No último ano, quando o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas de 145% sobre produtos chineses, a mídia estatal na China recorreu a um ensaio de Mao Tsé-Tung, escrito há quase 90 anos, para contextualizar a resposta chinesa. O Beijing Daily destacou que a obra era fundamental para compreender como Pequim enfrentaria os ataques “caóticos” de Washington, com a certeza de uma “vitória final” sobre seu rival geopolítico.
O texto mencionado é “Sobre a Guerra Prolongada”, um tratado de Mao de 1938, que estabelece a estratégia para lidar com forças invasoras, através de uma reflexão sobre a superação de adversidades. O presidente Xi Jinping louvou as ideias de Mao, ressaltando práticas como visão estratégica, disciplina e paciência, que moldam a abordagem da China em relação aos Estados Unidos.
Xii mencionou a caracterização de Mao sobre uma luta prolongada, dividida em três fases: uma fase inicial, onde a China se encontra em uma posição fraca e defensiva; a segunda fase de impasse entre forças equivalentes; e a terceira, onde desencadeia uma poderosa contraofensiva. De acordo com especialistas, a China já superou a fase defensiva e se move há tempos em direção à Fase 2.
Atualmente, a nação asiática apresenta um cenário muito mais robusto, refletindo avanços em manufatura, tecnologia, poderio militar e influência diplomática. Apesar de uma desaceleração econômica e das tensões contínuas com os Estados Unidos e aliados, a China demonstrou resiliência frente à pressão exercida por Washington. Xi Jinping já havia se mostrado mais assertivo que Trump no embate comercial, respondendo a tarifas americanas com controles sobre exportações de minerais essenciais para a indústria moderna, o que levou Trump a recuar.
Na última quinta-feira, Xi ofereceu uma recepção calorosa a Trump em Pequim. Contudo, o líder chinês provavelmente percebe essa visita — e o estado atual das relações bilaterais — não como um momento de acomodação duradoura, mas sim como uma pausa temporária em uma longa disputa de poder.
O principal objetivo de Xi nesse cenário de impasse estratégico parece ser o de adquirir tempo, buscando aumentar o poderio da China em relação ao dos Estados Unidos. Ele também busca concessões por parte de Trump, como a redução das tarifas e a limitação dos controles sobre exportações e vendas de armas, especialmente em relação a Taiwan.
Entretanto, grandes concessões durante essa visita são vistas como improváveis. Trump, que enfrenta uma complicada guerra com o Irã — o que impactou seus índices de aprovação e o levou a adiar sua visita a Pequim — deverá tentar transformar esse encontro em um triunfo, concedendo assim a Xi um papel mais forte na negociação.
A ressonância do tratado “Sobre a Guerra Prolongada” na China contemporânea reflete a concepção de Mao de “fazer o passado servir ao presente”. As referências históricas continuam a ser fundamentais para a forma como o Partido Comunista legitima suas ações e mobiliza as pessoas em prol de seus objetivos. Xi, assim como outros líderes, vê a competição com os Estados Unidos sob a ótica da luta prolongada estabelecida por Mao.
Trump, por sua vez,Se foca em vitórias imediatas e na imagem, buscando que a China assuma compromissos de compra de produtos americanos e novos acordos comerciais. Sua atenção, no entanto, parece negligenciar questões essenciais relacionadas à segurança, como a pressão sobre Taiwan e os ciberataques alegadamente oriundos da China. Os EUA ainda possuem influência significativa, desde o acesso a tecnologia avançada até a dominância do dólar, mas Trump parece desinteressado em aproveitar essas vantagens.
Essa visão restrita de Trump parece alinhar-se aos interesses de Xi, que acredita que a ordem internacional dominada pelos EUA está em declínio. Xi pode vislumbrar uma oportunidade para desestabilizar as alianças dos EUA na Ásia e enfraquecer o apoio a Taiwan, enquanto trabalha para garantir que a China esteja suficientemente forte no momento de lançar sua contraofensiva.
O governo chinês já aprovou um novo plano quinquenal, focado em expandir suas capacidades industriais, tecnológicas e militares. Além disso, a China tem buscado estreitar laços com a Rússia e países do Sudeste Asiático, América Latina e outros países em desenvolvimento, visando contrabalançar a influência dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, Xi já recebeu líderes de várias nações, incluindo os do Canadá, Reino Unido e Alemanha, preparando o terreno antes da visita de Trump para evidenciar o isolamento americano. Com uma posição predominante em tecnologias sustentáveis, a China está atraindo países que buscam aumentar sua segurança energética em meio aos conflitos globais.
Apesar dos desafios internos — como o envelhecimento da população e altos níveis de endividamento — os líderes chineses parecem crer que a real fraqueza está do lado americano. Chen Yixin, ministro da Segurança do Estado da China, afirmou que a democracia americana passa por transformações profundas, com uma economia em declínio e uma sociedade fragmentada. Para ele, a credibilidade dos EUA está em queda, sua hegemonia se desfazendo.
O discurso chinês pode ser visto como uma forma de propaganda, mas é importante considerar que muitos países podem perceber a disputa como a China se saindo vitoriosa. Xi irá levar Trump a Pequim com o intuito de confirmar essa visão ao mundo.
Fonte: estadao.com.br


