Papa Leão XIV faz pedido de desculpas histórico pelo papel do Vaticano na legitimação da escravidão

Marcelo Borges
4 min. de leitura
Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Na última segunda-feira, dia 25, o papa Leão XIV fez um pedido de desculpas significativo pelo papel da Santa Sé na legitimação da escravidão. Em seu discurso, ele reconheceu que a Igreja não a condenou ao longo de séculos, referindo-se à atuação do Vaticano como uma “ferida na memória cristã”.

Embora papas anteriores já tenham se desculpado pela participação de cristãos no comércio transatlântico de escravos, nenhuma autoridade papal havia anteriormente reconhecido o envolvimento direto da Igreja ao conceder poderes aos soberanos europeus para submeter e escravizar os que eram considerados “infiéis”.

Leão XIV, que é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos e tem em sua história familiar tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos, fez essa declaração em sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas” (Magnífica Humanidade).

Este extenso manifesto discorre sobre a proteção da dignidade humana em uma era marcada pela crescente dependência da inteligência artificial. O papa relacionou o tráfico de escravos com as novas formas de escravidão e colonialismo que a revolução digital está promovendo, incluindo a exploração de trabalhadores em atividades não regulamentadas na extração de minerais essenciais para a tecnologia de inteligência artificial.

- Publicidade-

A declaração foi feita em uma encíclica papal, que é uma carta aberta destinada “a todas as pessoas de boa vontade”, com um total de aproximadamente 42,3 mil palavras na versão em inglês. O documento delineia seu compromisso em preservar a dignidade humana e a capacidade de ação em um contexto onde a tecnologia pode substituir seres humanos em várias funções profissionais e sociais. Ele fez essa apresentação ao lado de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma empresa notável de desenvolvimento de IA, em um ato simbólico que simboliza o diálogo entre as esferas espiritual e tecnológica.

Apesar de salientar que “a tecnologia não deve ser vista, em si, como uma força contrária à humanidade”, Leão XIV advertiu que “a busca por lucros maiores não pode justificar decisões que sistematicamente eliminam empregos”.

Em sua encíclica, Leão XIV também solicitou:

  • Regulação governamental sobre empresas privadas que promovem o avanço da IA;
  • Proteção e requalificação de profissionais cujos postos de trabalho estão em risco;
  • Educação voltada para capacitar estudantes a analisar criticamente a tecnologia;
  • Ações para salvaguardar crianças de conteúdos violentos, hipersexualizados ou enganosos disponíveis online, que frequentemente são gerados por IA;
  • Medidas para garantir que a responsabilidade por decisões sobre o uso de armamentos permaneça nas mãos de seres humanos, e não da IA.

Acima de tudo, ele sublinhou a relevância de preservar um papel social significativo para todos os indivíduos. “Uma sociedade que assegura emprego apenas a uma pequena parcela de sua população, mesmo com um elevado nível de desenvolvimento tecnológico, arrisca expor muitos à inatividade forçada, à falta de responsabilidade e à ausência de tarefas e estímulos diários, levando a um empobrecimento humano e cultural”, afirmou.

“Esse fenômeno cria um paradoxo entre progresso material e regressão antropológica, que mina as bases para uma paz social justa e duradoura”, complementou.

Com a expectativa já formada há meses entre clérigos, acadêmicos e líderes do setor tecnológico, o documento papal era aguardado como um dos mais relevantes alertas morais sobre o uso inadequado ou excessivo da inteligência artificial.

- Publicidade-

Um ano atrás, logo em seu segundo dia de pontificado, Leão XIV havia evidenciado seus receios sobre os riscos associados à IA, informando ao Colégio de Cardeais que, durante sua liderança, a Igreja Católica se dedicaria a enfrentar as ameaças que a tecnologia em evolução representa para “a dignidade humana, a justiça e o trabalho”. /Com AP e NYT

Fonte: estadao.com.br

Compartilhe esta notícia