Uso de celulares em escolas reflete desigualdades na educação digital brasileira

Marcelo Borges
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Foto: Divulgação / Foto: Ana Paula Lobo Mande um e-mail

A mais recente edição da pesquisa TIC Educação, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) — vinculado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) —, trouxe um panorama detalhado sobre a relação entre os estudantes e os dispositivos móveis no ambiente escolar. O levantamento revelou que 51% dos gestores de escolas entrevistados afirmam que os alunos não têm permissão para levar o telefone celular pessoal para a instituição de ensino.

Essa postura de restrição, no entanto, varia de maneira significativa conforme o perfil e a etapa de ensino da instituição. A proibição é consideravelmente mais rígida nas escolas que atendem turmas até os anos iniciais do ensino fundamental, atingindo 69%. Em contrapartida, nas unidades de ensino que contam com turmas de Ensino Médio, o índice de restrição cai para 31%, demonstrando uma flexibilização à medida que os estudantes avançam na idade e na maturidade acadêmica.

Regras de armazenamento e uso pedagógico

Por outro lado, o estudo aponta que 40% das escolas permitem que os alunos levem seus aparelhos celulares pessoais, embora existam diferentes diretrizes para o armazenamento dos equipamentos durante o período de aulas. Em 24% dessas instituições, os dispositivos devem obrigatoriamente permanecer guardados em acessórios de uso individual, a exemplo de mochilas, estojos ou bolsos. Já em 16% dos casos, a própria escola disponibiliza locais específicos para o recolhimento, como caixas organizadoras ou armários individuais.

Entre as unidades que consentem a entrada dos celulares, 66% autorizam a utilização dos aparelhos para fins pedagógicos. O dado mais revelador, contudo, diz respeito à disparidade regional e estrutural: o uso com foco educacional do celular dispara em contextos que enfrentam maiores barreiras de conectividade e escassez de computadores. O índice de aproveitamento pedagógico do dispositivo sobe para 76% na região Norte, 76% na região Nordeste e alcança 75% em áreas rurais de todo o país.

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“Os dados mostram a necessidade de um olhar atento às desigualdades estruturais, que podem se configurar em desafios à garantia de maior equidade na oferta da educação digital, conforme prevê normativas importantes, como o Plano Nacional de Educação”, pondera Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação. “A integração entre escolas e famílias é outro aspecto essencial para a disseminação da educação digital. Para que possam apoiar as famílias de maneira eficaz, as escolas precisam de suporte adequado e políticas públicas estruturadas”, completa.

Apoio familiar e desafios na orientação digital

A interlocução direta entre as instituições de ensino e os responsáveis legais no que tange ao uso de tecnologias ainda apresenta margem significativa para avanço, conforme aponta a décima sexta edição da pesquisa. Em 49% das escolas mapeadas, os pais ou responsáveis tomaram a iniciativa de buscar a direção ou os profissionais pedagógicos em busca de orientações sobre como mediar o consumo e a exposição digital de crianças e adolescentes.

Na via opuesta, 48% das escolas relataram ter promovido palestras com especialistas voltadas ao bem-estar e à saúde mental direcionadas às famílias, enquanto 46% optaram por distribuir guias e materiais impressos ou digitais com orientações práticas sobre a promoção de hábitos saudáveis na utilização de recursos tecnológicos.

Ações práticas e obstáculos estruturais

Apesar de o debate acerca dos impactos das tecnologias digitais no cotidiano escolar ter ganhado fôlego nos últimos anos, a efetiva implementação de iniciativas voltadas à educação digital, midiática e à cidadania digital ainda esbarra em obstáculos operacionais e estruturais. O estudo do Cetic.br indica que 65% das instituições de ensino desenvolvem algum tipo de ação direcionada aos estudantes nessa temática.

Contudo, a presença dessas atividades ocorre de forma desigual: elas são mais prevalentes em escolas localizadas em áreas urbanas, onde o índice chega a 72%, e entre aquelas que já disponibilizam computadores e acesso à internet de forma estruturada para os alunos utilizarem em atividades educacionais, alcançando 75%.

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Entre as escolas que executam iniciativas de educação digital, 75% dos gestores apontam a baixa participação das famílias e dos responsáveis como um dos principais entraves para o sucesso dos projetos. Em seguida, aparece a escassez de materiais e recursos educacionais de apoio, citada por 64% dos entrevistados. Por outro lado, nas instituições que não realizam nenhum tipo de atividade do gênero, a principal dificuldade apontada é justamente a falta de materiais e recursos de apoio, mencionada por 77%, seguida pela baixa participação das famílias (66%) e pelas limitações ligadas à qualidade dos computadores e do acesso à internet na escola (65%).

“A intensificação do debate sobre os impactos das tecnologias digitais no ambiente escolar reflete uma importante mobilização social e pedagógica, impulsionada pelas discussões que resultaram na aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, e pela adoção de novas normas voltadas à garantia de direitos no ambiente digital”, afirma Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br. “Todo esse contexto contribui para ampliar o debate nas escolas, que se consolidam espaços essenciais para a promoção e a garantia dos direitos de crianças e adolescentes”, conclui.

Fonte:: convergenciadigital.com.br

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