O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) lançou uma seleção para contratar uma consultoria especializada em teoria de redes e análise concorrencial, com o objetivo de atualizar suas ferramentas de investigação para lidar com os desafios dos mercados digitais. O projeto, que é coordenado pelo Departamento de Estudos Econômicos (DEE), visa desenvolver métricas e metodologias que consigam identificar dinâmicas competitivas que não são adequadamente capturadas pelos modelos tradicionais de defesa da concorrência, especialmente em ambientes dominados por plataformas digitais, efeitos de rede e estruturas de mercado altamente concentradas.
O termo de referência da contratação revela que o Cade pretende incorporar em sua análise conceitos provenientes da teoria das redes complexas, um campo interdisciplinar que une economia, matemática, ciência de dados e teoria da informação. A entidade avaliou que indicadores tradicionais de concentração, como o Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), não são suficientes para refletir com precisão como operam os mercados digitais, que se caracterizam por mecanismos de plataforma, algoritmos, agrupamentos de usuários e efeitos de escala acelerados.
O documento enfatiza que “a avaliação estática de um mercado se torna insuficiente” em vista da dinâmica dos mercados digitais, onde a própria estrutura da rede pode influenciar os comportamentos concorrenciais. Segundo o Cade, as plataformas têm potencial para se desenvolvem em configurações de “winner-takes-all”, onde poucos participantes acumulam poder de mercado aumentando devido aos efeitos de rede, enquanto há outros mercados que ainda sustentam espaço para a competição. A proposta da autarquia é criar métricas que consigam diferenciar esses cenários e apoiar decisões relacionadas a fusões, aquisições e investigações sobre práticas anticompetitivas.
A iniciativa prevê estudos sobre diferentes tipologias de rede, incluindo modelos “small-world”, que são caracterizados pela rápida propagação de informações, e redes “scale-free”, que apresentam hubs muito conectados. O Cade também planeja incorporar métricas fundamentadas em centralidade e transferência de entropia, com o intuito de analisar o fluxo de informações, a robustez do mercado e identificar possíveis “pontos de virada” na concorrência. O documento destaca a necessidade de reconhecer “superusuários” e compreender como as estratégias empresariais e as estruturas de rede evoluem de forma interligada.
Na prática, o Cade busca estabelecer uma fundação metodológica que permita a análise dos mercados digitais além do simples volume de participação ou da receita. A avaliação interna indica que soluções antitruste convencionais podem ser ineficazes — ou até acentuar concentrações — caso não considerem a topologia das redes e os mecanismos que geram poder econômico nesses ambientes digitais.
A consultoria tendrá duração prevista de junho a novembro de 2026 e será executada de forma remota. Entre os produtos que serão entregues estão uma revisão bibliográfica sobre teoria das redes, a classificação de pelo menos dois mercados utilizando essas novas metodologias, relatórios técnicos com métricas aplicáveis à análise concorrencial e capacitação dos servidores do Cade. O valor total do contrato é de R$ 80 mil.
O processo seletivo consistirá em análise de currículos e entrevistas. Podem se inscrever profissionais com formação em Economia, Matemática ou áreas afins, além de experiência na defesa da concorrência e análise de redes. O Cade também dará atenção a publicações acadêmicas e experiência prática nos assuntos relevantes. As entrevistas serão realizadas por videoconferência, e os interessados devem enviar currículo para o e-mail prodoc@cade.gov.br até o dia 13 de maio de 2026.
Fonte: convergenciadigital.com.br


