Completando três décadas de existência neste dia 17 de julho de 2026, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) chega a seu trigésimo aniversário envolta em debates sobre a necessidade de aprofundar a cooperação mútua, a integridade institucional e a participação ativa da sociedade civil nos nove Estados-membros que integram o bloco transcontinental.
Fundada formalmente em 1996, a organização reúne nações unidas pelo idioma português e por diretrizes voltadas à cooperação política, diplomática e cultural. O grupo é composto por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, além de contar com a adesão de Timor-Leste em 2002, logo após sua independência, e da Guiné Equatorial em 2014. No total, a comunidade agrupa cerca de 300 milhões de habitantes distribuídos por quatro continentes diferentes.
Ao longo de sua trajetória, a CPLP buscou se firmar como um fórum relevante de diálogo e aproximação entre governos com realidades geográficas e históricas distintas. No entanto, o marco temporal atual também estimula análises críticas sobre os obstáculos estruturais que persistem na região. Embora apresentem contextos institucionais variados, os países do bloco enfrentam com frequência problemáticas comuns, a exemplo do enfraquecimento de mecanismos de fiscalização, da captura de órgãos estatais e de episódios de corrupção que atingem a administração pública, os sistemas de justiça e o espaço cívico.
Diante de um panorama internacional adverso para a sustentabilidade democrática, ataques a organizações, à transparência e às liberdades civis ganham força. Nesse contexto, torna-se imprescindível estimular alianças transnacionais focadas na promoção da integridade pública, no direito à informação e na participação cidadã na gestão dos assuntos estatais.
É justamente nesse cenário que redes formadas por entidades não governamentais assumem um papel de destaque, funcionando como catalisadoras de boas práticas, intercâmbio de saberes e incidência política coordenada entre os territórios lusófonos. Um exemplo dessa atuação é a RedeGOV – Rede pela Boa Governança e Desenvolvimento Sustentável na Lusofonia, ativa desde 2017.
O papel estratégico da RedeGOV
A RedeGOV constitui-se como uma articulação cívica autônoma que une organizações da sociedade civil de diversas nações falantes de português em torno de um objetivo comum: consolidar uma lusofonia pautada pela boa governança, pela sustentabilidade e pela imunidade à corrupção, onde governos e cidadãos atuem cooperativamente na defesa dos direitos fundamentais, da liberdade de expressão e da democracia participativa.
Para alcançar essas metas, a coalizão promove capacitações, compartilhamento de experiências práticas e ações coordenadas de incidência política voltadas ao aprimoramento de normas anticorrupção no âmbito da própria estrutura da CPLP. Desde outubro de 2023, as atividades da RedeGOV contam com o apoio financeiro e institucional do National Endowment for Democracy (NED), viabilizando um programa direcionado especificamente à prevenção e ao combate de esquemas ilícitos transnacionais no espaço lusófono.
O encontro da RedeGOV procurou identificar estratégias eficazes no combate à corrupção e fortalecer a democracia e os direitos humanos nos países da CPLP. Foto: Divulgação
A atuação executiva da Transparência Internacional – Brasil
A coordenação operativa desse esforço coletivo conta com a participação da Transparência Internacional – Brasil, que exerce o papel de Secretaria Executiva da RedeGOV desde o ano de 2024.
Nessa condição, cabe à organização brasileira articular a cooperação entre os parceiros regionais, fomentar a geração e difusão de conhecimentos técnicos e potencializar a comunicação pública da rede sobre os pilares da integridade governamental na comunidade de língua portuguesa.
As frentes de trabalho envolvem a elaboração de análises sobre os reflexos da corrupção transfronteiriça na CPLP, o monitoramento de indicadores de governança como o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) nos países de língua portuguesa, além do suporte a iniciativas de intercâmbio entre jornalistas e ativistas de controle social dos países-membros, a exemplo do II Encontro de organizações e ativistas anticorrupção de países lusófonos.
Ao aproximar atores sociais de diferentes nações e estimular a replicação de metodologias bem-sucedidas, a iniciativa amplia a incidência cívica na cobrança por administrações públicas mais transparentes, éticas e responsáveis perante a população.
A urgência da cooperação em rede
A corrupção transnacional não respeita fronteiras, manifestando-se frequentemente por meio de fluxos financeiros escusos, redes sofisticadas de lavagem de dinheiro e captura de esferas estatais que ultrapassam os limites territoriais de um único país lusófono. Por essa razão, a cooperação estreita entre as sociedades civis desses territórios configura-se como um elemento indispensável de resposta a tais ameaças.
Sob o lema adotado para as celebrações de suas três décadas — “Unidade na Diversidade, Uma Comunidade para os Povos” —, a CPLP reafirma sua relevância diplomática. O desafio central reside em traduzir essa união em melhorias concretas e perceptíveis no cotidiano dos cidadãos. A atuação de coletivos como a RedeGOV evidencia que a sociedade civil desempenha um papel determinante na superação de barreiras comuns, pavimentando o caminho para a construção de soluções compartilhadas e duradouras.
Ao assinalar os 30 anos do bloco, a TI Brasil renova seu engajamento com essa pauta e convida profissionais da imprensa, pesquisadores e a cidadania em geral a acompanharem as atividades desenvolvidas pela RedeGOV e pelas demais instituições associadas.
Para mais informações e acompanhamento das ações, acesse o portal oficial: redegov.org
Os casos de corrupção registrados nos países da CPLP envolvem setores como infraestrutura, petróleo, mineração e Defesa – eventualmente conectando esses países com grandes centros financeiros globais. Foto: Divulgação


