O Balé Teatro Guaíra (BTG) se prepara para realizar a estreia de seu mais recente trabalho nos palcos de Curitiba. Marcada para os dias 14 e 15 de novembro, a temporada traz ao público o espetáculo Templo Provisório, uma criação inédita assinada pelo premiado coreógrafo brasileiro Lucas Valente, atualmente radicado na Suíça. A montagem compõe o programa duplo intitulado Cartografia da Memória, dividindo as noites de apresentação com a obra STOL – uma questão de confiança, concebida por Alessandro Sousa Pereira e que já faz parte do repertório da companhia paranaense. As exibições ocorrem no Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto, conhecido popularmente como Guairão, com ingressos a preços populares disponíveis por meio da plataforma DiskIngressos e diretamente na bilheteria física do teatro.
A nova coreografia desenvolvida por Valente busca inspiração direta na trajetória e no legado artístico de Yvonne Rainer, figura central da dança pós-moderna norte-americana que atuou como bailarina, coreógrafa, cineasta e escritora. A proposta central de Templo Provisório consiste em investigar de que maneira gestos corriqueiros do dia a dia e objetos comuns do mobiliário podem adquirir uma dimensão extraordinária quando vivenciados e compartilhados de forma coletiva por um grande grupo. Para isso, a montagem reúne em cena 23 bailarinos do elenco oficial do BTG, que utilizam 22 colchões ao longo da performance, resultando em uma experiência visual que mescla a simplicidade dos movimentos corporais, a força estética do conjunto e a atmosfera lúdica do teatro.
O projeto também representa um marco de convergência entre diferentes gerações e linguagens da dança. Valente parte de premissas históricas para estruturar uma linguagem própria, estabelecendo um diálogo profundo com a memória institucional do BTG, o trabalho colaborativo e a versatilidade expressiva dos intérpretes. Essa nova empreitada artística coroa um período de grande destaque na carreira internacional do coreógrafo. Em 2026, ele foi laureado com o prêmio Tanznetz Critics’ Award na categoria de Melhor Coreografia referente à temporada 2025/2026, distinção concedida pelo trabalho intitulado Bare, criado para o Ballett Zürich, na Suíça.
A formação de Lucas Valente teve início no Brasil, com passagens pelos estudos de teatro, circo, balé clássico, técnica Graham e jazz. O artista também cursou Direção Teatral e Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), construindo posteriormente uma sólida carreira de 15 anos como bailarino profissional. Durante sua trajetória nas coxia e nos palcos, integrou importantes companhias nacionais e internacionais, a exemplo da São Paulo Companhia de Dança e do próprio Ballett Zürich. Como criador, suas obras já foram encenadas por instituições em países da Europa, da Ásia e das Américas, acumulando reconhecimentos como o primeiro lugar conquistado no Biarritz Choreographic Competition em 2022.
Do cotidiano ao extraordinário na dança contemporânea
A gênese criativa de Templo Provisório remonta a 1965, ano em que Yvonne Rainer concebeu a peça Parts of Some Sextets para dez intérpretes e 12 colchões. A obra original acabou se perdendo com o tempo, uma vez que não chegou a ser filmada. Anos mais tarde, em 2019, o projeto foi remontado pela pesquisadora e coreógrafa Emily Coates, amparando-se exclusivamente em registros fotográficos, documentos históricos e depoimentos de pessoas que integraram o elenco original.
O processo minucioso de resgate histórico despertou o interesse de Lucas Valente, tanto pelo forte apelo visual das imagens quanto pela transformação conceitual proporcionada pela revisitação da memória. Na adaptação realizada para o Balé Teatro Guaíra, o coreógrafo imprimiu sua própria identidade estética. Um dos pilares dessa abordagem reside na incorporação dos chamados “gestos pedestres”, caracterizados por movimentos simples, acessíveis e rotineiros, tais como sentar-se, levantar, arrastar superfícies e empilhar objetos.
A escolha do título sintetiza a essência da proposta cênica. Na visão de Valente, o conceito de templo está associado à habilidade humana de conferir significado e valor solene a um determinado espaço ou objeto, de modo que o sagrado depende muito mais da atenção coletiva do que da materialidade em si. Em contrapartida, a provisoriedade alude à natureza efêmera da dança, arte em que cada apresentação constitui um evento único e irrepetível, ainda que a coreografia seja executada sucessivas vezes.
“Como um coletivo, temos o poder de transformar algo que é banal, algo que é ordinário, em algo extraordinário”, sintetiza o coreógrafo ao explicar a premissa da obra.
No espaço cênico, os colchões funcionam como a matéria-prima para essa construção colaborativa. Os bailarinos os deslocam, empilham e reconfiguram continuamente, erguendo e desmanchar estruturas visuais. O ambiente gerado diante dos espectadores é estritamente transitório: surge durante a representação e se dissolve ao final, evocando a imagem de um templo erguido exclusivamente pelo esforço conjunto dos intérpretes.
Além disso, Valente estimula um intercâmbio dinâmico entre as linguagens da dança e do teatro. O processo de ensaios foi conduzido de maneira aberta com os bailarinos, permitindo que as diretrizes iniciais fossem moldadas pelas contribuições do próprio elenco ao longo do período de preparação.
Memória, identidade e o diálogo com STOL
O programa duplo Cartografia da Memória articula duas criações distintas que examinam, sob prismas variados, as interações entre os corpos humanos, os objetos cotidianos e o ambiente construído.
Para Marcelo Damián Zamora, diretor do Balé Teatro Guaíra, a curadoria do programa reflete os eixos norteadores da identidade artística da companhia. “É muito representativo do pensamento implícito artisticamente na companhia, de valorização da trajetória, de resgate da memória, de mostrar toda a potência do elenco de bailarinos, um elenco premiado, e também de estabelecer fontes bastante claras e diretas de comunicação com a plateia”, pontua.
A outra vertente da noite é ocupada por STOL – uma questão de confiança, trabalho lançado em 2025 por Alessandro Sousa Pereira com estreias simultâneas no Brasil e na Dinamarca. A coreografia investiga as fricções persistentes entre a natureza e a cultura, contrapondo o elemento orgânico ao universo artificial fabricado pela humanidade.
Na língua dinamarquesa, o termo stol traduz-se como cadeira, mas carrega também uma acepção ligada à confiança. Essa dublagem linguística guia a construção cênica, na qual o objeto inanimado corporifica a técnica, a indústria e a intervenção humana, enquanto os bailarinos encarnam a essência orgânica em uma dinâmica marcada por aproximações, conflitos e mutações.
Durante a performance, os integrantes interagem com as estruturas em sequências que alternam momentos de intensa energia, agressividade e calmaria. A trilha sonora apoia-se no célebre Bolero, de Maurice Ravel, cuja estrutura rítmica repetitiva intensifica o clímax dramático da obra. O uso de máscaras que ocultam parcial ou totalmente os rostos dos bailarinos reforça a dimensão simbólica da montagem.
Alessandro Sousa Pereira, artista brasileiro radicado na Dinamarca, possui uma trajetória consolidada com passagens por palcos europeus e sul-americanos, tendo integrado o Danish Dance Theatre por mais de uma década. Em Cartografia da Memória, as duas coreografias se complementam ao debater o papel do indivíduo e as marcas coletivas deixadas no mundo.
Circulação e cronograma de apresentações
Após cumprir temporada na capital paranaense, o Balé Teatro Guaíra levará o programa Cartografia da Memória para outras regiões do país. A primeira parada fora do estado ocorre em Goiânia (GO), com apresentação marcada para o dia 21 de novembro, às 20h, no Teatro Goiânia, inserida na programação da 9ª Mostra Girodança.
Na sequência, o espetáculo chega a Cascavel, no oeste paranaense, contemplando a comunidade com sessões gratuitas nos dias 29 e 30 de novembro como parte das festividades de aniversário do município. No dia 29, às 18h, a exibição será aberta ao público em geral. Já no dia 30, às 10h, o palco receberá prioritariamente estudantes da rede pública de ensino e assistidos por entidades sociais locais.
Serviço
Balé Teatro Guaíra em “Cartografia da Memória”
Templo Provisório + STOL – uma questão de confiança
Curitiba (PR)
Apresentações: 14 de novembro (sábado), às 20h30, e 15 de novembro (domingo), às 18h
Local: Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto (Guairão) | Rua Conselheiro Laurindo, 175, Centro, Curitiba/PR
Acessibilidade: Tradução simultânea em Libras e recurso de audiodescrição
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada), disponíveis na bilheteria física e na plataforma DiskIngressos
Goiânia (GO)
Apresentação: 21 de novembro (sábado), às 20h
Local: Teatro Goiânia | Rua 23, 252, Setor Central, Goiânia/GO
Ingressos: Gratuitos, com reserva antecipada pelo Sympla
Cascavel (PR)
Apresentações: 29 de novembro (domingo), às 18h (público geral); 30 de novembro (segunda-feira), às 10h (escolas e instituições)
Local: Teatro Municipal Sefrin Filho | Rua Rio de Janeiro, 905, Centro, Cascavel/PR
Acessibilidade: Tradução simultânea em Libras e recurso de audiodescrição
Ingressos: Gratuitos, com retirada antecipada pelo Sympla
Fonte:: cultura.pr.gov.br


