Renda sobe no Brasil, mas não consegue acompanhar custo de vida

Marcelo Borges
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Foto: (Foto: Unsplash)

Três fatores principais ajudam a entender por que a renda no Brasil não tem acompanhado o aumento do custo de vida, conforme analisa Rodrigo Simões, diretor da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP). Entre esses fatores, destacam-se a baixa qualificação da mão de obra, a baixa produtividade, que leva os brasileiros a trabalharem mais horas, e uma economia ainda considerada relativamente fechada.

“Atualmente, não podemos afirmar que somos uma economia aberta como muitas nações. Esses três aspectos são essenciais para a riqueza de um país. Embora a produção global esteja em crescimento, onde houve menor investimento em educação, tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento local, a população enfrenta dificuldades para aumentar sua renda”, destacou Simões. Ele menciona que esse cenário contribui para a sensação de que a inflação está fora de controle, mesmo que os dados oficiais indiquem uma estabilidade média nos preços.

Heron do Carmo, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) e ex-coordenador do IPC-Fipe, complementa que a forma como os consumidores percebem a inflação também é relevante. Segundo o professor, as pessoas não percebem a inflação em sua totalidade, mas pelos preços dos itens que são mais comuns em seu cotidiano.

“Quando há muita volatilidade nos preços, isso causa desconforto. Essa situação não é exclusiva do Brasil”, diz ele, mencionando que consumidores nos Estados Unidos também têm reclamado dos preços elevados de alimentos e combustíveis. “Pegar um Uber ou um táxi, por exemplo, é uma experiência em que o motorista sempre reclamará do preço da gasolina, que é algo que ele adquire diariamente. Já para aqueles que não possuem carro, a percepção da inflação é diferente”, explica.

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Segundo Heron, supermercados, farmácias e padarias atendem a públicos distintos, mas a percepção inflacionária tende a ser influenciada pelos produtos mais frequentes nas compras. Quando os preços desses itens sobem, as quedas em outros preços costumam passar despercebidas. “Se o preço de algum produto aumenta, isso afeta diretamente o padrão de vida das pessoas”, conclui.

O economista Alexandre Maluf, da XP Investimentos, concorda que a discrepância entre percepção popular e indicadores de inflação não é uma questão exclusiva do Brasil e se intensificou após o choque econômico provocado pela pandemia, que elevou os preços. “As pessoas costumam comparar quanto gastavam anteriormente para adquirir uma quantidade de produtos com quanto precisam gastar hoje para manter a mesma compra”, comenta.

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Maluf acrescenta que o endividamento das famílias aumenta a sensação de perda do poder aquisitivo, já que compromete uma parte significativa da renda e força cortes nos itens mais comuns. Ele menciona um estudo do Ipea que afirmou que, apesar da desinflação alimentar entre 2023 e 2025, a percepção de que “tudo está mais caro” persiste.

Os economistas Heron e Maluf também sublinham as diferenças entre os indicadores de inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve de referência para as decisões do Banco Central, cobre famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos e, por ser o índice oficial, prevalece no noticiário e no debate público.

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Em contrapartida, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) abrange rendas de 1 a 5 salários mínimos e é mais sensível a itens básicos, como alimentação e transporte. Dessa forma, o INPC muitas vezes reflete de maneira mais acurada a inflação percebida pelas camadas de menor renda, mas é menos destacado que o IPCA, ampliando a disparidade entre o debate público e a vivência desses cidadãos.

A constatação de Galípolo

No início da 4ª Conferência Anual do Banco Central, realizada na quarta-feira, 13, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, expressou preocupação com a percepção social acerca da inflação. Ele mencionou uma série de choques recentes – como a pandemia, a guerra na Ucrânia, disputas tarifárias nos EUA e o aumento dos preços do petróleo relacionado ao conflito no Oriente Médio – e alertou que essa situação pode ameaçar a credibilidade do Banco Central diante da população.

Galípolo enfatizou que a credibilidade da instituição sempre esteve vinculada à manutenção das expectativas de inflação sob controle, mas um “novo problema” surgiu: mesmo com a inflação em níveis mais controlados, as famílias enfrentam, na prática, um custo de vida elevado. Ele destacou que, apesar de o Banco Central ter conseguido reduzir a inflação de 12,13% em abril de 2022 para 4,39% em abril de 2026, o IPCA acumulou uma alta de 42,78% desde janeiro de 2020, e os preços dos alimentos subiram 64,35%, impactando mais intensamente os segmentos mais vulneráveis da população.

O presidente do Banco Central ainda observou que os bancos centrais geralmente consideram o aumento dos preços do petróleo como um choque potencialmente temporário, mas a cautela nas palavras não resolve a questão central: como as pessoas percebem o aumento acumulado de preços e como a autoridade monetária deve agir para enfrentar períodos de instabilidade sem abrir mão do controle da inflação.

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Fonte: infomoney.com.br

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