As lavouras de milho safrinha no estado do Paraná enfrentaram um cenário de intempéries e variações meteorológicas significativas ao longo da temporada 2025 e 2026. Fatores como períodos prolongados de estiagem e temperaturas elevadas impactaram diretamente o desenvolvimento inicial das plantas, o que acabou por limitar o potencial de rendimento em várias regiões produtoras do território paranaense.
No oeste paranaense, o agricultor Gabriel Redivo dedicou uma área de 960 hectares ao cultivo do cereal. O processo de semeadura ocorreu em um intervalo de pouco mais de duas semanas, compreendido entre o final de janeiro e o dia 14 de fevereiro. No entanto, o regime de chuvas apresentou volumes escassos nos meses de março e abril. Como consequência direta dessa falta de precipitações, a capacidade produtiva da propriedade sofreu uma retração estimada em 40%, registrando uma média final de colheita situada entre 82 e 90 sacas por hectare.

Tradição familiar e evolução do agronegócio regional
A presença da família de Gabriel no setor agrícola do Paraná remonta à década de 1970. O avô materno do produtor, Adolfo Oto Midding, migrou do município catarinense de Videira em 1977 com o objetivo de arrendar terras de um familiar localizadas na divisa entre os municípios de Santa Tereza do Oeste e São Pedro do Iguaçu. Pouco tempo depois, utilizando recursos oriundos de uma herança, ele adquiriu uma área vizinha em um momento em que os preços da terra eram mais acessíveis.
A época coincidiu com o início da mecanização na agricultura regional, onde os produtores tradicionalmente apostavam em duas culturas anuais principais: a soja durante o período de verão e o trigo no inverno. Já no começo dos anos 1980, Adolfo iniciou experimentos pioneiros ao plantar milho utilizando o método de matraca diretamente entre as linhas de soja.
Como a operação de colheita ainda dependia de métodos manuais, o sistema possibilitava o consórcio entre as duas culturas, configurando os primeiros passos do que viria a ser conhecido como a safrinha, visto que, naquela época, o milho era cultivado exclusivamente nos meses de verão.
Atualmente, a soja ocupa a totalidade da área agrícola da família durante o verão, enquanto o milho abrange cerca de 70% da extensão no período de inverno. Além disso, há seis anos, Gabriel e Adolfo decidiram diversificar as atividades ao introduzir uma terceira cultura na propriedade, destinando 190 hectares ao plantio de feijão. A semeadura do feijão ocorre habitualmente no final de fevereiro, com a colheita realizada entre maio e junho. Na última temporada, essa atividade proporcionou uma média de 38 sacas por hectare dentro dos padrões esperados de investimento.
Enquanto o pai de Gabriel, Odelir, conduz outras frentes de trabalho da família em Santa Tereza do Oeste, nas proximidades de Cascavel (PR), é o avô Adolfo, aos 84 anos, quem compartilha diariamente a rotina e as decisões de manejo com o neto. “Ele se envolve e vai todo dia à lavoura”, relata o neto. Fluente no idioma de seus antepassados germânicos, Adolfo costuma utilizar a língua de origem para relembrar episódios do cotidiano e até mesmo para lamentar derrotas esportivas, como a eliminação da seleção alemã de futebol pelo Paraguai em copas do mundo.
Panorama nacional e desempenho em outros estados
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2026 apontam variações na produtividade e na produção total do milho safrinha em diferentes estados brasileiros.
No estado de Mato Grosso, reconhecido como o principal polo agrícola do país, os produtores colheram grandes volumes apesar de uma retração de 6,4% na produtividade média. O estado alcançou um montante de 52,66 milhões de toneladas, mesmo enfrentando condições climáticas menos favoráveis em determinadas localidades se comparadas à região de atuação da cooperativa C.Vale.
Renato Rambo, gerente da C.Vale no Mato Grosso, avalia que os agricultores que conseguiram realizar o plantio dentro da janela ideal obtiveram retornos satisfatórios. Segundo ele, a maioria concluiu a semeadura no período recomendado, contando com o suporte de chuvas regulares e bem distribuídas. O controle adequado de pragas e doenças também contribuiu para a obtenção de médias consideradas positivas de produtividade.
Por outro lado, no Mato Grosso do Sul, o cenário foi marcado por desafios adicionais. A combinação de períodos de estiagem, incidência de lagartas e ocorrência de chuvas excessivas durante a fase reprodutiva das plantas afetou o desenvolvimento da cultura na região, conforme aponta Jeferson Salatti, gerente regional da cooperativa. Apesar dessas adversidades, a produtividade média no estado oscilou entre 80 e 120 sacas por hectare, patamar avaliado como dentro da normalidade e reflexo da eficiência na gestão técnica adotada pelos produtores locais.
Fonte:: ric.com.br


