A rápida evolução da computação quântica já começa a impor ao setor financeiro e a outras infraestruturas críticas um novo e complexo desafio de segurança cibernética. O objetivo principal é preparar sistemas, algoritmos e profissionais antes que as máquinas quânticas atinjam maturidade suficiente para comprometer os mecanismos criptográficos utilizados atualmente em escala global. O tema central foi amplamente debatido durante o painel intitulado “Computação quântica: Como preparar o ecossistema frente à segurança cibernética”, realizado em Brasília no âmbito do 4º Tech Bank Forum.
Representantes de grandes instituições como Banrisul, Banco do Brasil, Serpro, Huawei Brasil e especialistas em pesquisa quântica convergiram na avaliação de que a transição para a chamada criptografia pós-quântica precisa começar de forma antecipada. A urgência se dá porque a janela estimada para o surgimento de computadores capazes de executar ataques práticos em larga escala aponta para o período entre 2029 e 2030, comprimindo drasticamente o tempo hábil para adaptações estruturais profundas nas redes corporativas e governamentais.
A complexidade do ecossistema e o peso dos legados
Durante os debates, Jorge Krug, assessor da diretoria do Banrisul, enfatizou que a discussão não deve ficar restrita à construção física dos computadores quânticos. Segundo ele, o foco precisa recair sobre todo o ecossistema de segurança, o que engloba a integridade dos dados, a robustez da infraestrutura, a gestão de chaves e a revisão de algoritmos criptográficos. O executivo lembrou que grande parte dos mecanismos de segurança aplicados hoje fundamenta-se em tecnologias concebidas ainda nas décadas de 1970 e 1980.
Historicamente, a vulnerabilidade teórica foi demonstrada em 1994, quando um algoritmo específico provou que uma máquina quântica com poder adequado seria capaz de quebrar sistemas criptográficos clássicos. Naquela época, contudo, a capacidade de processamento física era inexistente para tornar a ameaça exequível. Com os saltos tecnológicos recentes, o cenário hipotético transformou-se em uma projeção de curto prazo.
“A questão é que não havia capacidade computacional para isso, mas essa data está chegando. É a criptografia pós-quântica. Está chegando o tempo de termos uma máquina quântica capaz de rodar esses algoritmos”, pontuou Krug. O executivo alertou que o maior erro estratégico é postergar a migração, visto que a substituição de algoritmos em ambientes corporativos complexos, repletos de sistemas legados e ativos diversificados, é um processo moroso e custoso.
Visibilidade, inventário e a corrida contra o tempo
Carlos Rischioto, pesquisador especializado em computação quântica, corroborou a visão de que a indústria entrou em uma fase definitiva de prontidão. De acordo com ele, a comunidade científica trabalha de forma paralela para avançar com o hardware quântico e, ao mesmo tempo, blindar as defesas digitais vigentes. A perspectiva de que o marco tecnológico ocorra no final desta década justifica a movimentação regulatória e institucional observada globalmente.
Contudo, o obstáculo transcende a mera troca de linhas de código ou de fórmulas matemáticas. Carlos Gonçalves, especialista em segurança digital do Banco do Brasil, ponderou que os protocolos atuais não são matematicamente indestrutíveis, mas carecem de métodos práticos de quebra nas condições tecnológicas presentes. Para o especialista, uma vez superada a barreira da criptografia atual, a substituição dos algoritmos será apenas uma etapa de um processo muito mais amplo que envolve toda a governança de dados.
Como primeiro passo prático, Gonçalves destacou a necessidade imperativa de inventário. As organizações precisam mapear com precisão cirúrgica onde a criptografia está implementada, quem detém o acesso a essas chaves e se os mecanismos de controle estão efetivamente blindados contra acessos não autorizados.
Iniciativas práticas e o fator humano
No âmbito governamental e de tecnologia pública, o Serpro já iniciou testes práticos com algoritmos pós-quânticos, inclusive com aplicações operando em ambiente de produção. Tiago Iahn, CISO da companhia, explicou que a diretriz é expandir os experimentos e monitorar de perto as inovações trazidas por fornecedores e pela comunidade acadêmica, transformando o bienal em um período de testes intensivos.
Já Marcelo Motta, CSO e DPO da Huawei Brasil, detalhou que a preparação corporativa exige atuação em duas frentes complementares: o avanço da comunicação quântica e o aprimoramento de algoritmos resistentes a ataques futuros. A empresa tem investido ativamente em tecnologias como a distribuição quântica de chaves (QKD). Motta lembrou que, além do risco quântico, as empresas enfrentam ameaças cotidianas consolidadas, citando que cerca de 40% das brechas de segurança ainda derivam de falhas operacionais internas e humanas, independentemente do nível de criptografia empregado.
Soberania tecnológica em debate
A vertente geopolítica também ganhou destaque na mesa de discussões. Marcelo Motta apontou o descompasso entre os investimentos aplicados no Brasil e o volume de recursos aportados por potências asiáticas, como a China, no desenvolvimento de tecnologias quânticas nativas. O diagnóstico ecoou na fala de Jorge Krug, que defendeu uma reflexão profunda sobre a soberania tecnológica do país.
Para o representante do Banrisul, o Brasil mantém uma dependência estrutural de ecossistemas estrangeiros, especialmente norte-americanos, na área de infraestrutura criptográfica. Krug sugeriu que o país articule a criação de plataformas e padrões próprios de criptografia pós-quântica, tratando o assunto como pauta de segurança nacional.
Encerrando as perspectivas sobre os desafios futuros, Carlos Rischioto apontou para a urgência do desenvolvimento da chamada agilidade criptográfica — a capacidade de uma corporação atualizar seu parque tecnológico de segurança em poucas semanas diante de uma nova vulnerabilidade. Paralelamente, o fator humano continua crítico: em um cenário onde ferramentas automatizadas facilitam a criação de sistemas complexos, o aprofundamento do conhecimento técnico especializado torna-se cada vez mais escasso e necessário.
Fonte:: convergenciadigital.com.br


