O Pentágono demitiu o editor-chefe do Stars and Stripes e uma de suas principais repórteres sob a alegação de insubordinação. A decisão ocorreu depois que ambos se posicionaram publicamente contra qualquer tipo de interferência do Departamento de Defesa dos EUA no veículo de imprensa voltado às Forças Armadas, que possui uma longa tradição de autonomia editorial. A medida representa mais um episódio na escalada de tensão entre o governo e os veículos de comunicação.
O diretor do periódico, que havia comunicado recentemente sua aposentadoria para breve, também foi desligado do cargo.
Erik Slavin, editor-chefe da publicação militar — que recebe financiamento parcial do Pentágono —, relatou à Associated Press que recebeu uma notificação de demissão por insubordinação. A punição também atingiu o diretor Max Lederer, cuja aposentadoria já estava anunciada, e a repórter especializada na cobertura do Oriente Médio, Lara Korte, conforme detalhou Slavin.
As demissões acontecem em um cenário onde a administração de Donald Trump adota uma postura progressivamente mais rígida em relação à imprensa. Entre as medidas adotadas estão restrições acentuadas ao acesso de jornalistas credenciados às dependências do Pentágono. O Executivo norte-americano também tem acumulado confrontos judiciais e políticos com grandes redações, como The Wall Street Journal, Associated Press e The New York Times, além de acionar a Comissão Federal de Comunicações (FCC) para exercer pressão sobre redes televisivas.
Segundo Slavin, o seu desligamento foi motivado por declarações concedidas a uma emissora de TV, na qual pontuou que uma eventual censura aos conteúdos destinados aos militares representaria uma linha vermelha inaceitável. A repórter Lara Korte participou da mesma entrevista.
“Defendo o princípio de que o Stars and Stripes deve permanecer editorialmente independente, conforme exigem a lei e as próprias normas do departamento”, declarou Slavin.
Entidades jornalísticas criticam medida do governo
Mark Schoeff Jr., presidente do National Press Club, classificou o desligamento de Slavin como uma manobra explícita do Pentágono para direcionar o conteúdo jornalístico voltado às tropas, exigindo a reversão imediata da medida.
“Demitir o editor de um veículo após a defesa pública da independência de sua redação gera profunda apreensão e deve preocupar todos os profissionais da imprensa e os membros das Forças Armadas dos Estados Unidos que dependem de informações isentas”, pontuou Schoeff.
Max Lederer e Lara Korte não se manifestaram de forma imediata aos pedidos de esclarecimento. Por meio de uma rede social, Korte escreveu: “Fui informada de que o Departamento de Defesa está me desligando por insubordinação após eu declarar a uma repórter que trabalho para o Stars and Stripes, e não para o Pentágono, para o governo ou para formuladores de políticas públicas”.
Dias antes das demissões, Lederer havia anunciado que deixaria a direção do jornal no final de setembro, após décadas de atuação na função. O anúncio veio na sequência da imposição, por parte do Pentágono, de um novo vice-diretor militar na redação, sem consulta prévia aos dirigentes. A nomeação motivou parlamentares democratas a enviarem questionamentos formais ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, sobre os critérios para a designação do capitão de mar e guerra William Urban para o posto.
A saída de Lederer ocorre no momento em que a gestão de Hegseth no Pentágono busca ampliar o controle sobre o conteúdo veiculado e eliminar o que o alto escalão classifica como distrações ideológicas.
Em abril, a ombudsman do jornal, Jacqueline Smith, cuja atribuição consistia na salvaguarda da independência editorial, já havia sido exonerada pelo departamento.
Em memorando interno enviado à equipe, Lederer pontuou que suas convicções sobre a missão do veículo divergiam profundamente dos rumos pretendidos pela nova liderança do Departamento de Defesa.
Novo dirigente detalha diretrizes para o periódico
Por meio de uma carta aberta veiculada no próprio jornal, William Urban apresentou suas diretrizes e afirmou compreender a integração a uma equipe comprometida com a autonomia editorial, voltada prioritariamente ao atendimento dos integrantes das Forças Armadas e de seus familiares.
“Atuo há mais de duas décadas como profissional de comunicação e porta-voz em missões desafiadoras da Marinha e do Departamento de Guerra”, destacou.
Ainda não está definido se Urban acumulará permanentemente a direção-geral do veículo. Em contato com a Associated Press, ele evitou antecipar qual será sua função definitiva na estrutura organizacional.
Durante entrevista telefônica, Urban ressaltou que a redação conta com profissionais qualificados e focados em prestar um serviço de excelência ao público militar. Ele mencionou que, embora não possua trajetória formal no jornalismo tradicional, sua experiência está concentrada na comunicação institucional e pública, com planos voltados para o fortalecimento das plataformas digitais do periódico.
“Precisamos aprimorar nossa presença no ambiente digital para assegurar que alcancemos o maior contingente possível de militares e geremos o impacto necessário”, concluiu.
Fonte:: estadao.com.br


