Protagonismo Alunos surdos de Londrina transformam óleo usado em pesquisa científica

Marcelo Borges
9 min. de leitura
Foto: Divulgação / Seti.pr.gov.br

A combinação entre educação inclusiva, protagonismo estudantil e iniciação científica tem ampliado as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento para os estudantes do Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES), localizado em Londrina, que faz parte da rede estadual de ensino. O Clube de Ciência Em Mãos, formado por alunos da instituição, vem promovendo o acesso à prática científica para alunos surdos por meio de atividades realizadas em Libras, integrando-os ao universo da pesquisa e da experimentação.

O grupo faz parte da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, uma iniciativa do NAPI Paraná Faz Ciência, desenvolvida em colaboração com a Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR), a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) e a Fundação Araucária.

As atividades do clube começaram há dois anos, com o intuito de aumentar a presença dos estudantes surdos em espaços de pesquisa e dar visibilidade ao trabalho realizado pela escola. O principal projeto do grupo consiste na produção de sabão a partir de óleo de cozinha utilizado, uma iniciativa que une sustentabilidade, experimentação e prática de aprendizado. A partir da interação nessa atividade, os alunos são incentivados a realizar pesquisas científicas e desenvolver materiais de suporte para a aprendizagem em Libras, promovendo autonomia, comunicação e o desenvolvimento do projeto de vida dos participantes.

O projeto é coordenado pela professora de Ciências e Biologia Alessandra Francisco, que acumula 30 anos de experiência no ensino, sendo 15 deles dedicados ao ILES. Ela explica que a iniciativa surgiu do desejo de aproximar os alunos surdos da ciência, proporcionando mais visibilidade ao trabalho do ILES. “Queria que os alunos surdos tivessem reconhecimento. Precisávamos juntar pesquisa, desenvolvimento científico e iniciação científica com acessibilidade. O projeto vai além da escola, é para a vida e o futuro deles”, destaca Alessandra.

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De acordo com Roni Miranda, secretário de Educação do Paraná, essa iniciativa favorece a inclusão e cria mais oportunidades de desenvolvimento para os alunos do ILES. “Precisamos de ações que ampliem o horizonte dos nossos alunos e transformem dificuldades em possibilidades”, enfatiza. “Os diversos clubes de ciências na rede estadual promovem a iniciação científica de maneira inclusiva, o que resulta em maior confiança para cursar uma universidade no futuro, além de facilitar a adaptação a outros ambientes acadêmicos ou profissionais”, acrescenta.

Ciência em Libras e Materiais Acessíveis

A professora Alessandra explica que, para uma verdadeira aprendizagem, não basta apenas traduzir o conteúdo científico. É necessário ensinar a ciência em Libras, utilizando visualidade, demonstração prática e oferecendo tempo para que os alunos construam seus conceitos. “No laboratório, o aprendizado não deve ser apressado. É importante respeitar o tempo deles, com apoio visual e demonstrações, pois eles aprendem melhor de forma visual. Por isso, desenvolvi um sinalário que está sempre interligado à pesquisa científica”, conta.

O sinalário científico é uma das principais iniciativas do clube. A partir dos conteúdos abordados nas pesquisas, os alunos selecionam termos técnicos, criam sinais, gravam vídeos em Libras e trabalham na elaboração de materiais de apoio. O grupo também se dedica à criação de um jogo bilíngue, contendo perguntas, respostas, vídeos e palavras em português, projetado para suportar a aprendizagem dos estudantes surdos.

A criação desses materiais visa preencher uma lacuna na educação científica. “Ainda há uma escassez de materiais adaptados para alunos surdos. Embora ter um intérprete seja importante, é muito diferente ter um professor que explique o conteúdo em Libras. A ciência deve ser um espaço inclusivo e acessível a todos”, argumenta Alessandra.

A Educação em Tempo Integral aparece como um fator essencial para o sucesso do projeto. A professora observa que a ampliação da jornada escolar facilita a presença dos educadores, o vínculo com os alunos e a continuidade das atividades desenvolvidas. “O ensino integral possibilita que os professores passem mais tempo nas escolas, em contato direto com os alunos. No ensino médio, eles encaram desafios mais complexos, como a análise dos resultados da produção de sabão e a interpretação de dados”, destaca.

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Para a coordenadora da Educação em Tempo Integral da Seed-PR, os clubes de ciência têm um papel crucial na implementação dessa educação integral. “Os alunos trazem elementos de suas experiências de iniciação científica e conseguem aprofundar seus conhecimentos através dos clubes, o que fortalece uma formação acadêmica de qualidade”, afirma.

Um Novo Lugar na Escola e na Ciência

Entre os participantes do clube está Heycon Lucas Pedroso dos Santos, de 16 anos, estudante da 1ª série do Ensino Médio. Ele ingressou no clube mesmo sem ter interesse inicial pelos conteúdos envolvidos, motivado pela necessidade de treinar sua comunicação e melhorar suas interações com outros alunos surdos. Contudo, a experiência alterou profundamente sua relação com a ciência, a escola e consigo mesmo.

“Antes, eu não gostava de ciência, nem de Química ou Biologia, mas entrei no clube, e com o tempo, encontrei um espaço onde me sentia à vontade. Hoje, estou aprendendo a me comunicar melhor, a participar de atividades em equipe e a me aprofundar nesta área”, relata.

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Atualmente, Heycon está envolvido nas pesquisas, prepara apresentações, grava vídeos em Libras e auxilia colegas nas atividades. O clube também influenciou sua postura dentro e fora da sala de aula, aumentando sua autoconfiança.

“Em minha escola anterior, adorava fazer brincadeiras e ser bagunceiro. Agora, estou mais focado e me tornei mais consciente sobre o que é necessário fazer. Antes, eu me rebaixava, e a professora sempre me encorajava: ‘Pare com isso, você é inteligente, consegue!’. Esses incentivos foram cruciais para eu desenvolver minha autoconfiança”, conclui o estudante.

No ano de 2025, o projeto marcou presença na Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (Fecci), em Curitiba, onde conquistou o terceiro lugar na categoria de divulgação científica. Para a professora Alessandra, esse momento foi simbólico, pois apresentou os alunos a um público que muitas vezes subestima a capacidade de jovens surdos em realizar e apresentar pesquisa.

“Senti naquele instante o impacto social do projeto. Foi a primeira vez que eles foram vistos sob essa nova perspectiva. Às vezes, ainda persiste a ideia de que os alunos surdos são inferiores. O projeto ajuda a desmistificar essa crença”, enfatiza a professora.

Para Heycon, a experiência também foi transformadora. “Sempre pensei que era tímido e incapaz, mas percebi que isso não era verdade. Esse momento foi muito importante para mim. No futuro, espero continuar meu caminho na pesquisa, se tudo der certo”, expressa.

Programa Paraná Integral

O Programa Paraná Integral (PPI) é uma proposta da Seed-PR que busca ampliar a jornada escolar, oferecendo aos alunos mais oportunidades de aprendizado e desenvolvimento. Atualmente, 485 escolas estaduais fazem parte do PPI, atendendo mais de 99 mil estudantes paranaenses com Educação em Tempo Integral. Este modelo cresceu 500% nos últimos seis anos, passando de 82 escolas e cerca de 15 mil alunos em 2020 para o número atual.

A Educação em Tempo Integral se destaca pela ampliação na permanência dos alunos na escola, com jornadas que variam de 35 a 45 horas semanais. Esse modelo permite a realização de atividades complementares, acadêmicas, culturais, esportivas e socioemocionais.

Além disso, as escolas do PPI associam os conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a unidades curriculares diversificadas, que podem ser oferecidas de forma obrigatória ou eletiva.

A ampliação da jornada também impacta a rotina de alimentação escolar. Com a permanência por mais tempo na escola, os alunos da Educação em Tempo Integral recebem cinco refeições diárias gratuitas, incluindo café da manhã, almoço e lanches nos intervalos.

Fonte:: seti.pr.gov.br

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