O Coritiba promoveu uma reformulação expressiva em sua política de utilização de cartões de crédito corporativos. Diante de um cenário nacional marcado por controvérsias envolvendo dirigentes de outras equipes do futebol brasileiro, o clube paranaense identificou registros de despesas atípicas, como a aquisição de peças de vestuário, antes de endurecer os critérios de controle interno e praticamente abolir a ferramenta de pagamento.
A mudança nos procedimentos ganhou tração após a saída de Pedro Menezes, que atuava como gerente de Suprimentos e Negócios do Alviverde. O ex-funcionário, que deixou a instituição para integrar a equipe da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), apontou que a estrutura anterior contava com 25 cartões corporativos distribuídos entre colaboradores de diferentes setores, o que dificultava o monitoramento rigoroso das transações.
“Quando a gente analisou, encontramos até compras de roupas”, declarou o ex-gerente em entrevista que detalhou os bastidores da gestão financeira do clube do Alto da Glória.
Para mitigar riscos e coibir eventuais abusos, a diretoria alviverde firmou parceria com a plataforma Paytrack. Pelo novo modelo implementado, as despesas de menor valor passaram a ser custeadas inicialmente pelos próprios colaboradores com recursos próprios, montantes que posteriormente são integralmente reembolsados após a devida prestação de contas. Com essa transição, os tradicionais cartões corporativos perderam espaço na rotina administrativa do clube.
Atualmente, apenas um único cartão corporativo permanece ativo no departamento financeiro do Coritiba. O artefato é restrito à quitação de obrigações específicas que não aceitam outras modalidades de transação, a exemplo de serviços recorrentes por assinatura.
“Os colaboradores têm uma conta digital. Por exemplo: a pessoa vai viajar e tem estimado um custo de R$ 10 mil. Então, o Coritiba deposita nessa conta digital os R$ 10 mil, e a pessoa vai utilizando os recursos via pix. Depois, precisa apresentar comprovantes para justificar essas compras”, explicou Menezes sobre o funcionamento do modelo vigente.

Bandeira do Coritiba no Couto Pereira. (Foto: Divulgação).
Panorama dos clubes da Série A sobre o uso de cartões
O debate sobre a transparência no uso de cartões de crédito em entidades esportivas ganhou amplitude após levantamento realizado com os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro. Entre as equipes consultadas, apenas nove forneceram esclarecimentos sobre suas políticas internas de controle, limites por fatura e perfil dos usuários autorizados: Atlético-MG, Corinthians, Coritiba, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Vasco e Vitória.
Em contrapartida, equipes como o Athletico, Bahia, Botafogo, Red Bull Bragantino, Chapecoense, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Mirassol e Remo optaram por não divulgar informações detalhadas a respeito da gestão de seus instrumentos de pagamento corporativo.
Casos de repercussão nacional em Corinthians e São Paulo
A atenção sobre o tema foi intensificada por episódios recentes envolvendo ex-mandatários de grandes clubes paulistas. No Corinthians, a utilização irregular de cartões corporativos resultou na expulsão do ex-presidente Andrés Sanchez do quadro associativo, além de desdobramentos na esfera judicial a partir de denúncias apresentadas pelo Ministério Público.
Auditorias apontaram que os gastos contestados somaram cerca de R$ 480,1 mil, com valores corrigidos, realizados entre agosto de 2018 e fevereiro de 2021. A lista de despesas incluía aquisições de relógios de luxo, passagens por barbearias, estabelecimentos gastronômicos, farmácias, hospitais e viagens de lazer. O ex-dirigente alegou ter confundido os cartões corporativos com suas contas pessoais e efetuou o ressarcimento parcial de R$ 15 mil aos cofres corinthianos.
Movimentação semelhante ocorreu no São Paulo com a gestão de Julio Casares. O ex-presidente são-paulino utilizou montantes superiores a R$ 1 milhão durante seu mandato e acabou realizando a devolução de aproximadamente R$ 560,4 mil ao clube após contestações internas.
Investigações e relatos jornalísticos evidenciaram o uso recorrente do cartão em estabelecimentos de entretenimento na capital paulista, lojas de grife internacionais, despesas com cuidados estéticos e viagens oficiais. O ex-dirigente acabou renunciando ao cargo antes da conclusão do processo de impeachment no Conselho Deliberativo, enquanto o clube instaurou comissões de ética e investigações adicionais conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público para apurar outras vertentes administrativas do período.
Fonte:: umdoisesportes.com.br


