Avanço de Populismo e Cartéis na Colômbia Reflete Modelo de Segurança de El Salvador

Marcelo Borges
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Foto: Divulgação / Estadao.com.br

A recente vitória do advogado Abelardo De La Espriella, um populista de direita, sobre o candidato de esquerda Iván Cepeda nas eleições colombianas, realizadas no domingo, 21, demonstra, segundo analistas consultados, uma crescente aderência do eleitorado conservador a propostas mais rigorosas para combater a violência na América Latina. Este cenário é fortemente influenciado pelo modelo implementado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Os especialistas atribuem esse fenômeno à frustração dos eleitores com a tradicional direita política e ao aumento das atividades de cartéis criminosos na região, que agora operam em múltiplos países. De La Espriella se destacou como o candidato mais votado no primeiro turno, obtendo 43,7% dos votos e superando tanto Cepeda quanto a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia. O advogado utiliza uma retórica semelhante à de Bukele, enfatizando a segurança pública e a utilização de medidas coercitivas contra a criminalidade.

Assim como outros candidatos de direita radical que têm ganhado força à custa de líderes mais tradicionais em países como Chile, Costa Rica e Argentina, a ascensão de Espriella foi considerada surpreendente. Eduardo Mello, vice-diretor do Departamento de Relações Internacionais da FGV, observa que o resultado reflete a insatisfação com as políticas do atual presidente Gustavo Petro e com a postura da direita tradicional em relação à criminalidade.

“Historicamente, a forte bandeira da direita sempre foi a ideia de uma abordagem rigorosa contra guerrilhas radicais. Com o processo de paz em andamento na Colômbia, essa questão tem sido deixada de lado pela direita tradicional”, explica Mello.

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Essa situação abre espaço para que novos políticos contestem os acordos de paz estabelecidos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que foram firmados durante o governo de Juan Manuel Santos (2010-2018) e posteriormente apoiados por Petro, que trouxe a proposta de “Paz Total” para dialogar com dissidentes da guerrilha e com o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Atualmente, tanto os ELN quanto dissidentes da Farc têm uma forte presença na região de Catatumbo, próxima à fronteira com a Venezuela, e são os responsáveis por um novo aumento na violência na Colômbia. Além disso, outro fator crucial, segundo o acadêmico da FGV, é a influência do tráfico internacional de drogas na crise de segurança que afeta os países da região.

A percepção de insegurança na região

O fenômeno da internacionalização do crime está impactando até mesmo nações que não são grandes produtoras de substâncias ilícitas, como a cocaína, e que historicamente apresentavam taxas de criminalidade menores, como ocorre no Chile e na Costa Rica. Mello aponta que, embora esses países tenham índices de criminalidade muito inferiores, a sensação de insegurança da população é crescente.

Um exemplo dessa extensão do crime é a gangue venezuelana conhecida como Tren de Aragua, que já opera em território brasileiro, dentre outros países da América do Sul. Além disso, organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já exercem influência em países vizinhos, como Paraguai e Bolívia, e os próprios cartéis colombianos têm se expandido para o Equador, intensificando a violência associada ao narcotráfico.

O modelo salvadorenho se torna um ponto de referência na região, principalmente pelo funcionamento de suas grandes prisões e pela redução das taxas de homicídio. O governo de El Salvador reportou uma taxa de 1,3 assassinatos por 100 mil habitantes em 2025, um número significativamente abaixo da média de 17,6 homicídios por 100 mil habitantes registrada na América Latina, conforme dados da organização InSight Crime.

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Entretanto, esses dados geram questionamentos, uma vez que o país não divulga o número de mortes de supostos criminosos durante operações policiais, e a verificação das estatísticas oficiais tem se tornado cada vez mais difícil. Mariana Chies-Santos, professora do Insper e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, destaca que a falta de processos legais adequados e de acesso a julgamentos dos detentos são problemas sérios dentro do plano de Bukele.

Antes mesmo da vitória de De La Espriella, o modelo de segurança adotado por Bukele já tinha sido observado em outros países da região, como Costa Rica e Equador.

A insatisfação com a política convencional

Pedro Dallari, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que os países da América Latina possuem diferenças estruturais e históricas, além de distintas formas de funcionamento do crime organizado em seus respectivos territórios. No entanto, há um pano de fundo comum que une muitas nações da região: a percepção popular de que as alternativas tradicionais, sejam de esquerda ou de direita, falharam em resolver questões urgentes ligadas à desigualdade, à dívida, à vulnerabilidade social e à segurança pública.

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Dessa forma, em meio a crises profundas, “surge a demanda por alternativas consideradas outsiders e por respostas mais rápidas e eficazes do que aquelas oferecidas anteriormente”, conclui Dallari.

Fonte: estadao.com.br

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