A forte chuva que atingiu a cidade de Austin no dia 30 de outubro, data que encerrou a votação antecipada nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, não diminuiu o ímpeto da candidata a deputada estadual Montserrat Garibay. Alternando entre o espanhol e o inglês, ela conversava com eleitores demonstrando a confiança de quem enxerga uma transformação iminente no Estado do Texas.
“O gigante adormecido está acordando e os latinos vão decidir essas eleições”, comemora Montserrat. “Eu registrei 480 jovens latinos para votar neste pleito. Eles nunca haviam participado do processo eleitoral, mas estão muito frustrados com o alto custo de vida nos EUA”.
Natural do México, Montserrat mudou-se para os Estados Unidos ainda na infância e passou anos sem documentos legais. Atuou como professora de educação infantil e líder sindical antes de ingressar na política partidária. A expectativa é de que ela vença a disputa com ampla vantagem, uma vez que nenhum candidato republicano se inscreveu em sua zona eleitoral.
De acordo com a política, grande parte dos eleitores latinos sente o impacto direto da alta nos preços da gasolina e do óleo diesel por integrarem a classe trabalhadora. “Os combustíveis estão com valores proibitivos. Quando a crise atinge o bolso, as pessoas se revoltam”, pontua.
Essa insatisfação generalizada pode reverter o cenário para os democratas no Texas. Em 2024, o eleitorado latino tendeu a apoiar o Partido Republicano, motivado principalmente por pautas econômicas e de segurança nas fronteiras. Agora, o mesmo grupo tem potencial para impulsionar o candidato democrata James Talarico na disputa pelo Senado.
Talarico lidera a maioria das pesquisas de intenção de voto frente ao procurador-geral do Texas, Ken Paxton, e depende do apoio latino para consolidar a vitória. A comunidade hispânica representa 40% da população estadual, e os boletins da votação antecipada registraram uma participação expressiva.
Conforme dados da TargetSmart, empresa de análise estatística eleitoral, quase 1,8 milhão de eleitores latinos compareceram às urnas no Texas durante o período antecipado. O volume representa um crescimento superior a 87,2% em comparação com as eleições de meio de mandato de 2022.

Protagonismo dos jovens nas urnas
O engajamento é ainda mais expressivo entre os eleitores mais jovens. A TargetSmart indicou que cerca de 345 mil latinos que votaram antecipadamente têm menos de 30 anos, alta de 120% em relação ao mesmo período de 2022.
Deste contingente, 14% não haviam comparecido aos dois últimos pleitos nacionais nos Estados Unidos, integrando a categoria de eleitores de baixa propensão — perfil que normalmente demonstra desinteresse pela política institucional.
O respaldo dos jovens latinos foi determinante para o triunfo de Donald Trump em 2024. No Texas, o republicano obteve 55% dos votos desse segmento, com forte adesão de homens com menos de 30 anos vinculados a trabalhos braçais.
A motivação daquele voto estava atrelada à insatisfação econômica com a gestão federal anterior. No momento atual, contudo, o movimento inverso começa a ganhar força.

“O Texas é o Estado com a maior frota de caminhões a diesel do país e concentra diversas atividades agrícolas e de construção civil que demandam esforço físico intenso”, pontua Mike Madrid, estrategista político e especialista no eleitorado latino. “Os homens latinos jovens são os mais penalizados pela carestia dos combustíveis, por apresentarem menor escolaridade formal e maior inserção em ocupações manuais”.
Representantes do setor logístico reconhecem a gravidade do cenário. “Os motoristas de caminhão no Texas estão sufocados pelos preços”, afirma John Esparza, presidente da Associação de Transporte Rodoviário do Texas. “Autônomos e empresas de pequeno porte são os mais vulneráveis aos prejuízos devido à velocidade com que o diesel encareceu”.
Nas cidades do Vale do Rio Grande, situadas no sul texano, o impacto é sentido de maneira ainda mais aguda por causa do intenso tráfego de veículos de carga vindos da fronteira mexicana.
“É um problema sistêmico que afeta a classe trabalhadora hispânica em qualquer lugar. Muitos homens estão utilizando os veículos familiares das esposas porque não conseguem arcar com os gastos do diesel”, complementa Madrid.
O peso da economia familiar
Para o analista, o comportamento político dos latinos é ditado pelas demandas cotidianas. A desaprovação à economia levou ao apoio a Trump no passado e agora ameaça beneficiar o Partido Democrata.
“Esses eleitores foram injustamente rotulados de machistas por não votarem em Kamala Harris, o que não procede”, argumenta Madrid. “Eles estão focados em pagar o aluguel e encher o carrinho no supermercado com estabilidade”.
A avaliação encontra respaldo em levantamentos estatísticos. Segundo pesquisa do Pew Research Center divulgada em meados de outubro, 61% dos latinos consultados avaliam que as diretrizes econômicas de Donald Trump trouxeram prejuízos aos Estados Unidos.
“Nossos dados mostram que a comunidade hispânica está alarmada com a inflação e os custos de energia”, destaca Marc Hugo Lopez, um dos responsáveis pela pesquisa. O encarecimento da moradia e da saúde suplementar também figuram entre os principais temores.
Montserrat relata que familiares seus votaram em Trump, mas acabaram se distanciando devido aos desdobramentos internacionais e às políticas migratórias rigorosas. “Eles possuem pequenos comércios e acreditaram que a gestão republicana seria mais vantajosa para os negócios”.
James Henson, diretor do Texas Politics Project e especialista em opinião pública, aponta que cerca de 40% dos eleitores latinos locais não possuem filiação partidária fixa.
“Havia uma percepção de que Joe Biden ignorava os problemas cotidianos, o que motivou o voto em Trump. Agora, embora o republicano adote discurso semelhante, a inflação persiste, e os latinos estão cobrando resultados”, analisa.
Perspectivas e reconfiguração de distritos
O líder comunitário Ben Suddaby, cidadão americano filho de mexicanos, observa que o desejo de mudança no Texas é generalizado. A Federação Sindical estadual, entidade à qual é filiado, mantém neutralidade partidária, mas declarou apoio a candidatos democratas ao governo e ao Senado.
“James Talarico apoia as pautas sindicais e representa exatamente o perfil necessário em meio a esta crise econômica”, avalia Suddaby.
Apesar da relevância do voto latino, o sindicalista ressalta que toda a base trabalhadora enfrenta as mesmas dificuldades financeiras. “Garantir moradia, alimentação básica e educação para os filhos são prioridades universais”.

A crise do custo de vida pode frustrar os planos eleitorais do Partido Republicano em outras frentes. No ano passado, a assembleia legislativa texana redesenhou os limites distritais na expectativa de que os republicanos pudessem assegurar até cinco novas cadeiras na Câmara dos Deputados federal.
A estratégia baseava-se na premissa de que o avanço de Trump no Vale do Rio Grande configurava uma guinada conservadora definitiva, mas os dados recentes indicam um cenário adverso.
“Quando traçaram os novos limites, os republicanos projetavam conquistar três ou quatro vagas adicionais”, avalia Brendan Steinhauser, consultor político baseado em Austin. “É provável que não consigam nenhuma delas e ainda corram o risco de perder uma posição historicamente segura”.
Alinhamento econômico e pluralidade
Um eventual voto majoritário no Partido Democracia neste ciclo não assegura fidelidade duradoura por parte do eleitorado hispânico.
O Partido Republicano preserva bases sólidas de sustentação em nichos específicos da comunidade. John Esparza, dirigente da associação de transportes, exemplifica essa vertente ao se definir como latino e republicano convicto.
“Os princípios da comunidade latina guardam forte sintonia com os valores republicanos”, defende Esparza. “É plenamente possível exercer solidariedade social sem abrir mão de convicções liberais na economia”.
A expansão do contingente de eleitores independentes reforça a tese de que a comunidade hispânica prioriza a resolução prática de seus problemas cotidianos em detrimento de lealdades partidárias tradicionais.
Para Mike Madrid, o fenômeno evidencia que os eleitores latinos respondem prioritariamente a incentivos econômicos, funcionando muito mais como um bloco de interesses financeiros do que como um grupo homogêneo guiado por identidade étnica.
Fonte:: estadao.com.br


