Estudo revela que mobilidade urbana precária afeta carreira de mulheres

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: © Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Um levantamento inédito realizado no Brasil revelou o impacto profundo que as dificuldades de deslocamento urbano exercem sobre a vida profissional e pessoal das mulheres. De acordo com a pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, desenvolvida pela consultoria Indique em parceria com a organização feminista Think Eva e a empresa 99, quatro em cada dez brasileiras (39%) já abriram mão de uma vaga de emprego ou de oportunidades profissionais devido a barreiras de mobilidade, que incluem falta de segurança, custos elevados, tempo de percurso e limitações territoriais.

O impacto na rotina das trabalhadoras vai além das demissões ou recusas de vagas. Mais da metade das entrevistadas (54%) relataram ter deixado de comparecer a compromissos de trabalho ou recusado convites corporativos pelos mesmos motivos. Além disso, 21% já precisaram desistir de cursos de capacitação profissional ou de ingressar no ensino superior.

Os prejuízos se estendem para a esfera social e de bem-estar. O estudo aponta que 80% das mulheres já faltaram a encontros ou eventos, enquanto um terço renunciou a atividades físicas, momentos de lazer (33%) ou visitas a familiares e amigos (32%). Além disso, 69% afirmaram deixar de sair à noite com frequência devido às barreiras enfrentadas nas ruas.

Para a realização do levantamento, foram ouvidas 564 mulheres de diferentes faixas etárias, classes sociais e regiões do país. Os dados indicam que a insegurança e a violência urbana representam o principal obstáculo, citado por 32% das participantes. Em seguida aparecem a falta de recursos financeiros (22%), a precariedade e insuficiência do transporte público (15%) e a distância física dos locais de destino (14%).

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Estratégias de proteção e medo do assédio

Diante desse cenário de vulnerabilidade, a sensação constante de insegurança molda o comportamento diário da maioria das mulheres. Cerca de 87% relataram evitar determinados bairros ou regiões nas cidades, enquanto 73% precisam planejar rigorosamente os horários de saída e chegada. Como medida de autoproteção, 63% já deixaram de utilizar algum meio de transporte específico e 60% adotaram rotas alternativas e mais longas para chegar aos destinos.

As barreiras geográficas e o medo de violência chegam a impedir realizações acadêmicas. Uma das participantes relatou ter conquistado aprovação em uma graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas precisou desistir do curso por não conseguir chegar a tempo ao campus, após abandonar o uso de ônibus em decorrência de múltiplos assaltos.

O assédio sexual surge como um dos fatores mais alarmantes. A pesquisa constatou que 89% das entrevistadas já foram vítimas de importunação ou violência em pelo menos um tipo de meio de transporte. As ocorrências predominam em ônibus (68,8%), deslocamentos feitos a pé (60,8%) e em sistemas de metrô ou trem (50,2%). Modais como bicicletas e motos por aplicativo foram apontados como os que geram menor sensação de vulnerabilidade, embora ainda somem menções de 6,6% e 4,1%, respectivamente.

Desigualdade de renda e uso de veículos

Os carros por aplicativo configuram-se como uma alternativa recorrente para oito em cada dez mulheres ouvidas (80%), apesar de representarem um peso financeiro considerável para 67% daquelas que residem em periferias ou áreas com defasagem estrutural de transporte.

O estudo aponta que 68% das mulheres não possuem veículo próprio e 52% despendem mais de uma hora diária apenas nos deslocamentos. Quase metade (45%) classifica a infraestrutura de mobilidade de seus bairros como inferior à das regiões centrais, e 33% definem o transporte público local como ruim ou péssimo.

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A renda familiar atua como fator determinante para o acesso aos modais de transporte. Enquanto 80,3% das mulheres de baixa renda utilizam ônibus com regularidade, o índice cai para 52,1% entre as de alta renda. Em contrapartida, o uso de carro próprio é uma realidade para 40,6% das mulheres de classe alta, comparado a apenas 8,3% das de baixa renda.

O peso da dupla jornada e do cuidado

Historicamente atribuídas às mulheres, as tarefas de cuidado também moldam as rotinas de deslocamento. Conforme o levantamento, 54% das entrevistadas afirmam executar esse tipo de trabalho de forma solitária, enquanto apenas 38% dividem a responsabilidade com outras pessoas.

Essa dinâmica explica por que os trajetos femininos raramente se resumem ao eixo casa-trabalho. Cerca de 43% planejam de forma independente percursos voltados ao cuidado, como transporte escolar, idas a consultas médicas, farmácias e compras. Além disso, 44% escolhem o meio de transporte com base exclusiva nessas obrigações. Quando precisam transportar dependentes, como filhos, idosos ou pessoas com deficiência, 53% recorrem a carros por aplicativo.

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Metodologia da pesquisa

A etapa quantitativa do estudo foi conduzida entre os dias 8 de junho e 9 de julho, ouvindo 564 mulheres com idades entre 18 e 60 anos. A coleta abrangeu as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de outras 73 cidades brasileiras. O projeto também integrou análises e contribuições de especialistas em planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina e desigualdades territoriais.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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