Projeto pioneiro leva ex-atletas da seleção feminina para inspirar estudantes no Rio

Marcelo Borges
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Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil

Na Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, localizada no bairro de Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro, o gramado foi tomado exclusivamente por garotas durante a tarde de uma quarta-feira. Sob a supervisão e o incentivo de ex-jogadoras que fizeram história na seleção brasileira de futebol, quatro equipes disputavam um minitorneio animado, enquanto os meninos acompanhavam a movimentação diretamente da arquibancada. A iniciativa marcou o lançamento oficial do programa Pioneiras nas Escolas, criado para aproximar grandes nomes do esporte de décadas passadas das redes públicas de ensino da capital fluminense.

Antes do início das partidas no campo, mais de cem alunas lotaram o auditório da instituição para participar de um bate-papo interativo. Na ocasião, as estudantes puderam fazer perguntas, registrar o momento em fotos e ouvir relatos inspiradores de Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, amplamente conhecidas no meio esportivo pelos apelidos de Caju, Fia e Pelezinha, respectivamente.

Além de compartilharem trajetórias de superação e conquistas, as ex-atletas abordaram os grandes desafios enfrentados no início de suas carreiras. Elas relataram episódios marcantes de machismo e preconceito estrutural, lembrando que alcançaram a oportunidade de vestir a camisa da seleção nacional poucos anos após a revogação da proibição legal que impedia mulheres de praticarem a modalidade no país.

Entre 1941 e 1979, o futebol feminino esteve formalmente vetado no território nacional com base no Decreto-Lei 3.199, que restringia a participação feminina em práticas esportivas consideradas incompatíveis com a natureza da época. A revelação surpreendeu a estudante Nicoly Melo, de 12 anos, que questionou com incredulidade a existência de tal restrição.

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Após a revogação do decreto em 1979, o esporte passou por um processo de regulamentação oficial em 1983. Com isso, a primeira formação oficial da seleção brasileira feminina disputou uma competição de caráter experimental apenas em 1988, na China. A primeira edição da Copa do Mundo da categoria ocorreu três anos mais tarde, também em solo chinês, enquanto a estreia do futebol feminino nos Jogos Olímpicos aconteceu somente em 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos.

Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol participam de atividades com alunas na Escola Municipal Juan Antônio Samaranch.

Superação e persistência diante do preconceito

Fia, atualmente com 62 anos, relembrou o ambiente profundamente machista da sua juventude e destacou que superou as barreiras apostando exclusivamente em seu talento com a bola. “Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, declarou às jovens.

A ex-atleta defendeu a camisa da seleção por cinco anos, período em que conquistou três títulos continentais e participou da primeira edição da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. No mesmo sentido, a ex-zagueira Caju, de 60 anos, que integrou a equipe nacional entre 1988 e 1999 com um histórico de 43 partidas e 34 vitórias, recordou as ofensas que ouvia dos torcedores das arquibancadas durante as partidas. “Vários diziam que mulher não servia para jogar futebol”, rememorou.

Segundo Caju, que hoje atua como árbitra de partidas oficiais, os comentários negativos serviam como combustível para motivar ainda mais o grupo. “Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar futebol”, afirmou.

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Alunas da rede pública acompanham orientações de ex-jogadoras da seleção brasileira em projeto esportivo no Rio de Janeiro.

O programa Pioneiras nas Escolas é coordenado por Duda Luizelli, ex-jogadora que também acumulou passagens por clubes tradicionais como o Internacional, de Porto Alegre, além de equipes italianas como Milan e Verona. Para a gestora, a iniciativa reforça a importância de as jovens acreditarem em seu potencial, mantendo sempre o compromisso com a dedicação aos estudos.

“O estudo é muito importante porque, mesmo quem for ser atleta, jogadora de futebol, de vôlei, de basquete, terá uma carreira muito curta. Com 38, 39 anos, acabou a nossa carreira e nós temos que dar uma continuidade”, pontuou a bicampeã sul-americana.

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Integração entre educação e esporte

A Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro atua como parceira fundamental na execução do projeto. Desde 2012, a Escola Juan Antonio Samaranch funciona sob o modelo de Ginásio Experimental Olímpico (GEO), uma diretriz da prefeitura que integra o ensino em período integral com o forte incentivo a diversas modalidades esportivas.

A instituição atende aproximadamente 600 estudantes com idades entre 11 e 15 anos, contando com o suporte pedagógico de professores e treinadores especializados em 19 disciplinas esportivas. O formato nasceu como um legado dos Jogos Olímpicos de 2016, e a rede municipal conta atualmente com 12 unidades com esse perfil.

Estudantes participam de minitorneio de futebol em escola municipal carioca pelo projeto Pioneiras nas Escolas.

Caroline Guedes, coordenadora de Projetos Integradores da SME, enfatiza que o programa está alinhado aos preparativos para a realização da Copa do Mundo feminina, competição que será sediada no Brasil entre os meses de junho e julho de 2027, tendo o Rio de Janeiro como uma das cidades-sede oficiais.

Para Letícia Pereira, aluna de 15 anos matriculada no 9º ano, a visita representou uma oportunidade única. A estudante destacou que vivenciar essa experiência em uma escola voltada para o esporte é um incentivo extra para vislumbrar perspectivas profissionais no setor e garantiu que marcará presença nas arquibancadas durante as partidas do Mundial no próximo ano.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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