Ataque a oleoduto estratégico na Arábia Saudita eleva temor de crise no mercado global de petróleo

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Lisa Friedman (The New York Times)

Os preços do petróleo registraram nova pressão de alta nos mercados internacionais após um ataque cibernético ou militar danificar uma das mais importantes estruturas de transporte energético da Arábia Saudita. O oleoduto Leste-Oeste, amplamente conhecido como Petroline, precisou ser paralisado de forma temporária. A interrupção acende um alerta vermelho entre analistas e governos, pois ameaça bloquear o fluxo de até 4% de toda a oferta mundial da commodity, em um cenário marcado pela intensificação dos conflitos geopolíticos no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho.

Durante as negociações recentes, o petróleo do tipo Brent, que serve como principal referência global para o setor, era cotado na faixa de US$ 107 por barril. Esse patamar representa uma alta expressiva de aproximadamente 50% em comparação ao período anterior ao início do conflito envolvendo o Irã, deflagrado em fevereiro. Diante da gravidade do cenário atual, instituições financeiras de peso, como o Goldman Sachs, projetam que as cotações possam saltar para a marca de US$ 120 caso os ataques continuem afetando rotas e infraestruturas cruciais nas zonas de conflito.

O governo da Arábia Saudita confirmou oficialmente o fechamento do duto, que possui uma extensão aproximada de 1.200 quilômetros. A infraestrutura tem a função vital de conectar os campos de extração de petróleo situados na região leste do território saudita até o terminal de exportação de Yanbu, localizado estrategicamente à margem do Mar Vermelho. Até o momento, as autoridades locais optaram por não divulgar detalhes técnicos sobre a gravidade real dos danos sofridos pelas instalações, tampouco estipularam um prazo preciso para o restabelecimento completo das operações de transporte.

Registros obtidos por meio de imagens de satélite entre os dias 10 e 11 de setembro evidenciam claramente avarias estruturais em pelo menos duas estações de bombeamento fundamentais para o funcionamento do sistema. Especialistas do setor energético, como Amena Bakr, que atua como analista na Kpler, avaliam que um processo de recuperação e reparo integral da estrutura pode exigir de cinco a semanas de trabalho intenso, embora partes isoladas do sistema possam retornar à atividade de forma gradual antes desse prazo.

- Publicidade-

A dimensão exata do reflexo dessa paralisação sobre os mercados internacionais dependerá diretamente do tempo necessário para solucionar o problema. Estimativas da própria Kpler apontam que cerca de 120 milhões de barris de petróleo bruto podem deixar de ser entregues ao mercado consumidor global no período de um mês caso o oleoduto permaneça completamente inoperante.

O oleoduto Leste-Oeste ganhou um peso logístico ainda maior nos últimos meses, especialmente após a escalada dos confrontos armados ter estrangulado o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, historicamente uma das passagens marítimas mais cruciais para o abastecimento mundial de energia. A alternativa do duto permitia que a Arábia Saudita escoasse sua produção do leste em direção ao terminal de Yanbu sem depender da travessia pelo estreito.

Contudo, essa via alternativa também esbarra em graves entraves geopolíticos e de segurança. Os rebeldes houthis, facção armada baseada no Iêmen e que conta com o respaldo do governo iraniano, intensificaram suas ações ofensivas no Mar Vermelho, assumindo o controle operacional de uma zona estratégica localizada nas proximidades do Estreito de Bab el-Mandab.

Como consequência direta dessa ameaça constante, petroleiros e cargueiros ligados aos interesses sauditas virxeram-se obrigados a retomar o uso do Estreito de Ormuz. Dados compilados pela Kpler indicam que, desde o dia 7 de setembro, apenas duas embarcações com origem na Arábia Saudita arriscaram navegar pelas águas do Mar Vermelho.

O fluxo geral de embarcações pelo Estreito de Ormuz também sofreu uma retração drástica. Antes da eclosão da guerra na região, a média diária de trânsito era de aproximadamente 130 embarcações comerciais e petroleiros. Nos últimos dias, esse volume despencou para uma média de apenas 20 passagens diárias.

- Publicidade-

No início deste ano, a Arábia Saudita havia concluído obras para ampliar a capacidade máxima de escoamento do oleoduto Leste-Oeste, elevando-a para patamares próximos a 7 milhões de barris diários, conforme relatado por Yasir O. Al-Rumayyan, que preside a companhia estatal Saudi Aramco. O volume expandido representava um acréscimo de quase 30% na capacidade operacional em relação ao limite anterior.

Apesar do cenário de instabilidade e dos riscos evidentes, analistas econômicos ponderam que a infraestrutura petrolífera saudita possui histórico de rápida recuperação. O pesquisador Robin Brooks, vinculado à Brookings Institution, argumenta que episódios anteriores de ataques contra instalações do setor no país demonstraram capacidade técnica para reparos em curto espaço de tempo.

Como precedente, vale lembrar o incidente ocorrido em 2019, quando uma ofensiva com drones e mísseis, atribuída aos rebeldes houthis, atingiu importantes instalações industriais da Saudi Aramco, mas teve suas atividades produtivas normalizadas em poucos dias. Da mesma forma, em abril deste ano, uma estação de bombeamento foi alvejada no início das hostilidades atuais, mas conseguiu retomar a operação em plena capacidade no intervalo de uma semana.

- Publicidade-

Na mesma linha de otimismo cauteloso, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, declarou em entrevista recente à rede CNBC que avalia a situação atual como um contratempo de curta duração. Segundo o representante norte-americano, o fluxo de óleo através do duto deverá ser normalizado em breve, tratando-se de uma ocorrência estritamente temporária.

Paralelamente, a Arábia Saudita mantém estoques estratégicos de petróleo armazenados nas imediações do terminal de Yanbu, dimensionados para conter cerca de 24 milhões de barris. No entanto, avaliações técnicas publicadas pela consultoria Rystad Energy indicam que essas reservas disponíveis no porto seriam suficientes para suprir a demanda operacional por um período curtíssimo, estimado entre apenas três e seis dias.

Especialistas da Capital Economics calculam que cada semana adicional de inatividade no oleoduto Leste-Oeste, somada à manutenção do bloqueio no Estreito de Ormuz, tem potencial para encolher em pelo menos 0,2% a atividade econômica total da Arábia Saudita, evidenciando o profundo impacto financeiro e logístico que a crise atual impõe ao país produtor.

Fonte:: estadao.com.br

Compartilhe esta notícia