Desafios no acesso à justiça ameaçam defensores ambientais na Amazônia

Marcelo Borges
8 min. de leitura
O estudo identificou quatro barreiras que dific...

Um estudo recente lançado pela Transparência Internacional – Brasil aponta que o sistema de justiça brasileiro, em vez de atuar como um escudo protetor, muitas vezes funciona como uma barreira para defensoras e defensores ambientais na região da Amazônia Legal. O relatório “Defensores Ambientais em Risco: A Dificuldade de Acesso à Justiça” detalha de que maneira a corrupção e a captura institucional alimentam um ciclo contínuo de violência e silenciamento nos territórios.

O Brasil continua figurando entre os países mais perigosos do mundo para o ativismo ambiental, acumulando 401 assassinatos entre os anos de 2012 e 2023. O documento une análises de relatórios e de notícias da imprensa a entrevistas que escancaram a dura realidade enfrentada por ativistas do estado do Pará, território que concentra a maior incidência de ocorrências.

A punição permanece sendo uma raridade: menos de 4% dos ataques fatais contabilizados entre 2009 e 2018 chegaram a ser levados a julgamento. Essa ausência de proteção efetiva fomenta o chamado “efeito silenciador” (*chilling effect*), cenário em que comunidades inteiras optam pelo silêncio motivadas pelo medo.

“A morte vem primeiro que a Justiça. Porque você denuncia, a Justiça notifica a pessoa, o advogado pega todo o processo e identifica os nomes. Pronto, os fazendeiros todos sabem quem é que fez a denúncia. Eles dizem que tem sigilo pela Justiça, mas não, não tem. Na maioria dos casos, a Justiça empurra a pessoa para a morte”, relatou uma liderança comunitária paraense em um dos depoimentos coletados para a pesquisa.

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Quais são as barreiras estruturais no acesso à Justiça?

A investigação mapeou quatro grandes obstáculos que dificultam o acesso à justiça para os defensores ambientais amazônicos: corrupção e captura institucional; limitações geográficas e estruturais; preconceitos raciais e de gênero acompanhados de invisibilização; e o assédio judicial.

  1. Corrupção e Captura Institucional: Interesses políticos e econômicos de grande porte cooptam delegacias e varas judiciais, transformando o aparato estatal em instrumento de perseguição contra quem ousa denunciar crimes contra o meio ambiente.
  1. Limitações Geográficas e Estruturais: A escassez de conectividade, a distância em relação aos grandes centros urbanos e a presença de defensorias públicas subfinanciadas tornam o sistema de justiça praticamente inalcançável para comunidades ribeirinhas e indígenas.
  1. Preconceito e Invisibilização: O racismo ambiental e os preconceitos de gênero se manifestam na hostilidade e na omissão de agentes públicos, afetando de forma desproporcional mulheres, quilombolas e povos indígenas.
  1. Assédio Judicial (SLAPPs): A utilização estratégica de processos judiciais sem fundamentos sólidos com o propósito de intimidar lideranças e sufocar denúncias. Conhecida internacionalmente como SLAPP (sigla para Strategic Lawsuits Against Public Participation), a prática compromete diretamente a liberdade de expressão e o direito à participação pública.

Assassinados numa emboscada na cidade de Nova Ipixuna (PA) em 2011, os extrativistas José Cláudio da Silva e Maria do Espírito Santo se tornaram símbolos da proteção à Floresta Amazônica. Foto: Felipe Milanez

Os números da violência contra defensores e defensoras ambientais

Conforme dados da organização Terra de Direitos, no período entre 2023 e 2024 foram catalogados 486 episódios de violência contra defensores de direitos humanos no Brasil, sendo que 80,9% dessas ocorrências possuíam ligação direta com questões territoriais e ambientais. A violência se alastra por toda a extensão da Amazônia Legal, atingindo de maneira desigual mulheres, camponeses, ribeirinhos, quilombolas e povos originários.

Dentre as diversas agressões enfrentadas por defensores ambientais no país, destacam-se ameaças de morte, intimidações, perseguições, agressões físicas, tentativas de homicídio e assassinatos. O rol de abusos engloba ainda invasões de propriedades, criminalização das atividades de preservação e a proposição de processos judiciais abusivos.

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“Quando fui ameaçado em 2018, fui registrar um boletim em Itaituba. Eles disseram que não podiam registrar, tinha que ser em Santarém. Chegando em Santarém, eu e outro ameaçado, o rapaz falou que não era assim, que tinha que procurar os órgãos ambientais, porque envolvia madeireiros. Não registrou o boletim. Aí, a gente denunciou no Ministério Público Federal, mas, se alguém foi responsabilizado, até hoje não temos informação”, relatou outra vítima, desta vez uma liderança indígena vinculada ao Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos no Pará.

Impunidade como reflexo direto da corrupção

O levantamento evidencia que a impunidade nos crimes direcionados a ativistas ambientais não decorre unicamente de fragilidades institucionais. Em inúmeras situações, ela se configura como o desdobramento direto da corrupção: manifestada na omissão calculada de agentes do Estado, no favorecimento de criminosos com conexões políticas e econômicas, e na instrumentalização da própria máquina de justiça contra os denunciantes.

Esse ciclo gera consequências que vão muito além das vítimas diretas. No momento em que uma liderança sofre ameaças, processos ou é assassinada sem que haja qualquer responsabilização dos culpados, comunidades inteiras acabam amordaçadas. A impunidade, além de deixar delitos sem resposta, transmite uma mensagem de permissividade que estimula novas investidas criminosas.

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Justiça para defensores é proteção ambiental

O estudo também apresenta um conjunto de recomendações direcionadas a diferentes instâncias, como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Congresso Nacional e demais órgãos que integram o sistema de justiça.

Entre as propostas sugeridas estão o aprimoramento dos mecanismos de transparência e integridade no âmbito judicial; a criação de varas, defensorias e promotorias especializadas em questões agrárias e ambientais; e a facilitação no acesso a dados públicos sobre crimes contra o meio ambiente. Outras medidas defendidas englobam a aprovação de marcos legais anti-SLAPP, a expansão de programas de justiça itinerante e a formalização da adesão ao Acordo de Escazú.

Para a gerente do Centro de Apoio e Incidência Anticorrupção da Transparência Internacional – Brasil e coordenadora do estudo, Nicole Verillo, a conclusão é taxativa: “Sem responsabilização efetiva dos agressores e sem um sistema de justiça íntegro e acessível, as políticas públicas de proteção ambiental perdem seu pilar de sustentação mais essencial: as pessoas que dedicam suas vidas a proteger os territórios e bens comuns”.

O Parque Estadual do Cristalino (MT) é uma das áreas protegidas brasileiras que vêm sendo atacada por criminosos ambientais nos últimos anos. Foto: Acervo do Instituto Centro de Vida

Fonte:: transparenciainternacional.org.br

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