Couro de peixe de Pontal do Paraná é a 26ª Indicação Geográfica do Paraná

Marcelo Borges
9 min. de leitura
Foto: Divulgação / Seti.pr.gov.br

O couro de peixe de Pontal do Paraná agora possui o registro de Indicação Geográfica (IG) na modalidade Indicação de Procedência, conforme anunciado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) nesta terça-feira (12). Este reconhecimento solidifica o status do Paraná como líder nacional, que conta agora com 26 produtos certificados com selo de IG.

O selo de IG é um reconhecimento da tradição e da reputação do município na prática sustentável de transformar peles de peixes em couro. Essa atividade se destaca pela combinação do reaproveitamento dos resíduos da pesca artesanal, a geração de renda e a valorização da cultura caiçara. Atualmente, 16 produtores estão diretamente envolvidos nesse ofício, beneficiando indiretamente cerca de 30 famílias que fazem parte da cadeia produtiva.

A solicitação para o registro foi feita em outubro de 2025 e contou com a mobilização de diversas entidades, incluindo a Associação Couro de Peixe de Pontal do Paraná (ACPPP), a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), a Universidade Estadual do Paraná (Unespar), o Sebrae Paraná, a Prefeitura Municipal de Pontal do Paraná, o Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) e o Conselho Municipal de Turismo. O trabalho que levou à conquista teve início em 2008, dentro do programa Universidade Sem Fronteiras da Unespar, sob a coordenação da professora Kátia Kalko Schwarz.

A certificação concedida na modalidade Indicação de Procedência reconhece regiões que se tornam referências na produção de produtos específicos. Para o caso de Pontal do Paraná, o selo está atrelado à reputação e à tradição dos produtores caiçaras na utilização de 16 espécies de peixes para a transformação sustentável da matéria-prima em couro, tendo valeur agregado e promovendo geração de renda.

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O secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Aldo Nelson Bona, destacou que a conquista da Indicação Geográfica para o couro de peixe representa uma fusão entre saber tradicional e inovação científica. “Esse projeto não apenas valoriza a cultura caiçara e a identidade das nossas comunidades litorâneas, mas também destaca a ciência, por meio do trabalho da Unespar, como uma ferramenta central para o desenvolvimento sustentável e tecnológico. Nossa participação reafirma o compromisso de transformar saberes populares em ativos de inovação reconhecidos em nível nacional”, declarou.

O diretor-presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR) ressaltou que a conquista da IG para o couro de peixe de Pontal do Paraná representa mais um passo para valorizar a produção local. “É uma vitória do nosso povo e garante que teremos um produto ainda mais valioso no mercado. Parabéns à comunidade de Pontal e ao Sebrae pela parceria histórica que possibilitou esse marco”, afirmou.

Trajetória

A busca pela Indicação Geográfica teve início em 2023, com a estruturação da associação, capacitações para aprimorar a cadeia produtiva e a elaboração do caderno de especificações técnicas. Este documento inclui todas as etapas necessárias para a produção do couro, desde a compra e limpeza das peles até o curtimento, tingimento, amaciamento e comercialização.

A expectativa da associação é alcançar neste ano o curtimento de 600 quilos de peças, um processo químico e artesanal que transforma a pele bruta do peixe em couro. Com a certificação, espera-se que a visibilidade do produto fortaleça a geração de renda e incentive a entrada de novos participantes na atividade artesanal.

Qualidades do Couro de Peixe

O processo produtivo utiliza peles de várias espécies de peixe, tanto de água doce quanto salgada, incluindo linguado-abaxial, robalo flecha, robalo peva, parú, corvina, pescada amarela, miraguaia, tainha, prejereba, peixe-porco, cavala, salmão e tilápia. Essas diferentes opções resultam em variadas texturas de couro.

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A transformação das peles em couro envolve estudos realizados em um laboratório da Unespar ao longo de quase duas décadas. O processo evita o uso de cromo, uma substância tóxica comumente utilizada no curtimento de peles bovinas.

Após a compra da pele do peixe, os produtores fazem a limpeza manual para remover resíduos de carne e gordura. Depois, os materiais passam pelo processo de curtimento, que estabiliza as proteínas e transforma a pele em um couro sem odor e adequado para diversas aplicações, devido à sua elasticidade.

A resistência do couro de peixe é um dos seus principais diferenciais, sendo até três vezes mais forte que o couro bovino, conforme pesquisa da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e da Universidade de São Paulo (USP). Isso se deve à disposição das fibras de colágeno na pele do peixe, que forma uma estrutura entrelaçada e melhora a distribuição da força, resultando em uma resistência superior em comparação ao couro bovino.

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Após o curtimento químico, ocorre a pintura, que pode ser feita com ingredientes naturais como urucum ou cúrcuma para tonalidades avermelhadas e amareladas, respectivamente. A etapa final consiste na hidratação e secagem à sombra, um processo que leva cerca de dois dias e meio, enquanto o couro bovino geralmente demora de uma a duas semanas para ficar pronto.

Os produtos fabricados com o couro de peixe incluem uma diversidade de itens, como bolsas, colares, chaveiros, cadernetas e peças artesanais. O couro de Pontal do Paraná já se abre caminho no mercado internacional, com exportações para países como Alemanha, França e Portugal.

Liderança Nacional

Visando valorizar produtos regionais e fortalecer a economia local, o Paraná intensificou a articulação para o reconhecimento de produtos com selo de Indicação Geográfica. No total, o estado conta com 26 IGs reconhecidas, consolidando sua liderança nacional. Minas Gerais, com 21 registros, e São Paulo e Rio Grande do Sul, ambos com 13, seguem na lista.

Apenas em 2026, o Paraná conquistou quatro novos registros, incluindo o couro de peixe de Pontal do Paraná, o ginseng de Querência do Norte, o café da Serra de Apucarana, e as tortas de Carambeí.

No ano anterior, em 2025, o estado obteve oito novas Indicações Geográficas, entre as quais se destacam as ostras do Cabaraquara, o ponkan de Cerro Azul, as broas de centeio de Curitiba, a cracóvia de Prudentópolis, a carne de onça de Curitiba, o café de Mandaguari, o urucum de Paranacity e o queijo colonial do Sudoeste do Paraná.

Outros produtos paranaenses que contam com selo de IG incluem o mel de Ortigueira, queijos coloniais de Witmarsum, cachaça e aguardente de Morretes, melado de Capanema, vinhos de Bituruna, mel do Oeste do Paraná, barreado do Litoral do Paraná, bala de banana de Antonina, erva-mate de São Mateus, camomila de Mandirituba, uvas finas de Marialva, cafés especiais do Norte Pioneiro, morango do Norte Pioneiro e goiaba de Carlópolis.

Além disso, há a Indicação Geográfica do mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil, que envolve municípios de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

Atualmente, cinco produtos paranaenses estão com pedidos de IG em análise no INPI, entre eles a acerola de Pérola, o pão no bafo de Palmeira, as cervejas artesanais de Guarapuava, o mel de Capanema e a cambira, um prato típico de Pontal do Paraná.

Para mais informações sobre os produtos paranaenses que conquistaram Indicação Geográfica, consulte a série de reportagens produzidas pela Agência Estadual de Notícias.

Fonte:: seti.pr.gov.br

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