Semelhanças entre Brasil e África do Sul vão além do verde e amarelo

Marcelo Borges
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Foto: © Reuters/Henry Romero/Arquivo/Proibida reprodução

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A África do Sul se prepara para sua estreia na Copa do Mundo de Futebol nesta quinta-feira (11), quando enfrentará o México na partida inaugural do torneio. O jogo ocorrerá às 16h na Cidade do México, que sedia a competição junto com Estados Unidos e Canadá.

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Assim como a seleção brasileira, a equipe sul-africana vestirá as cores verde e amarelo durante sua participação no torneio. No entanto, as semelhanças entre Brasil e África do Sul vão muito além desse detalhe estético. Os dois países compartilham características socioeconômicas e políticas, além de se alinharem em questões internacionais, como a busca pela paz.

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Do ponto de vista futebolístico, a seleção sul-africana é considerada uma das favoritas pelo ex-técnico Joel Santana. Em uma conversa com a Agência Brasil, ele enfatizou que, após um longo período sem grandes conquistas, os “Bafana Bafana” têm apresentado um futebol de qualidade crescente.

“Após nossa passagem por lá, o nível do futebol deles tem melhorado significativamente”, observou Joel, que dirigiu a equipe sul-africana entre 2008 e 2009. “Vou confiar neles até o final”, completou.

Cooperação com o Brasil

Fora dos campos, a África do Sul busca parcerias e não rivalidades. Em um encontro recente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, manifestou seu desejo de fortalecer laços com a América Latina, começando por iniciativas econômicas com o Brasil.

“Deveríamos [Brasil e África do Sul] cooperar em um nível muito mais alto”, afirmou Ramaphosa. “Ambos somos os países mais industrializados em nossos continentes, e o comércio entre nós precisa crescer significativamente”, completou.

Os dois líderes discutiram a necessidade de colaborações em várias áreas, como agricultura, energia, mineração e defesa. Lula destacou que o intercâmbio comercial entre os países está estagnado, alcançando apenas US$ 2,3 bilhões ao ano nos últimos 20 anos.

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“Não há justificativa política para que não alcancemos um comércio de US$ 10 bilhões”, disse Lula.

Atualmente, as exportações brasileiras para a África do Sul incluem predominantemente carnes de aves, açúcar e veículos, enquanto o Brasil importa do país africano principalmente metais como prata e platina.

Além disso, em março deste ano, Brasil e África do Sul firmaram um acordo para aumentar a cooperação no setor de turismo, com a intenção de aumentar a conectividade aérea e promover destinos turísticos em ambos os países. O diálogo também incluiu parcerias em agropecuária, focando no combate à febre aftosa e no aprimoramento das práticas de vigilância sanitária animal.

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Brasília, 09/03/2026 Declaração a imprensa, durante encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Brasília, 09/03/2026 Declaração a imprensa, durante encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Apartheid e a guerra no Oriente Médio

Durante sua visita ao Brasil, Ramaphosa também manifestou apoio à postura do Brasil em favor de uma resolução pacífica para os conflitos no Oriente Médio. Segundo ele, as agressões em curso violam a Carta das Nações Unidas, resultando em mortes e destruição.

Especialistas consideram que a África do Sul possui um peso significativo em relação a essa questão, dada a sua história de luta contra o apartheid, que durou 50 anos. Esse regime segregava a população negra, enquanto favorecia os brancos.

“A África do Sul carrega uma autoridade moral, uma vez que superou um momento histórico tão violento sem uma guerra civil”, analisou William Gonçalves, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia (INCT). Ele ressaltou que essa posição permite à África do Sul condenar Israel por suas ações em Gaza e no Líbano, afirmando que são crimes de guerra.

Após a queda do apartheid, em 2015, a África do Sul foi fundamental na aprovação, pela ONU, das Regras Nelson Mandela, que proíbem a tortura no sistema penal e asseguram julgamentos justos, uma realidade que Mandela, e muitas pessoas da Palestina, não experimentaram, segundo denúncias de entidades de direitos humanos.

A tortura e o tratamento cruel de palestinos, incluindo crianças e mulheres, é uma prática sistemática e endêmica em Israel, conforme apontam relatórios das Nações Unidas.

Nos anos 70, quando a África do Sul ainda vivia o regime de segregação racial, o Brasil foi um dos países a trabalhar ativamente pelo fim desse regime, como lembrou Gonçalves.

O Brasil interrompeu relações diplomáticas e comerciais com a África do Sul, movido pela pressão interna do movimento negro e pela colaboração de diversas nações africanas que ameaçavam bloquear o fornecimento de petróleo ao Brasil, que na época dependia desse recurso. A África do Sul era o principal parceiro comercial do Brasil no continente africano, enquanto o Brasil se mostrava vulnerável pela sua baixa produção de petróleo.

Defesa da soberania

Desde a transição para um regime democrático sob a liderança de Nelson Mandela nos anos 90, a África do Sul passou por melhorias significativas, como o crescimento do PIB, redução do desemprego e da inflação, além de avanços na educação e saúde, embora desigualdades ainda persistam.

Hoje, a África do Sul é a maior economia do continente africano e tem buscado uma aproximação com o Brasil desde os anos 2000. Essa interação não se restringe a objetivos econômicos imediatos, mas engloba a formação de uma aliança pelo desenvolvimento no sul global.

“A trajetória de desenvolvimento do Brasil e seu engajamento na luta contra as desigualdades atraem nações que compartilham desses interesses”, destacou Gonçalves.

Para ele, os dois países estão em uma luta constante por desenvolvimento, apesar de suas dificuldades. “Eles seguem em frente, ambos deram passos significativos na busca por melhorias”, concluiu Gonçalves, citando ainda a conquista da autonomia nuclear pela África do Sul, tornando-a o único país do continente a produzir energia nuclear em escala comercial.

Atualmente, Brasil e África do Sul colaboram em diversas áreas, como saúde pública, especialmente na luta contra o HIV-AIDS, na erradicação da pobreza, na promoção do anti-racismo e no desenvolvimento sustentável.

Na Conferência das Partes (COP) marcada para novembro de 2025, no Brasil, a África do Sul apoiou uma proposta brasileira de criação de um Fundo de Florestas Tropicais, além de compartilhar valores relacionados à defesa da soberania e independência dos países.

Na avaliação de Gonçalves, ambos os países buscam consolidar suas democracias, expandir suas economias e aumentar sua influência no cenário global, o que representa uma aproximação avantageosa para ambos os lados.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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