Trump celebrou a si mesmo no 4 de julho depois de passar a perna nos americanos

Marcelo Borges
10 min. de leitura
Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Quando o sol brilhava e eu passeava

E os campos de trigo ondulavam, e as nuvens de poeira rolavam

Enquanto a neblina se dissipava, uma voz entoava:

Esta terra foi feita para você e para mim.

Woody Guthrie, “This Land Is Your Land”

Nosso país foi construído com base em documentos escritos — a Declaração de Independência, a Constituição e a Declaração de Direitos (Bill of Rights), para citar os mais importantes. Assim, para celebrar o aniversário de 250 anos dos Estados Unidos, minha esposa, Ann, organizou um evento especial no Planet Word, o museu imersivo dedicado à linguagem que ela fundou em Washington para promover a alfabetização. O cantor e compositor Nolan Williams Jr. conduziu uma sessão de canto coletivo com clássicos americanos, incluindo, é claro, “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie.

Apesar do calor intenso — beirando os 38 graus ºC —, um público notavelmente diverso de 300 pessoas lotou o saguão principal do museu, e jovens e idosos cantaram juntos com entusiasmo. Havia tanta alegria e camaradagem no ambiente — e muitos participantes, ao saírem, comentavam uns com os outros como desejavam que todo o país pudesse refletir essa mesma harmonia todos os dias. Muitos perguntaram depois: “Por que não estamos cantando essas músicas juntos no National Mall?”

O que nos leva — lamento dizer — à seguinte reflexão. Se pudesse, Trump cantaria no National Mall uma variação bem diferente de “This Land Is Your Land”. Na minha cabeça, a letra seria assim:

“Esta terra é minha terra, esta terra é minha terra / Da Califórnia à ilha de Nova York / Da minha criptomoeda ao 747 do Catar / Esta terra pertence a mim e aos meus.”

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Uma coisa sobre o presidente Trump: ele é consistente. Ele nunca surpreende positivamente. Nunca demonstrou o menor interesse em ser o presidente de todo o povo, apenas de sua base. Ele nunca tenta vencer pela soma, apenas pela divisão — apenas pelo “nós contra eles”.

Como relatou meu colega de redação Shawn McCreesh, diretamente do National Mall: “O Trump aproveitou o aniversário da nação para disseminar o medo em relação aos democratas, faltando quatro meses para as eleições de meio de mandato (ele falou muito novamente sobre ‘comunismo’) e para exigir que o Congresso aprovasse uma lei que dificultasse o voto.” Shawn continuou: “O que deveria ser o ponto alto das comemorações do 250º aniversário da nação acabou sendo, de certa forma, apenas mais um comício de Trump”.

Nesse mesmo 4 de julho, dois outros colegas meus de redação, Eric Lipton e David Yaffe-Bellany, noticiaram que quase “1 milhão de pessoas que compraram a *memecoin* do presidente Trump perderam dinheiro até o final de junho, segundo um relatório da Nansen, empresa de análise de criptomoedas. Suas perdas somam US$ 3,81 bilhões”. Meus colegas destacaram que esse cálculo surgiu depois que Trump assinou uma declaração financeira revelando que a mesma aposta em criptoativos lhe rendeu US$ 636 milhões. Ao todo, seus empreendimentos comerciais lhe proporcionaram pelo menos US$ 2,2 bilhões em 2025.

Essa é uma história de grande repercussão, e meu instinto me diz que Trump também percebe que isso pode se tornar uma grande notícia: a história de como ele extorquiu descaradamente seus próprios apoiadores!

O presidente Donald Trump em um evento do Dia da Independência em homenagem ao 250º aniversário do país, no sábado, 4 de julho de 2026, no National Mall, em Washington

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Desde o início do segundo mandato de Trump, tem sido amplamente noticiado que ele vem explorando a presidência para obter ganhos financeiros, mas a história precisava de números reais e vítimas reais. Agora, ela tem ambos: US$ 2,2 bilhões em ganhos totais para Trump e pelo menos US$ 3,81 bilhões em prejuízos para seus investidores. Isso é material para slogan de adesivo de para-choque. Trump ficou famoso por se gabar de que poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida e seus apoiadores continuariam ao seu lado. Será que eles também permanecerão com ele depois de serem extorquidos por ele?

E não resta dúvida de que ele tinha como alvo justamente essas pessoas, como também noticiou o The Times: “Três dias antes de sua posse, Trump lançou um segundo investimento com a marca Trump — a *memecoin* $Trump, um tipo de moeda de caráter recreativo com pouco valor prático. ‘É hora de celebrar tudo o que defendemos: VENCER!’, escreveu Trump nas redes sociais. ‘Juntem-se à minha comunidade Trump, muito especial. GARANTAM SEU $TRUMP AGORA!’ Mas isso acabou sendo um péssimo conselho”.

Trump certamente está aterrorizado com a possibilidade de os Democratas conquistarem a Câmara, o Senado ou ambos, e iniciarem investigações sobre o quanto ele utilizou o cargo — e explorou seus próprios apoiadores — para obter ganhos pessoais escandalosos. Portanto, a meu ver, há dois temas adequados para os Democratas nas eleições de meio de mandato: se vencerem, eles revelarão o quanto Trump tem explorado seus próprios apoiadores; e, se vencerem, farão da união do país uma prioridade.

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Acredito que a busca pela unidade nacional seja a força política mais subestimada do país atualmente. Não é por acaso que a CNN noticiou, no mês passado, que “quase metade dos americanos afirma não se considerar integrante de nenhum dos dois principais partidos políticos — o maior nível de independência partidária registrado em pesquisas da CNN em mais de uma década”.

Tenho certeza de que isso é verdade, pois ouvi o melhor analista político que conheço defender esse mesmo ponto de vista. O nome dele é Barack Obama. O que me leva a uma terceira variação de “This Land Is Your Land”: o discurso de Obama na cerimônia de inauguração de seu centro presidencial em Chicago, evento do qual participei. O trecho de que mais gostei na fala de Obama foi este:

À medida que os algoritmos continuam a nos bombardear com um fluxo constante de distrações e indignação, e apenas as vozes mais estridentes e extremas ganham atenção — alimentando nossos preconceitos e apelando aos nossos instintos mais básicos e tribais —, é tentador ceder ao cinismo e até ao desespero, e simplesmente desistir. Começamos a achar que apelos à democracia e à participação cívica são cafonas, antiquados, entediantes e ingênuos; que a própria ideia de trabalhar em prol do bem comum é coisa de otário; e que, para nós ganharmos, alguém mais tem de perder. Eu entendo isso. Não estou imune à raiva ou à dúvida, mas sei de uma coisa: quando perdemos a fé uns nos outros — quando deixamos de acreditar que o voto importa, que a cidadania importa, que nossas vozes coletivas importam, que a maneira como tratamos uns aos outros ainda importa — e abrimos mão do poder de decidir nosso próprio futuro, abrimos as portas para os mais implacáveis, os mais irresponsáveis ​​ou os mais medrosos entre nós; pessoas que veem certos grupos e indivíduos como “mais iguais” do que outros e encaram o governo apenas como um meio de dividir o butim, punir inimigos e manter quem é diferente em seu devido lugar.

Barack Obama

No entanto, o fato é — continuou Obama — que “não acredito que essa seja a história da América que prevalecerá no final. […] Continuo convencido de que a esmagadora maioria dos americanos […] não busca raiva e divisão perpétuas. Eles buscam justiça, bom senso e respeito mútuo; lá no fundo, queremos encontrar uma maneira de nos voltarmos uns para os outros novamente, em vez de nos afastarmos ainda mais”.

Portanto, democratas, eis a missão de vocês: não deixar que Trump os provoque a ponto de cair na raiva cega e em ideias extremas. Ele se alimenta disso. Concentrem-se apenas em como ele tem explorado a todos nós enquanto nos divide. E em como os democratas pretendem unir o país inteiro.

Porque esta terra foi feita para você e para mim.

Fonte: estadao.com.br

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