Comunicado do Copom alerta para riscos de pausa em futuras decisões, segundo economistas

Marcelo Borges
8 min. de leitura
Sede do Banco Central, em Brasília (Foto: Rapha...

Em meio à pressão inflacionária que pode ser exacerbada por conflitos internacionais, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, de forma unânime, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, estabelecendo-a em 14,5% ao ano. Esta decisão fundamenta-se na expectativa de que a inflação, conforme projetado pelo Banco Central, deve recuar para 3,5% até o final de 2027, à medida que choques externos se dissipem.

Este cenário, no entanto, destaca os desafios enfrentados pela política monetária atual. A inflação que o Brasil experimenta é influenciada por diversos fatores; a manutenção de taxas de juros elevadas não necessariamente pode mitigar o impacto de aumentos nos preços dos combustíveis. O economista Rodolpho Sartori, da Austin Rating, enfatiza que taxas de juros entre 14% e 15% não trarão alívio significativo para os preços da gasolina. Ele observa também que a economia já mostra sinais de desaceleração, com a taxa de crescimento caindo de 3,7% nos últimos 12 meses para cerca de 2% atualmente.

Caio Megale, economista da XP, indica que a comunicação feita pelo Copom sugere uma redução mais lenta na taxa de juros, visto que o quadro inflacionário pode se agravar no futuro.

Impactos da alta dos juros no setor econômico

A análise de representantes de diferentes setores revela que a taxa de juros elevada é percebida mais como uma ameaça do que como um suporte para a saúde financeira das empresas. Sartori destaca a necessidade de uma abordagem mais cautelosa para evitar a pressão financeira sobre as companhias, alertando que muitas empresas têm operado com taxas de 15% por mais de um ano.

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Para facilitar a recuperação do setor, ele defende que cortes graduais nas taxas de juros podem proporcionar alívio e melhoria nos balanços financeiros das empresas. Essa visão encontra respaldo em João Kepler, CEO da Equity Group, que acredita que a recente redução na Selic sinaliza uma mudança de ciclo, criando um ambiente mais favorável que pode estimular investimentos e favorecer o crédito e o consumo ao longo do tempo.

Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, também compartilha essa perspectiva, ressaltando que essa estratégia poderá impulsionar o consumo e a recuperação da atividade econômica.

Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (Apas), menciona que a pressão inflacionária observada atualmente decorre de fatores de oferta relacionados à situação internacional, argumentando que é crucial apoiar a cadeia de produção interna. Essa avaliação é corroborada por André Zalcman, CEO do Leilão Eletrônico, que observa que o setor imobiliário e pequenas empresas continuam a enfrentar desafios devido aos custos elevados de crédito, o que compromete seu capital de giro e sua liquidez.

Organizações como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) enfatizam a necessidade de um equilíbrio que evite a desindustrialização. Além disso, a FecomercioSP alerta que, sem um ajuste fiscal coerente, o Banco Central não terá margem para realizar cortes mais profundos sem risco de descontrole inflacionário.

Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, que inclui 14 cooperativas de crédito, adverte que a manutenção prolongada da Selic em níveis elevados pode inviabilizar os cortes de juros como forma de estímulo econômico, descrevendo esses ajustes apenas como uma modulação na política monetária.

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Por outro lado, Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, interpreta a recente diminuição das taxas como um sinal de que o ciclo econômico pode estar entrando em uma fase mais construtiva. Ele acredita que essa mudança poderá, de forma gradual, favorecer as condições de crédito e estimular a atividade econômica. Contudo, André Matos, CEO da MA7 Negócios, observa que a transmissão de um corte dessa magnitude pode ser lenta devido ao nível ainda elevado dos juros reais.

Projeções futuras e possibilidade de pausa na política monetária

Com os desafios internacionais se intensificando, a “estratégia de navegação” do Banco Central parece indicar uma “recalibração gradual” no futuro. Esse cenário foi classificado por Ian Lima, da Inter Asset, que observa uma crescente cautela do mercado frente à possibilidade de uma interrupção nas reduções das taxas de juros. A situação no Oriente Médio e a subida dos preços do petróleo podem também complicar o cenário inflacionário, tornando necessário que as empresas adotem uma estratégia equilibrada e de longo prazo.

José Faria Júnior, da Wagner Investimentos (WIA), alega que a desancoragem dos preços deve levar o Copom a considerar uma pausa imediata, já que a projeção de 4% de inflação se distancia da meta de 3%. O banco Itaú, que ainda prevê um corte de 0,25 p.p. em junho, reconhece que o comunicado lançado pelo Copom manifestou um certo “desconforto”, sinalizando a possibilidade de uma revisão nas suas previsões após a divulgação da ata na próxima semana.

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Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, afirma que o Copom deixou em aberto a possibilidade de ajustes nas taxas, reconhecendo a necessidade de serenidade e cautela nas próximas decisões.

Perspectivas otimistas com ressalvas

As únicas exceções que demonstram otimismo quanto à política monetária dependem do desenrolar da crise e das dinâmicas geopolíticas. Carlos Lopes, economista do banco BV, e Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, acreditam que cortes consecutivos de 0,25 p.p. continuarão a ser possíveis, desde que a situação atual seja considerada um fenômeno temporário. A Austin Rating, por sua vez, mantém uma visão otimista, projetando uma taxa Selic em 12,5% até o final de 2026, com o IPCA fechando o ano em 4,74% e um crescimento do PIB de 1,7%.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, e Bruno Perri, economista-chefe e co-fundador da Forum Investimentos, compartilham a expectativa de um corte de 0,25 p.p., dependendo das novas informações que forem divulgadas.

Expectativas de cortes mais agressivos

Por outro lado, Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, antecipa um corte mais robusto de 0,50 p.p. em junho, sugerindo que o ciclo eleitoral pode levar Donald Trump a tomar medidas para amenizar o conflito no Oriente Médio, buscando melhorar sua imagem perante o eleitorado americano. Megale, da XP, também projeta cortes de 0,50 p.p. nas reuniões de junho e agosto, à medida que as tensões geopolíticas reduzam e os preços do petróleo recuem para a faixa de US$ 80 a US$ 90, com uma pausa para avaliação durante o período eleitoral.

Independentemente das possíveis direções que o cenário econômico pode tomar, economistas concordam que as decisões do Banco Central acontecerão com base nas informações macroeconômicas que surgirem até a próxima sessão do Copom, marcada para os dias 16 e 17 de junho, além de outras reuniões planejadas para agosto, setembro, novembro e dezembro.

Fonte: infomoney.com.br

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