Estudo aponta falhas em alertas de desastres por SMS no país

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: © Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Um levantamento acadêmico divulgado recentemente revelou que uma parcela expressiva dos avisos sobre eventos extremos enviados à população brasileira por meio de mensagens de texto entre os anos de 2018 e 2023 carecia de informações fundamentais para garantir a segurança dos cidadãos. Conforme a pesquisa intitulada “Mensagens de alerta de desastres: desafios e oportunidades com base na experiência do Brasil”, apenas 1,83% dos torpedos continham todos os elementos considerados essenciais para uma comunicação verdadeiramente eficaz.

O trabalho científico foi conduzido pelos pesquisadores Murilo Noli da Fonseca e Luciene Pimentel da Silva, vinculados à Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). No total, o estudo examinou 73.701 comunicados emitidos por diferentes órgãos de proteção e defesa civil em todo o território nacional, com foco na qualidade e clareza dos dados transmitidos.

De acordo com Luciene Pimentel da Silva, a efetividade de um aviso depende da capacidade de rápida compreensão por parte de quem o recebe. “Ao receber uma mensagem, a pessoa precisa conseguir identificar se está em risco, entender o que está acontecendo, saber onde o evento pode ocorrer, o que deve fazer e por quanto tempo precisa permanecer em alerta”, pontua a pesquisadora da PUCPR.

Análise técnica dos dados

Para a realização da pesquisa, foram investigados os SMSs de até 160 caracteres que constam no sistema oficial da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no período analisado. O material foi categorizado com base em critérios como fonte, tipo de perigo, localização exata, instruções de segurança e horizonte temporal, seguindo as diretrizes do sistema de Classificação e Codificação de Desastres (Cobrade).

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Os resultados demonstraram deficiências significativas na estrutura dos textos. A explicação sobre os danos potenciais que o fenômeno natural poderia causar, por exemplo, apareceu em meros 7,7% dos registros. Da mesma forma, a indicação precisa do local afetado esteve presente em apenas 5,9% das mensagens, enquanto o horário de término do perigo figurou em somente 9% dos textos analisados.

Outro ponto que chamou a atenção dos especialistas foi a ausência de termos que classificassem claramente a gravidade ou a natureza da comunicação. A identificação categórica — indicando se o texto tratava de um aviso, uma comunicação, um alerta ou uma advertência — estava ausente em 76,2% das mensagens distribuídas. Especificamente, a palavra “alerta” apareceu em 19% dos textos, “aviso” em 2,2% e “atenção” em apenas 1,8%.

Para os autores do estudo, a escassez desses componentes compromete diretamente a capacidade de reação da sociedade. “Quanto mais clara e específica for a mensagem, maiores são as condições para que ela seja compreendida e utilizada na tomada de decisão”, reforça Luciene.

Desafios operacionais e regionais

Entre os principais entraves apontados no trabalho está a restrição técnica do formato SMS tradicional, que impõe um limite de 160 caracteres, englobando espaços e sinais de pontuação. Essa limitação dificulta a inclusão de orientações mais detalhadas para a população.

Diante desse cenário, os pesquisadores ressaltam a importância de diversificar os canais de comunicação, integrando o envio de torpedos a tecnologias como o Cell Broadcast, aplicativos de mensagens instantâneas e sistemas locais de alerta, estratégias que vêm sendo implementadas gradualmente no Brasil. O pesquisador Murilo Fonseca enfatiza que não existe uma solução única que supra todas as demandas de comunicação de risco.

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“Um sistema multicanal precisa considerar as características da população, incluindo diferentes níveis de alfabetização e acesso à informação, a presença de pessoas idosas, pessoas com deficiência e outros grupos que podem enfrentar barreiras de comunicação; as características do território; os meios de comunicação disponíveis e acessíveis; e a dinâmica do fenômeno”, argumenta.

Perfil dos disparos

Em termos estatísticos, a pesquisa detalha que a grande maioria dos avisos — 73,6% do total — teve como foco o alerta para chuvas intensas. Em segundo lugar ficaram as notificações sobre baixa umidade do ar, representando 8,5% dos envios, seguidas pelos alertas de granizo, que somaram 4,2%.

O monitoramento também identificou sazonalidade nos disparos: as estações da primavera e do verão, que abrangem o período entre setembro e março no Hemisfério Sul, concentraram 75% dos alertas anuais. Os meses com maior volume de mensagens foram janeiro, com 15,9%, e dezembro, com 13,4%.

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No recorte regional, a Região Sudeste liderou o volume de avisos recebidos pela população, respondendo por 75,2% dos textos enviados. Na sequência apareceram a Região Sul, com 18,6%, o Centro-Oeste, com 3,7%, o Nordeste, com 1,5%, e a Região Norte, que registrou 0,98% do total de mensagens emitidas no período.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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