Mais de 7 milhões de cidadãos de Israel comparecem às urnas nesta terça-feira, 27, para participar de um pleito considerado histórico para a definição do novo primeiro-ministro do país. Tratando-se da primeira votação desde os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, o processo atua essencialmente como um referendo sobre a condução do governo liderado pelo premiê Binyamin Netanyahu frente à pior crise de segurança na história da nação.
Além da responsabilidade governamental sobre os atentados, o pleito coloca em debate questões internas profundas que dividem a sociedade israelense há anos, com destaque para a obrigatoriedade do serviço militar para as comunidades de judeus ortodoxos. O tema ganhou relevância drástica em decorrência dos recentes conflitos armados, que exigiram uma mobilização massiva das forças de defesa.
“A responsabilidade sobre o 7 de outubro e a questão do alistamento militar são os pontos centrais da eleição”, aponta Yuval Benziman, docente da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Mas, de modo geral, a sociedade está mais polarizada.”
Desde a invasão conduzida pelo Hamas em território israelense, que resultou na morte de mais de 1.200 pessoas e no sequestro de 251 reféns, a resposta estruturada por Netanyahu traduziu-se em uma ampla operação militar na Faixa de Gaza. A ofensiva causou dezenas de milhares de mortes e o deslocamento de grande parte da população local, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).
A volatilidade geopolítica expandiu-se rapidamente para confrontos envolvendo o Líbano, o Iêmen e, subsequentemente, o Irã. As ações militares israelenses geraram forte retórica crítica internacional, especialmente na Europa Ocidental, em meio a acusações de crimes graves em Gaza que o governo israelense rejeita categoricamente, classificando-as como motivações de cunho político.
A polarização em torno de Binyamin Netanyahu
A figura de Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro mais longevo do país com quase duas décadas acumuladas no poder ao longo de três mandatos, figura como o epicentro da divisão eleitoral. O atual ciclo governamental consolidou a coalizão mais à direita já registrada na história institucional israelense.
A dependência do apoio de partidos extremistas de colonos, representados por figuras de proa como o ministro da Segurança Interna, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, propiciou a aceleração da ocupação da Cisjordânia e uma postura militar amplamente enérgica frente aos adversários regionais.
Apesar das contínuas pressões decorrentes de falhas na inteligência preventiva que antecederam os ataques de outubro e da queda acentuada em sua aprovação popular inicial, Netanyahu demonstrou resiliência política ao capitalizar confrontos militares de repercussão contra o Hamas, o Hezbollah e o regime iraniano.
Críticos da oposição frequentemente responsabilizam o premiê — comumente chamado de Bibi — pela deterioração da reputação externa de Israel, apontando os elevados índices de baixas civis e as restrições à entrada de ajuda humanitária como fatores determinantes para o isolamento diplomático.
A ascensão da oposição e o cenário no Parlamento
Esse contexto turbulento abriu espaço para o surgimento de novas lideranças no tabuleiro político, com destaque para o ex-general Gadi Eisenkot. Com uma trajetória consolidada no comando das Forças Armadas entre 2015 e 2019, Eisenkot fundou em 2025 o partido Yashar, canalizando o descontentamento de setores moderados.
Pesquisas recentes veiculadas pelo jornal Haaretz indicam o partido Yashar como líder nas intenções de voto, projetando cerca de 23 cadeiras parlamentares, frente a 21 assentos estimados para o Likud, partido de Netanyahu.
Em virtude do sistema parlamentarista israelense, que exige um patamar mínimo de 61 deputados para a sustentação de um gabinete, a formação de governos viáveis dependerá invariavelmente de coalizões complexas. O bloco oposicionista liderado por Eisenkot articula alianças estratégicas com legendas de centro e centro-esquerda, como o Beyachad, liderado por Naftali Bennett, o Israel Beitenu e a coalizão Os Democratas.
Enquanto o agrupamento de Eisenkot projeta somar forças expressivas, o campo de Netanyahu apoia-se em legendas religiosas e ultraortodoxas. Contudo, o destino do governo pode depender do desempenho de partidos menores que correm o risco de não atingir a cláusula de barreira eleitoral, modificando substancialmente a distribuição de cadeiras no Parlamento.
Analistas apontam ainda que a inclusão de partidos árabes — que representam a minoria palestina com cidadania israelense — permanece como um entrave sensível para a oposição, cujos membros enfrentam resistências políticas internas na esteira dos traumas gerados pelos episódios de outubro.
Perspectivas e o fator internacional
Diante da fragmentação do eleitorado, analistas consideram altamente provável um desfecho inconclusivo nas urnas, cenário no qual Netanyahu permaneceria interinamente no cargo até que novas eleições fossem convocadas. Paralelamente, o futuro das negociações de paz com os palestinos permanece secundário nas prioridades do eleitorado, com baixíssima probabilidade de retomada de diálogos bilaterais significativos a curto prazo.
No entanto, caso a oposição obtenha êxito, especialistas avaliam que esforços coordenados poderão ser direcionados à mitigação de danos diplomáticos e à contenção da violência promovida por colonos na Cisjordânia, ainda que tais medidas possuam caráter restrito.
Por outro lado, o panorama internacional reserva incertezas adicionais, sobretudo diante do endosso público manifestado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à candidatura de Netanyahu. Com tensões geopolíticas ativas no Estreito de Ormuz e repercussões diretas nos mercados globais de energia, um eventual acirramento de hostilidades com o Irã poderá recolocar o atual primeiro-ministro no centro de uma dinâmica de união nacional forçada.
Fonte:: estadao.com.br


