O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, participou nesta terça-feira, 20, de um encontro diplomático na capital da Noruega, Oslo, com emissários dos Estados Unidos. A cúpula busca reaproximar os governos e retomar os entendimentos políticos, ocorrendo logo após o líder ucraniano apontar que a gestão norte-americana estaria retardando intencionalmente o envio de armamentos vitais para a defesa antiaérea contra os bombardeios russos.
“A Ucrânia trabalha pela paz. Agradeço aos nossos aliados por seu apoio”, declarou Zelenski através de uma postagem em suas redes sociais. A declaração veio acompanhada de um registro em vídeo feito na residência oficial do governo norueguês, onde ele aparece cumprimentando o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff.
Na sequência do encontro, os representantes posaram para registros fotográficos ao lado do primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, e do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, que também integra as discussões.
Antes das reuniões presenciais, Støre havia adiantado que a Noruega abrigaria as tratativas envolvendo Zelenski, Witkoff e outro mediador norte-americano, Jared Kushner, que acabou participando por meio de videoconferência devido a questões de saúde. Conforme o chefe de governo norueguês, a finalidade principal do formato é reatar os canais diplomáticos de forma construtiva. Posteriormente, Zelenski, Støre e Stubb concederam uma entrevista coletiva à imprensa local.
Tensão entre Kiev e Washington
O alinhamento geopolítico entre Kiev e Washington tem enfrentado turbulências crescentes nas últimas semanas. No início do mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrou um pacto com o governo da Rússia, representado por Vladimir Putin, voltado para a importação de diesel russo para o mercado norte-americano. A medida foi interpretada pela administração ucraniana como uma espécie de concessão ao país invasor, gerando forte mal-estar político.
A este episódio somam-se queixas recentes de autoridades de Kiev de que Washington estaria restringindo o suporte tecnológico e o fluxo de dados em áreas estratégicas do combate, em um período no qual as forças russas intensificam suas investidas no front.
Na semana anterior, o mandatário ucraniano já havia tornado pública a imposição de restrições operacionais no uso do sistema de satélites Starshield. Desenvolvido pela SpaceX, empresa comandada por Elon Musk, o equipamento é empregado pelas tropas da Ucrânia na coordenação de defesas antiaéreas. Além disso, foi relatada a ausência de avisos prévios por parte de aliados em relação aos recentes ataques com mísseis contra redes de energia na capital ucraniana.
Em resposta às críticas, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, com quem Zelenski manteve diálogo nesta terça-feira, negou veementemente qualquer boicote intencional. Segundo o diplomata norte-americano, nenhum recurso está sendo negado de propósito, atribuindo possíveis gargalos a questões de logística e controle de estoques. Rubio também mencionou que o presidente Donald Trump estaria insatisfeito com o tom das acusações públicas vindas de Kiev, ressaltando que o líder norte-americano rejeita ser responsabilizado por decisões que não tomou, como supostas ordens para interromper o compartilhamento de inteligência.
Impasse sobre mísseis e cenários futuros
A tecnologia do Starshield é fundamental para as comunicações táticas ucranianas, englobando desde operações de médio alcance em territórios controlados por Moscou até o direcionamento de drones. A infraestrutura civil do país também utiliza a rede paralela Starlink.
Durante reuniões com legisladores dos Estados Unidos, Zelenski detalhou que o Departamento de Defesa norte-americano estaria atrasando a liberação de mísseis defensivos que já foram quitados por nações europeias em benefício da Ucrânia. De acordo com o líder ucraniano, os artefatos do sistema Patriot encontram-se prontos para envio, mas dependem formalmente da chancela do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.
O atrito diplomático ganhou novos contornos com a decisão de Washington de flexibilizar sanções para viabilizar o acordo comercial do diesel. Enquanto Zelenski adverte que a Casa Branca estaria escolhendo o caminho equivocado no conflito, Donald Trump tem retrucado as críticas ao apontar que os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas acabam por inflamar ainda mais as hostilidades.
“Zelenski não sabe do que está falando”, declarou Trump recentemente a jornalistas, sugerindo que talvez seja o momento de outros interlocutores assumirem as negociações em nome de Kiev. O presidente norte-americano também indicou receptividade a uma eventual cúpula direta com Vladimir Putin e com o líder da China, Xi Jinping, para debater os rumos da guerra sem a presença direta de representantes ucranianos.
Informações de bastidores veiculadas pelo portal Axios apontam que o emissário Steve Witkoff poderá estender sua viagem a partir de Oslo para um encontro direto com Putin na Rússia, embora a Casa Branca ainda não tenha confirmado oficialmente tal itinerário.
Enquanto a diplomacia tenta encontrar um denominador comum nas mesas de negociação, o cenário no terreno segue marcado pela violência. Novos ataques atribuídos às forças russas resultaram em pelo menos sete mortes em áreas da região de Kiev e em Kramatorsk, polo estratégico localizado no leste ucraniano próximo às linhas de combate. Diante disso, autoridades de Kiev reiteram que continuarão a visar instalações energéticas e refinarias russas para tentar desestabilizar a capacidade financeira de Moscou em sustentar o esforço de guerra.
Fonte:: estadao.com.br


