Capacitação reúne agentes públicos no combate a crimes ambientais e lavagem de dinheiro

Marcelo Borges
6 min. de leitura
O tráfico de fauna silvestre é uma das maneiras...

Em setembro de 2026, a Transparência Internacional – Brasil promoveu duas capacitações voltadas para o aprimoramento de agentes públicos no combate à lavagem de dinheiro atrelada a infrações ambientais. Os treinamentos contemplaram profissionais do sistema de justiça, de mecanismos antilavagem, além de órgãos voltados ao setor ambiental, agropecuário e minerário, reunindo especialistas de entidades de expressão nacional como o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Receita Federal.

Ao todo, as iniciativas somaram 178 inscritos, que representaram os nove estados que integram a região amazônica, além de São Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal.

A conexão entre ativos ilícitos e danos ambientais

Práticas ilícitas como o garimpo clandestino, a extração não autorizada de madeira, a grilagem de terras e o tráfico de fauna silvestre raramente ocorrem de maneira isolada. Com frequência, tais condutas estão associadas a redes criminosas e esquemas de corrupção, que buscam ocultar e inserir os recursos obtidos de forma criminosa na economia formal.

Essas estruturas dependem de mecanismos financeiros para conferir aparência de legalidade a bens obtidos de maneira irregular, a exemplo de ouro extraído sem autorização, madeira acobertada por documentação falsa, terras ilegalmente apropriadas, animais silvestres traficados e gado oriundo de áreas protegidas que acaba comercializado por frigoríficos.

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Diante desse cenário, os treinamentos adotaram uma perspectiva voltada ao rastreamento de ativos. Em vez de focar exclusivamente no dano ecológico, a metodologia priorizou o acompanhamento do fluxo financeiro para identificar, prevenir e responsabilizar os beneficiários finais da destruição ambiental.

As formações foram estruturadas pela Transparência Internacional – Brasil, contando com o apoio da Freeland Brasil e do Bureau of International Narcotics and Law Enforcement Affairs (INL), vinculado ao governo dos Estados Unidos.

Visão integrada e estudos de caso

A primeira capacitação foi direcionada a servidores públicos de órgãos ambientais, agropecuários, minerários, do sistema de justiça e de instâncias de controle financeiro. A grade curricular distribuiu-se em dez aulas ao longo de dois dias, com foco especial em estudos de caso para demonstrar a intersecção entre criminalidade ambiental, corrupção e ocultação de bens.

A programação abordou rotas críticas de crimes ambientais na Amazônia. Nomes como o procurador Daniel Azeredo (MPF) debateram a atuação de organizações criminosas na região, enquanto Dário Cardoso, da Transparência Internacional – Brasil, apresentou tipologias de lavagem de ativos. O panorama incluiu discussões conduzidas por Vivian Calderoni, do Instituto Igarapé, e Juliana Ferreira, da Freeland Brasil, sobre pecuária e tráfico de fauna, respectivamente. O procurador Galtiênio Paulino (MPF) detalhou investigações sobre grilagem de terras, citando desdobramentos de operações como a Operação Faroeste.

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No segundo dia, temas como a falsificação de créditos florestais foram debatidos por Daniel Lobo (MPF) à luz da Operação Floresta Virtual. A delegada Ana Gabriela Becker, da Polícia Federal, expôs os desdobramentos da Operação Bird Box, voltada a crimes financeiros internacionais associados ao tráfico de aves. O ciclo seguiu com análises de André Porreca (MPF) sobre garimpo e ouro ilegal, a inteligência financeira apresentada por André Morbeck (Coaf) e fraudes fiscais no setor aurífero detalhadas por Frederico Castello, da Receita Federal.

Abordagem operacional e investigativa

O segundo curso teve foco prático e foi voltado a operadores da Polícia Federal, Polícias Civis, Coaf e Receita Federal, profissionais que atuam diretamente na fiscalização e na repressão a delitos financeiros e ambientais.

Durante quatro aulas, os participantes examinaram métodos investigativos, o uso de notícias-crime e a aplicação de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs). O ex-agente da Polícia Federal André Lovatti e o delegado Bruno Cavalcanti Teixeira conduziram as instruções teóricas, enquanto simulações de inquéritos e análises de casos práticos de garimpo ilegal e desmatamento foram coordenadas por equipes da Polícia Federal.

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Ampliação do escopo jurídico

Para Dário Cardoso, pesquisador da Transparência Internacional – Brasil, vincular a lavagem de ativos às infrações ambientais permite recorrer a um arcabouço normativo mais robusto.

O especialista pontua que práticas como a validação fraudulenta de madeira por meio de créditos fictícios configuram crimes de lavagem, dado que o recurso florestal representa um bem público de elevado valor comercial.

Articulação institucional e produção de conhecimento

A iniciativa integra um conjunto de ações desenvolvidas pela organização em parceria com instâncias de controle e sociedade civil. Entre as frentes de atuação estão a participação na Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA) para inclusão de ativos ambientais nos debates, a publicação do Índice de Democracia Ambiental (IDA) em conjunto com o Instituto Centro de Vida (ICV), e a mobilização pelo Acordo de Escazú.

A entidade também mantém frentes voltadas à colaboração com Tribunais de Contas da Amazônia e à cobrança por maior transparência em bases de dados ambientais públicas, além de publicações técnicas sobre grilagem de terras e tráfico de fauna silvestre.

Fonte:: transparenciainternacional.org.br

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