Impacto do racismo e da desigualdade na aprendizagem infantil

Marcelo Borges
5 min. de leitura
Foto: © Rovena Rosa/Agência Brasil

O desenvolvimento e as oportunidades de aprendizagem das crianças sofrem impactos diretos do racismo e das desigualdades sociais desde os primeiros anos de vida. A conclusão faz parte de uma análise realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, fundamentada nos dados de uma avaliação internacional que mapeou o desempenho de crianças aos 5 anos de idade, evidenciando disparidades associadas à raça, cor e ao nível socioeconômico.

De acordo com os especialistas, a primeira infância representa a etapa mais crítica para o desenvolvimento humano, sofrendo forte influência do ambiente, da qualidade das relações e das vivências proporcionadas à criança. Especialistas apontam que o racismo estrutural e as assimetrias históricas presentes no Brasil dificultam o acesso a serviços de excelência e limitam as experiências desde a tenra idade.

Marina Fragata Chicaro, diretora de Políticas Públicas da fundação, destaca que fatores como raça ou nível socioeconômico não definem a capacidade intelectual de um aluno. O que realmente molda o potencial de desenvolvimento são as condições concretas de vida, a efetiva garantia de direitos e a qualidade das oportunidades oferecidas às diferentes infâncias.

Dados do estudo internacional

A investigação teve como base os resultados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse levantamento avaliou o desempenho de alunos matriculados na pré-escola aos 5 anos de idade em três eixos principais: aprendizagens fundamentais, funções executivas e competências socioemocionais.

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Diferenças expressivas foram registradas em diversas dimensões avaliadas. No quesito de numeracia emergente — que abrange habilidades voltadas à contagem, comparação de quantidades e reconhecimento de padrões —, a disparidade racial foi evidente. O desempenho médio de crianças pretas alcançou 423 pontos, enquanto o de crianças brancas chegou a 463 pontos, registrando uma diferença de 40 pontos. Já as crianças pardas obtiveram uma média de 447 pontos.

Disparidades estatisticamente relevantes também apareceram na avaliação da memória de trabalho, que mede a capacidade de reter e manipular informações mentalmente. Nesse quesito, crianças pretas registraram 462 pontos, crianças pardas alcançaram 463 e crianças brancas pontuaram 471.

O peso das condições socioeconômicas

A pesquisa aprofunda a análise ao demonstrar que as assimetrias se tornam ainda mais acentuadas quando cruzadas com fatores socioeconômicos, como a renda familiar. O abismo mais expressivo ocorre novamente na área de numeracia, registrando uma diferença de 84 pontos entre crianças pretas, pardas ou indígenas oriundas de famílias com baixo nível socioeconômico, que somaram 416 pontos, e crianças brancas ou amarelas pertencentes a famílias de alto nível socioeconômico, que atingiram 500 pontos.

Outros setores afetados são a memória de trabalho e a literacia, esta última focada no desenvolvimento da linguagem e na compreensão de narrativas breves, palavras e sons. Em ambas as competências, a distância pontuada entre os dois grupos extremos foi de 55 pontos.

No campo da literacia, crianças pretas, pardas ou indígenas de menor renda obtiveram 477 pontos, em contraste com os 532 pontos alcançados por crianças brancas ou amarelas de alta renda. Na memória de trabalho, os resultados foram de 441 e 496 pontos, respectivamente.

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Para Marina Chicaro, ignorar essas disparidades na primeira infância gera um efeito cumulativo ao longo da vida escolar, comprometendo trajetórias educacionais inteiras e minando a construção de uma sociedade mais justa e equitativa que valorize a diversidade como força motriz.

Caminhos para a reversão do quadro

Apesar do cenário desafiador, a análise aponta que a identificação precoce dessas assimetrias permite a implementação de medidas corretivas. O estudo destaca a existência de marcos legais importantes no país voltados para a mitigação dessas barreiras:

  • Política Nacional Integrada da Primeira Infância: prioriza crianças em situação de vulnerabilidade com foco na redução de desigualdades.
  • Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola: estabelece diretrizes para combater preconceitos desde a educação infantil.
  • Novo Plano Nacional de Educação: propõe o monitoramento do acesso e permanência de públicos específicos, como crianças negras, indígenas e quilombolas, alinhando estratégias na pré-escola.

Entre as recomendações práticas para o aprimoramento das políticas públicas, os especialistas pontuam a necessidade de monitoramento rigoroso por quesito de raça e cor, a combinação de ações universais e focalizadas em territórios vulneráveis, a qualificação contínua dos docentes da rede pública, o fortalecimento de práticas pedagógicas lúdicas para o aprendizado de matemática e a integração intersetorial entre saúde, educação e assistência social.

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Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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