Iniciativas tentam facilitar acesso e permanência de mães na ciência

Marcelo Borges
8 min. de leitura
Foto: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

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O Brasil, apesar de formar mais doutoras do que doutores há duas décadas, ainda enfrenta desafios significativos no que diz respeito à participação feminina em posições de destaque na academia. As mulheres, que são maioria entre os doutorandos, ainda representam uma minoria entre os professores de graduação e pós-graduação, recebendo, inclusive, somente um terço das bolsas de produtividade destinadas a cientistas reconhecidos em suas áreas. Este fenômeno conhecido como “efeito tesoura” revela um corte progressivo no número de mulheres em altos cargos acadêmicos, e, segundo a pesquisadora Fernanda Staniscuaski, a situação das mães nesse contexto começou a ser discutida apenas recentemente.

Fernanda, que é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, compartilha sua experiência de ser mãe enquanto desenvolvia sua carreira. Ela explica que, após a maternidade, sentiu a necessidade de desacelerar profissionalmente, o que se prolongou mais do que esperava, colocando-a em um ciclo difícil de romper. “Quanto menos a mulher produz, menos oportunidades ela terá para garantir financiamento e orientações, resultando em uma produção acadêmica ainda mais baixa”, afirma, enfatizando a importância de reconhecer essas pausas na carreira por motivo de maternidade e a necessidade de condições que favoreçam o retorno.

O movimento Parents in Science

Em 2016, Fernanda fundou o movimento Parents in Science após identificar que suas angústias eram compartilhadas por outras mães cientistas. Junto com outras seis mães e um pai, o movimento visa discutir a parentalidade no universo acadêmico. Atualmente, a iniciativa conta com mais de 90 cientistas associadas, a maioria mulheres, e tem como uma das principais frentes a coleta de dados sobre como a maternidade impacta a carreira dos pesquisadores. Sem uma contagem oficial sobre quantos pesquisadores possuem filhos, o impacto na trajetória acadêmica ainda é difícil de medir.

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Estudos preliminares já indicam como o cuidado com os filhos afeta diferentemente homens e mulheres. Fernanda salienta que, mesmo em um ambiente acadêmico, os padrões de cuidado são frequentemente desiguais, com as mães arcando com a maior parte do ônus. “Embora esteja havendo uma mudança cultural com a participação maior dos pais, ainda estamos longe de uma sociedade onde o cuidado seja totalmente compartilhado”, conclui.

Dificuldades e estatísticas do sistema acadêmico

Uma análise recente realizada pelo movimento revelou diferenças significativas no descredenciamento entre pais e mães dentro da docência. Dados de aproximadamente mil docentes revelam que 43,7% dos pais deixaram seus programas por vontade própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Para as mães, apenas 24,6% saíram por iniciativa própria, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não atingirem a produção mínima exigida. Além disso, as mães enfrentam dificuldades maiores para se reintegrar ao sistema após um descredenciamento.

Entre os docentes que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, comparadas a 25% dos pais. Enquanto aqueles que deixaram seus cargos por vontade própria, 25% das mães não retornaram, em contrapartida a apenas 7,1% dos pais. Esses dados ressaltam não só a questão de gênero, mas também o impacto da raça, com mulheres pretas, pardas e indígenas sendo ainda mais sub-representadas.

Desafios na graduação e redes de apoio

As dificuldades enfrentadas pelas mães não são exclusivas do alto escalão acadêmico. Cristiane Derne, assistente social e mestranda da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, recorda os desafios de conciliar a maternidade com a graduação. Cristiane, que já era mãe ao ingressar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, relatou as dificuldades de deslocamento e formações exigidas que muitas vezes a impediam de estar presente para seu filho.

Embora a UFRJ ofereça um auxílio-educação, sua duração é limitada aos primeiros seis anos de vida da criança, o que não atendia às necessidades de Cristiane. O apoio do coletivo de mães da UFRJ foi crucial para que ela conseguisse continuar seus estudos, auxiliando na troca de informações sobre direitos e benefícios e oferecendo suporte emocional.

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Esta experiência inspirou Cristiane a investigar as políticas de permanência da universidade em seu trabalho de conclusão de curso e, atualmente, em seu mestrado, ela se dedica ao estudo desses coletivos em nível nacional.

Atlas da Permanência Materna

Por outro lado, o Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade lançou o “Atlas da Permanência Materna”, que compila as políticas de permanência disponíveis nas universidades federais. Os dados mostram que a medida mais comum é a assistência financeira, presente em 63 das 69 instituições, com um valor médio de cerca de R$ 370 por mês. O documento também revela uma redução significativa na oferta de benefícios para alunas de pós-graduação, com apenas 13 universidades estendendo auxílios a mestrandos e doutorandos.

Além disso, somente oito universidades oferecem cuidotecas, espaços que permitem que as crianças permaneçam em ambientes seguros enquanto suas mães estudam. Recentemente, o Ministério da Educação lançou um edital de R$ 20 milhões para a criação de cuidotecas em outras instituições.

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Mães na ciência: direito e meritocracia

O estado do Rio de Janeiro já se destacou em iniciativas para apoiar mães cientistas, como a criação de editais específicos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), que já beneficiou 134 mães pesquisadoras. A presidente da Comissão de Equidade da Faperj, Leticia de Oliveira, enfatiza que o edital é uma ação “compensatória”, já que as mães frequentemente enfrentam desvantagens nas seleções convencionais.

Ela explica que o sistema tradicional de avaliação, que considera apenas a produtividade em artigos e orientações, desconsidera que as mulheres que se tornam mães geralmente experimentam uma queda abrupta na produtividade devido à licença-maternidade. O edital permite que a produtividade da candidata seja avaliada em um período estendido de sete anos, dando espaço para que as adeptas da maternidade possam competir em igualdade de condições.

Ações Nacionais e Compromissos

A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho, destaca que a inclusão é crucial para melhorar a qualidade da ciência, afirmando que uma ciência diversificada gera melhores resultados. Denise também menciona as recentes legislações, como a que garante prorrogação de prazos para conclusão de cursos em caso de maternidade de risco e a que proíbe discriminação em processos seletivos relacionados à maternidade.

Essas iniciativas, somadas à criação de programas de apoio, refletem um compromisso crescente em garantir que as mulheres possam continuar suas carreiras acadêmicas mesmo após se tornarem mães, combatendo estigmas e promovendo a diversidade na ciência brasileira.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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