Apuração da PF aponta que Jaques Wagner recebeu vantagens; senador nega acusações

Marcelo Borges
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Foto: © Lula Marques/ Agência Brasil

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18), foi fundamentada em uma investigação da Polícia Federal. Conforme a apuração, o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões do banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master.

Em entrevista à Band News, Wagner rejeitou qualquer irregularidade e expressou estar “absolutamente tranquilo” em relação à investigação. “Até agora, não sou réu; não sou culpado; não sou nada. É uma investigação em cima do que eu imagino que a Polícia Federal encontrou em celulares [apreendidos] ou em alguma delação de alguém que eu desconheço”, afirmou o senador.

Elementos da investigação

Na decisão de Mendonça, o ministro destacou que a PF, ao solicitar que o STF impusesse restrições legais aos alvos da 9ª fase da operação, apresentou “elementos indicativos de recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado”.

Os investigadores declararam que “a possível relação ilícita” entre Wagner e Lima “seria antiga, próxima e marcada por elevado grau de confiança pessoal”, o que teria gerado um ambiente propício para negociações reservadas que favorecessem os interesses privados do Banco Master.

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Além disso, a PF afirmou que o senador teria escolhido um apartamento no residencial Poème Horto, localizado em um bairro nobre de Salvador, o Horto Florestal. O documento indica que Wagner encaminhou a Lima informações sobre o empreendimento e o corretor responsável pela venda da unidade.

Uma vez com os dados em mãos, Lima teria acionado Valério Marega Júnior, identificado como “operador financeiro” do Banco Master, para discutir a aquisição do imóvel. A negociação contou ainda com a participação de Daniel e David Lopes Monteiro, que a PF afirma estarem vinculados ao núcleo empresarial e jurídico-financeiro do Banco Master.

Wagner reconheceu conhecer Augusto Lima há algum tempo, mas negou ter qualquer ligação com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro, com quem alegou ter se encontrado apenas em duas ocasiões. O parlamentar também confirmou que pediu a Lima a compra de um apartamento do residencial Poème Horto, com a intenção de adquiri-lo posteriormente.

“Eu tinha interesse de ajudar a minha filha a comprar um apartamento desses. Como o Guga [Augusto Lima] é um investidor, eu disse a ele: ‘Você pode comprar? Depois eu vou recomprar. Porque o apartamento está em construção, não está pronto, e eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar e pagar o apartamento, ou ela financiar’,” detalhou Wagner, ressaltando que não há registros de transferência de propriedade para o seu nome.

Vantagens recebidas

A Polícia Federal também apontou que o senador recebeu outras vantagens econômicas do banqueiro, incluindo mais de R$ 5,5 milhões repassados à BN Financeira, empresa administrada por familiares do político, que, segundo os investigadores, desempenha um papel central nos pagamentos supostamente destinados ao círculo familiar de Jaques Wagner.

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Entre as vantagens mencionadas estão o uso gratuito de aeronaves pagas por Lima e pelo Banco Master e o recebimento de ingressos para eventos no exterior. Parte das informações foram obtidas a partir de dados extraídos de celulares de Lima, que foram apreendidos na primeira fase da Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.

A PF apresentou áudios e mensagens onde Wagner e Lima discutiam um encontro em uma ilha pertencente ao banqueiro, que ofereceu uma aeronave ao político para levá-lo. Além disso, há mensagens em que o senador questiona um funcionário de Lima sobre os ingressos para um camarote em um show em Los Angeles (EUA) que foram oferecidos a familiares de Wagner, adquiridos com recursos da Reag Investimentos, por R$ 63,33 mil.

Emendas e atuação parlamentar

As investigações da PF também ressaltam a atuação de Wagner em temas regulatórios de interesse do grupo Master. O senador apresentou uma emenda parlamentar (nº 30) durante o trâmite da Medida Provisória nº 1.106/2022, que estabeleceu limites para a cobrança de juros.

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A MP culminou na transformação da Lei nº 14.431, de 2022, que aumentou a margem de crédito consignado para segurados do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e autorizou a realização de empréstimos para beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de programas federais de transferência de renda. Mendonça acrescentou que, segundo a PF, Wagner também apresentou a Emenda nº 26 à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 65/2023, que confere autonomia orçamentária, financeira e operacional ao Banco Central.

O senador negou ter atuado em favor de interesses privados de qualquer grupo econômico, lembrando que votou contra uma proposta do senador Ciro Nogueira (PP-PI) que pretendia aumentar o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. “O governo foi contra o aumento da garantia do FGC. Eu, como líder do governo, encaminhei contra essa emenda”, reiterou Wagner.

Em nota, a defesa de Augusto Lima qualificou as diligências como “desnecessárias”, ressaltando que ele está à disposição das autoridades para esclarecer os fatos sob investigação. Lima afirma que as medidas contribuirão para demonstrar que os acontecimentos apurados nesta fase da investigação são legais.

Dinheiro encontrado na residência de Wagner

O senador confirmou que, durante cumprimento de mandado de busca e apreensão em sua residência em Brasília, os policiais federais localizaram US$ 49 mil (cerca de R$ 250 mil). Segundo a assessoria do senador, parte do montante é proveniente de diárias pagas em espécie pelo Senado Federal durante missões parlamentares ao exterior, além de recursos pessoais devidamente declarados no Imposto de Renda.

“Comprei, via Banco do Brasil, dólares ou euros para viagens. Não tenho nada a esconder sobre esse dinheiro. Ele está guardado em um cofre porque, quando viajo, nem sempre levo a diária. Às vezes eu gasto com cartão e o dinheiro está lá”, explicou Wagner, afirmando que o montante apreendido estava acondicionado em envelopes com timbre do Senado.

Para finalizar, a assessoria do senador Jaques Wagner emitiu uma nota afirmando que o parlamentar não é réu, não foi denunciado e não controvérsia em qualquer processo relacionado aos fatos que estão sendo investigados. O senador mantém a tranquilidade quanto ao andamento das apurações e confia na condução delas.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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