Conferência de Bonn apresenta avanços limitados e desafios para a COP31

Marcelo Borges
5 min. de leitura
Foto: © Lara Murillo/UN Climate Change

As negociações da Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), realizada na Alemanha, concluíram-se na quinta-feira (18) com resultados mistos, destacando-se tanto impasses quanto progressos restritos. De acordo com instituições que participaram do evento, diversos temas cruciais da agenda internacional continuam sem solução, os quais deverão ser discutidos novamente na 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), programada para novembro deste ano, na Turquia.

Avanços e desafios nas discussões climáticas

Em uma declaração emitida após o encerramento da SB64, Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), enfatizou que os encontros realizados em Bonn sublinharam a relevância da cooperação internacional e a necessidade de cumprir os compromissos assumidos no Acordo de Paris. Segundo Stiell, as discussões técnicas feitas em Bonn serviram como alicerces para que os países possam avançar nas negociações da conferência futura.

Por outro lado, organizações da sociedade civil adotaram uma postura crítica em relação aos resultados da conferência. O Observatório do Clima (OC) avaliou o desfecho como decepcionante e destacou que a reunião foi permeada por incertezas políticas que dificultaram o progresso em temas fundamentais. “A conferência de Bonn naufragou. Os próprios negociadores, ao final, demonstravam incredulidade diante da quantidade de desacordos sobre itens da agenda, como a meta global de adaptação e o programa de trabalho de mitigação”, assinalou o OC.

A crítica se aprofundou ao demonstrar que houve resistência por parte dos negociadores em preservar compromissos já estabelecidos anteriormente e em postergar a publicação de documentos essenciais sobre a crise climática. “Uma situação particularmente surreal foi a tentativa de alguns países em desenvolvimento, liderados por China e Índia, de adiar a liberação do próximo relatório do IPCC (o painel do clima da ONU)”, acrescentou.

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Bloqueios nas negociações sobre financiamento

Nesta mesma linha de pensamento, a LACLIMA relatou que os últimos dias da SB64 foram marcados por bloqueios sistemáticos e adiamentos de decisões importantes. Negociações relacionadas a financiamento climático, agricultura, mitigação e sinergias entre as convenções do Rio permaneceram sem um consenso, sendo transferidas para a COP31.

A especialista em políticas climáticas Marina Guião comentou sobre os pontos de impasse que envolveram o financiamento público internacional, mencionando que havia um desentendimento sobre se esse tema mereceria um espaço na agenda da COP31 ou se continuaria apenas em formato de diálogo. Para garantir um espaço organizado para essas discussões, o presidente da COP30 enviou uma carta ao secretário-executivo da UNFCCC reiterando a importância desse fórum estruturado.

A Climate Action Network (CAN) apontou que um dos principais motivos de preocupação foi o impasse nas discussões sobre adaptação. Apesar de alguns avanços na agenda de transição justa, as divergências em torno de financiamento frustraram os consensos na Meta Global de Adaptação, adiando decisões de grande relevância.

A necessidade de ampliação do apoio financeiro

Em um comunicado emitido ao término da conferência, a CAN ressaltou que o bloqueio nas negociações de adaptação evidencia a necessidade de aumentar o apoio financeiro para os países em desenvolvimento e de acelerar a execução dos compromissos já assumidos nessas áreas.

Uma perspectiva otimista sobre o encontro

Contrapondo a visão crítica, o World Wildlife Fund (WWF) apresentou uma análise mais otimista sobre o encontro em Bonn, considerando que a conferência sinalizou uma transição gradual do foco das promessas para a implementação das ações climáticas. O líder de mudanças climáticas da instituição, Alexandre Prado, destacou o papel positivo da presidência brasileira na COP30, que ajudou a trazer à tona temas urgentes nas discussões climáticas.

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“A coragem da presidência em abordar questões urgentes definiu o tom do que ocorreu em Bonn. O sucesso dessas iniciativas poderá ser avaliado no próximo Balanço Global, mas o fato de termos colocado a implementação no centro das discussões já é um sinal significativo”, afirmou Prado.

Na avaliação de Tatiana Oliveira, líder de estratégia internacional do WWF-Brasil, a ampla participação dos países demonstrou um compromisso com o multilateralismo, mas enfatizou a necessidade de resultados concretos. “O desafio agora é transformar esse engajamento político em ações efetivas, especialmente no que diz respeito ao financiamento climático, que permanece uma questão sem soluções práticas, embora seja fundamental para viabilizar ações de mitigação e adaptação em países e comunidades que mais necessitam”, concluiu.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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