Como o Brasil pode ganhar com fim de restrição do etanol na gasolina nos EUA

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Usina de etanol ao lado de um milharal em Winds...

Uma recente mudança na legislação dos Estados Unidos tem o potencial de transformar o panorama global do etanol, oferecendo ao Brasil uma oportunidade estratégica de vendas. Um projeto de lei que possibilita a comercialização de gasolina com 15% de etanol, conhecido como E15, durante todo o ano foi aprovado pela Câmara dos Representantes e agora aguarda análise no Senado.

Se o Senado também aprovar o texto e o presidente Donald Trump sancionar a medida, a mistura de 15% deixará de ser uma exceção sazonal, tornando-se uma prática regular no maior mercado de etanol do mundo. Atualmente, a venda do E15 é proibida durante o verão americano, devido a preocupações ambientais ligadas à formação de poluição atmosférica, conhecida como “smog”. Essa restrição limita o uso do biocombustível durante o período de maior demanda.

Além disso, o estudo da StoneX ressalta a relevância desse momento, especialmente em meio às crescentes tensões geopolíticas no Oriente Médio, que têm pressionado os preços do petróleo, associadas a um cenário de oferta excessiva de milho nos EUA, após duas safras recordes. A pesquisa aponta que, com a alta dos preços dos combustíveis fósseis, o etanol se torna mais competitivo, enquanto os produtores americanos de milho buscam solucionar o excesso de oferta.

“Nesse contexto, uma proporção maior de etanol na gasolina serve para atender a agenda de segurança energética, à demanda agrícola interna e às metas de descarbonização”, afirmam os analistas.

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Excedente para exportação

Com a produção de 16,2 bilhões de galões de etanol em 2024, os EUA respondem por 52% da oferta global, que é estimada em 31,3 bilhões de galões. Aproximadamente 98% dessa produção é oriunda do milho, com cerca de 90% consumidos internamente no país. Entretanto, o aumento da produção, que cresceu 149% desde 2007, levou a uma saturação na demanda doméstica, resultando em um excedente que está cada vez mais direcionado para o mercado internacional.

Nos últimos 15 anos, os EUA tornaram-se o principal exportador de etanol do mundo, com vendas externas chegando a cerca de 2,1 bilhões de galões em 2025. Os principais destinos dessas exportações incluem Canadá (38%), Países Baixos (17%) e Índia (9%), além de outros países como Reino Unido, Colômbia e Filipinas.

O Brasil, atualmente, participa com aproximadamente 2% das importações de etanol americano. No entanto, essa configuração pode mudar significativamente se o E15 for liberado de forma permanente.

Uma análise da National Corn Growers Association indica que um aumento de 1 ponto percentual na mistura média de etanol nos EUA poderia gerar uma demanda adicional de 1,36 bilhão de galões de etanol e 13,2 milhões de toneladas de milho.

O relatório da StoneX prevê que, em 2026, mesmo com a expectativa de captura parcial do efeito do E15, o potencial exportável americano pode cair 16,6% em relação a 2025. Já em 2027, com o impacto total da nova demanda, as exportações potenciais poderiam diminuir em até 76,7%, retornando a níveis próximos aos de 2010.

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Perspectivas para o Brasil

O estudo da StoneX destaca que essa mudança nos EUA pode abrir novas oportunidades para o Brasil no mercado global de etanol. “A redução no excedente americano, em um cenário de demanda global em ascensão e novos mandatos de mistura surgindo em diversos países, cria espaço para que o Brasil amplie sua participação no comércio internacional de etanol”, analisa a pesquisa.

Mercados como a União Europeia e a Índia se destacam como potenciais destinos para esse redirecionamento, já que estes países importam volumes significativos dos EUA e possuem agendas claras de transição energética.

Além disso, a StoneX sugere que a diminuição da oferta americana no mercado internacional deverá pressionar os preços globais do etanol para cima a partir do final de 2026 e durante 2027.

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Para o Brasil, que é o maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar e possui um dos programas de mistura de etanol mais consolidados, isso apresenta um cenário de maior remuneração para as exportações e reforça a atratividade para investimentos em capacidade produtiva e logística.

Por fim, o estudo enfatiza que a adoção plena do E15 não é garantida, pois a aprovação final do projeto depende ainda do Senado e da sanção presidencial. A proposta enfrenta resistência de setores da indústria de refino, especialmente de pequenas refinarias. “Ainda que a legislação seja aprovada, a sua eficácia dependerá da expansão da infraestrutura de revendas e do engajamento dos distribuidores, além de manter uma diferença de preço favorável ao E15 em relação ao E10”, conclui.

Fonte: infomoney.com.br

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