O evento SECOP 2026 reuniu autoridades e especialistas de diversas regiões do país para debater os rumos da inovação tecnológica na administração pública. Com o painel intitulado “Como a tecnologia está redesenhando o serviço público”, o encontro colocou em pauta a urgência de ir muito além da simples digitalização de documentos e formulários antigos, priorizando a efetividade, a segurança e a real utilidade dos serviços entregues à população.
A mediação do debate foi conduzida pela jornalista Ana Paula Lobo, diretora do portal Convergência Digital. Em sua abertura, ela enfatizou que o foco principal da tecnologia governamental deve ser a criação de facilidades reais para o cotidiano das pessoas. Segundo a especialista, o grande desafio consiste em garantir que as ferramentas digitais traduzam-se em serviços públicos verdadeiramente eficientes e acessíveis.
A experiência prática dos estados trouxe perspectivas essenciais sobre crises e superações. Danielle Calazans, secretária de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul, relembrou que, embora a pandemia de Covid-19 tenha funcionado como um acelerador digital, o maior teste para a infraestrutura gaúcha foram as graves enchentes registradas em 2024. O episódio testou os limites da Procergs, uma das principais empresas públicas de processamento de dados do país, que enfrentou um período de 18 dias com sistemas fora do ar devido aos estragos climáticos.
A gestora explicou que a situação crítica forçou uma revisão profunda na governança e na continuidade dos serviços públicos. Como exemplo de evolução, ela destacou o avanço da assistente virtual “Guria”, que passou a permitir a transação de serviços diretamente pelo aplicativo WhatsApp, simplificando o acesso para os cidadãos. As adversidades climáticas, de acordo com ela, consolidaram processos mais seguros e estruturados para evitar falhas futuras em momentos de emergência.
O papel estratégico do apoio político e da gestão
A necessidade de um forte respaldo político para impulsionar a inovação foi unânime entre os gestores estaduais. Ana Maraíza de Souza, secretária de Administração de Pernambuco, destacou que a transformação tecnológica precisa contar com um patrocínio sólido da alta gestão para que surta efeito prático. Para ela, a prioridade deve ser o redesenho dos fluxos de trabalho, garantindo transparência e facilidade tanto para quem opera o sistema quanto para o cidadão na ponta.
No mesmo sentido, Danielle Calazans apontou que vincular o orçamento público às estratégias de tecnologia evita desperdícios financeiros, direcionando recursos estritamente para iniciativas que gerem resultados objetivos. A opinião foi corroborada por Braulio Abreu, presidente da Emgetis, em Sergipe, que classificou o apoio governamental como a base de sustentação para qualquer avanço tecnológico de grande porte no setor público, dada a alta complexidade e o custo financeiro envolvidos.
Por sua vez, Marcelo Azeredo Cornélio, diretor-presidente do Prodest, no Espírito Santo, apresentou uma visão crítica sobre os verdadeiros entraves na máquina pública. Para ele, o problema raramente reside na ferramenta ou no software escolhido, mas sim na qualidade da gestão. Cornélio argumenta que enquanto a tecnologia pode ser adquirida facilmente no mercado, a cultura organizacional e a governança exigem tempo e construção contínua, alertando que processos ruins resultam em serviços ruins, independentemente do sistema utilizado.
Soberania, inteligência artificial e o futuro
Os debates também abordaram o horizonte econômico e estrutural da tecnologia governamental. Enylson Camolesi, diretor-presidente do ITI, pontuou que os custos de produção tecnológica tendem a subir, mas defende que o retorno social compensa amplamente o investimento. Como exemplo, citou o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial voltadas para a detecção de fraudes. Camolesi também ressaltou a urgência de o Brasil transitar da condição de consumidor primário para a de produtor de tecnologia.
Discutindo os próximos passos, Danielle Calazans reforçou a importância de uma visão ampla para atender inclusive populações em áreas rurais ou de difícil acesso, destacando que a inteligência artificial tem um papel crucial nessa inclusão. Ela lembrou que, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, mais de 150 mil famílias receberam auxílios financeiros sem sair de casa, graças ao cruzamento inteligente de dados de vulnerabilidade.
Complementando o raciocínio, Marcelo Azeredo Cornélio definiu que o ápice da digitalização ocorre quando o serviço se torna invisível, permitindo que o usuário utilize a ferramenta sem precisar focar no fato de ela ser digital. Ele ressaltou ainda a necessidade de uma governança de dados robusta, aliada a diretrizes rígidas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a protocolos avançados de segurança cibernética.
Em Pernambuco, iniciativas como o programa “Agentes Digitais” buscam justamente transformar a cultura interna das secretarias, integrando plataformas para evitar que o cidadão precise fornecer informações repetidas vezes. Em Sergipe, o projeto “Sergipe Digital para Todos” atua na capacitação contínua de parcelas da população que possuem menor familiaridade com o ambiente virtual, conforme pontuou Braulio Abreu.
Encerrando as discussões, Enylson Camolesi alertou para a necessidade de enxergar a tecnologia como uma política de Estado, e não apenas de governo. Ele enfatizou que empresas públicas federais como Serpro, Dataprev e Telebras desempenham um papel vital e estratégico. Segundo ele, retrocessos na continuidade dessas estruturas podem atrasar o desenvolvimento digital do país por uma década, tornando imprescindível a manutenção de investimentos consistentes e de longo prazo.
Fonte:: convergenciadigital.com.br



