacional e internacional, além de campeonatos de categorias de base que consolidam o calendário esportivo. Caso antes fosse obrigatório conciliar a paixão pelos gramados com jornadas duplas em outras profissões, hoje floresce uma ampla cadeia de mulheres atuando profissionalmente em cada segmento do esporte, tanto dentro quanto fora das quatro linhas.

Apesar desses progressos, o machismo e o preconceito continuam a ser obstáculos persistentes. Competições de futebol amador e de várzea voltadas para o público feminino, assim como espaços de formação e centros de treinamento exclusivos para meninas, ainda configuram raridades, dependendo quase sempre de iniciativas isoladas e de curta duração.

Na mesma semana em que mais uma equipe é consagrada campeã do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, com arquibancadas lotadas de torcedores entusiasmados apoiando as jogadoras, torna-se imprescindível recordar o contexto histórico de repressão. Entre os anos 1940 e meados da década de 1980, as mulheres brasileiras foram proibidas por lei de praticar o esporte, sob a justificativa infundada de que a modalidade prejudicaria a saúde física feminina.

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Atualmente, contudo, a despeito das resistências culturais que ainda persistem no núcleo familiar e na sociedade, já é possível observar meninas e jovens que ousam sonhar com uma carreira profissional nos gramados. Muitas buscam a prática simplesmente por amor, lazer ou diversão, independentemente da faixa etária.

O momento também propicia o reconhecimento e a reverência a toda uma geração de pioneiras que pavimentaram essa trajetória difícil, transformando-se em referências vivas da potência esportiva que o país ainda pode alcançar. Algumas dessas precursoras continuam engajadas no desenvolvimento da modalidade mesmo após encerrarem oficialmente suas trajetórias nos gramados.

Márcia Honório, uma das precursoras que integrou a primeira seleção brasileira a disputar uma Copa do Mundo, recorda a profunda emoção daquele período histórico:

“Quando você pega um telegrama daquele e se vê convocada, e quando está fora do seu país e ouve o Hino Nacional, é emocionante até hoje. A gente gostava e tinha garra, uma vontade de querer ganhar para chegar ao país e falar assim: ‘ó, agora vocês precisam ajudar o futebol feminino’.”

A equipe de produção do programa Caminhos da Reportagem ouviu especialistas, atletas em atividade, ex-jogadoras, gestoras, praticantes do futebol de várzea, empreendedoras e torcedoras apaixonadas pelo esporte. Os depoimentos traçam um panorama sobre o estágio atual da modalidade, os obstáculos já superados e as expectativas em relação às oportunidades reservadas às próximas gerações.

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A ex-jogadora Formiga, detentora do recorde absoluto em tempo de carreira e em número de participações em Copas do Mundo representando o Brasil, destaca a importância fundamental do sentimento de pertencimento dentro do meio esportivo:

“Eu passei de Miraíldes, a Mira, da família e dos amigos, para Formiga. E só aí vim entender que não só a Miraíldes jogava futebol, existiam outras mulheres que também passaram o mesmo ou pior, que eu não era a única mulher estranha no mundo. Até então eu me achava um ser humano estranho, por ser a única menina ali que jogava realmente futebol no meio dos meninos.”

A jornalista Milly Lacombe enfatiza a relevância da mobilização coletiva nessas conquistas: “Eu acho que a principal mudança é a ideia de que juntas, conseguimos coisas, sozinha ninguém consegue nada. Então, a ideia de que a luta pela emancipação feminina não se separa da luta pelo futebol feminino. Eu diria que essa consciência de que a gente é classe, é um grupo, de que vamos juntas. Eu acho isso muito bonito no futebol feminino, que tem uma história de amor que o masculino não tem”, salienta.

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O cenário atual é marcado pelo otimismo e pela ampliação de espaços para o esporte, impulsionado sobretudo pela proximidade do mundial no território brasileiro. As entrevistadas projetam um futuro de maior desenvolvimento para a categoria. A treinadora de equipes de várzea Lu Leal resume as expectativas direcionadas à nova geração: “Meu maior sonho é ver as atletas que estão batalhando alcançar o objetivo chegar, ganhar e ter oportunidades. É o que elas merecem.”

O episódio do programa Caminhos da Reportagem intitulado “Elas em campo: futebol, paixão e resiliência” vai ao ar nesta segunda-feira (5), às 23h, na TV Brasil. No próximo mês, a emissora retomará o tema em outra edição dedicada a analisar as condições estruturais e o cenário do futebol feminino como profissão viável para as jovens mulheres.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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