Com apoio do Estado, primeira paciente do Paraná recebe coração artificial pelo SUS

Marcelo Borges
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Foto: Divulgação / Saude.pr.gov.br

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) do Paraná anunciou o encaminhamento da primeira paranaense a receber um coração artificial pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Andressa Fátima Reinaldi Banach, de 38 anos, residente em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, passou por uma cirurgia para implante do dispositivo de assistência ventricular HeartMate 3 no dia 12 de maio, no renomado Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde permaneceu internada até o dia 20. Após o procedimento, Andressa foi transferida por UTI aérea para o Paraná, sendo internada no Hospital do Rocio, em Campo Largo, onde ficou por dez dias no pós-operatório e recebeu alta em 29 de maio.

Diagnósticos pré-cirúrgicos indicaram que Andressa apresentava uma grave insuficiência cardíaca, com dilatação progressiva do ventrículo esquerdo, que havia perdido a capacidade de bombear sangue efetivamente. Ela também apresentava contraindicações para o transplante cardíaco convencional, devido ao elevado grau de sensibilização ocorrido em gestações anteriores e a incompatibilidade com 99% dos potenciais doadores. Desta forma, o implante do coração artificial tornou-se a única alternativa viável de tratamento para a paciente.

O secretário de Estado da Saúde, César Neves, caracterizou o caso como um importante marco para a saúde pública no estado. Ele afirmou que a Sesa trabalhou ativamente na articulação entre os hospitais de referência do Paraná e o centro especializado em São Paulo, garantindo o acesso da paciente ao procedimento, além de coordenar toda a logística de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) e o transporte aéreo em UTI. “A cirurgia foi um completo êxito e ela continuará a receber acompanhamento por tempo indeterminado”, destacou Neves. Ele reafirmou o compromisso do estado com a oferta de tratamentos de alta complexidade pelo SUS, ressaltando que “nenhum paranaense ficará sem alternativas”.

No Brasil, a insuficiência cardíaca afeta cerca de 2 milhões de pessoas, com 240 mil novos casos registrados anualmente. Esta condição é a principal responsável por internações cardiovasculares no sistema público, acumulando quase 2 milhões de hospitalizações entre 2015 e 2024, conforme os dados da Revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia.

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Percurso Médico

O caminho para o tratamento de Andressa exigiu coordenação de diferentes níveis da saúde. Em agosto de 2024, após complicações em sua quinta gestação, ela foi internada no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul. Apesar de ter recebido alta após o parto, a condição de saúde de Andressa deteriorou rapidamente, deixando-a incapaz de cuidar do recém-nascido.

Andressa relatou: “Fiquei 14 dias na UTI, fui para casa, mas não conseguia pegar meu filho no colo. Meu esposo e meus filhos me ajudavam em tudo. Era uma luta diária.” O tratamento continuou no Hospital Angelina Caron até fevereiro de 2025, quando então foi direcionada ao Hospital do Rocio para acompanhamento cardiológico.

Aline Möckel, responsável pela Secretaria de Transplantes do Hospital do Rocio, acompanhou Andressa desde o início do tratamento. Ela explicou que, devido ao alto painel imunológico da paciente, um transplante tradicional se mostrava inviável. “Descobrimos que ela tinha um painel imunológico muito alto, de 99%, o que era uma contraindicação total para o transplante”, relatou.

A médica cardiologista do Hospital do Rocio, Aline Carbonera, destacou que, apesar da otimização do tratamento com medicamentos, a doença se tornou refratária. Foi nesse contexto que a equipe médica considerou a inserção do HeartMate 3 como terapia avançada. Após a cirurgia em São Paulo, Andressa foi recebida no aeroporto de Curitiba pela equipe do serviço aeromédico da Sesa e transferida para o Hospital do Rocio para acompanhamento pós-operatório.

Capacitação da Equipe e Tecnologia Envolvida

A equipe do Hospital do Rocio passou por capacitação intensiva antes da cirurgia para preparar-se para receber a paciente e cuidar do dispositivo implantado. O diretor técnico da instituição, Kengi Itinose, enfatizou que, embora o hospital já realizasse transplantes cardíacos desde 2015, a natureza do HeartMate 3 exigiu uma preparação especializada. Três médicos e uma enfermeira participaram da formação em São Paulo, para garantir um entendimento completo na gestão do dispositivo artificial.

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Marcely Gimenes Bonatto, cardiologista, frisou que Andressa terá um rigoroso acompanhamento pós-operatório ao longo de sua vida. O HeartMate 3 é um dispositivo de assistência ventricular esquerda de fluxo contínuo, que atua como uma bomba, substituindo a função do ventrículo esquerdo comprometido. O equipamento utiliza tecnologia de levitação magnética, permitindo a passagem de células sanguíneas com mínimo atrito, o que diminui o risco de coágulos e outras complicações.

Após a cirurgia, a paciente está sob supervisão rigorosa para manter a anticoagulação adequada e prevenir tromboses no dispositivo. O acompanhamento familiar também é crucial, e a expectativa é que Andressa possa retomar suas atividades cotidianas com autonomia, contando com dois cuidadores treinados, sendo seu marido e sua irmã, que passaram por capacitação específica para lidar com o dispositivo.

Natally Banach, irmã de Andressa, expressou sua gratidão: “É muito gratificante saber que ela conseguiu toda essa ajuda para um tratamento tão caro e essencial para sua vida.” O marido de Andressa, Alisson, enfatizou a importância do apoio familiar durante todo o processo: “A cirurgia foi um momento de apreensão, mas tudo deu certo. Agora, esperamos que ela recupere a autonomia e possa cuidar das crianças novamente.”

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A própria Andressa compartilhou sua esperança renovada, dizendo: “A expectativa é que eu consiga viver normalmente, pegar meu filho no colo e ser a mãe que eu sempre fui.” Ela manifestou sua gratidão pela oportunidade de continuar vivendo e cuidando de seus cinco filhos.

Custeamento e Incorporação

A cirurgia foi financiada pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), que possibilita a hospitais filantrópicos reinvestirem recursos para serviços e tecnologias na rede pública. Desde 2009, mais de R$ 11,5 bilhões foram investidos no fortalecimento do SUS. A Sesa também assegurará acompanhamento clínico contínuo para Andressa ao longo de sua vida.

Além disso, o implante do HeartMate 3 foi oficialmente incorporado ao SUS em dezembro de 2024, após recomendação unânime da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Esta terapia é agora uma opção para pacientes com insuficiência cardíaca avançada que não são candidatos ao transplante, representando um avanço significativo no tratamento dessa condição no Brasil.

Fonte: saude.pr.gov.br

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