As estatísticas oficiais do Ministério da Previdência Social revelam que as mulheres representam cerca de 63% dos afastamentos laborais decorrentes de transtornos mentais no Brasil em 2025. Do total de mais de 559 mil benefícios concedidos por essas motivações ao longo do período, 353 mil foram direcionados a trabalhadoras.
Em entrevista recente, Dorli Kamkhagi, doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e colaboradora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), enfatizou que o adoecimento psíquico feminino possui raízes socioculturais profundas e estruturadas na sociedade.
Segundo a especialista, desde o nascimento, a criação e a expectativa em torno das meninas seguem moldes específicos que as direcionam para funções de cuidado. “Tem toda uma cultura, toda uma história psicoemocional que faz com que a menina, quando nasce, já seja vista de um outro jeito”, pontuou a psicóloga.
Desde a infância, as mulheres são condicionadas a assumir o papel de cuidadoras centrais, administrando as demandas do lar, a criação dos filhos e, frequentemente, o suporte a pais idosos. Esse conjunto de obrigações acumula-se de maneira intensa com as exigências do mercado de trabalho profissional.
Dorli Kamkhagi ressalta que o sentimento de culpa opera como um dos gatilhos emocionais mais recorrentes nessa trajetória de sobrecarga. “Vem uma culpa e uma consciência de que eu não estou sendo boa o suficiente”, explicou, destacando que essa sensação de inadequação constante atinge mulheres de todas as classes sociais e camadas econômicas.
Essa pressão contínua e a cobrança por desempenho em múltiplos papéis impulsionam o desenvolvimento de quadros clínicos graves, como o burnout, episódios depressivos e transtornos de ansiedade. O fenômeno atravessa diferentes realidades financeiras, mantendo padrões semelhantes de esgotamento.
Uma análise comparativa dos dados demonstra uma escalada expressiva nos índices gerais de afastamento. Enquanto em 2021 o país registrou cerca de 188 mil pessoas afastadas das atividades laborais por motivos relacionados à saúde mental, os números saltaram para 559 mil em 2025. O crescimento representa uma alta de 198% em um intervalo de cinco anos. No mesmo ano de 2025, os afastamentos contabilizados entre os homens totalizaram 206 mil casos, evidenciando uma disparidade expressiva na distribuição dos diagnósticos entre os gêneros.
Desafios estruturais e vulnerabilidade social
O cenário torna-se ainda mais complexo para mães solo em território brasileiro. Quando a responsabilidade financeira e de criação dos filhos recae de forma solitária sobre a mulher, o desgaste físico e mental tende a se multiplicar exponencialmente.
A especialista alertou que a ausência de intervenções precoces, seja por meio de acompanhamento psicoterápico ou de redes de suporte comunitário, favorece o agravamento dos quadros. O resultado costuma se traduzir em afastamentos laborais prolongados, gerando altos custos previdenciários e impactos sociais severos. “Vai ter gastos enormes previdenciários, gastos de afastamento de trabalho”, advertiu.
Adicionalmente, Kamkhagi chamou a atenção para a situação de vulnerabilidade vivenciada por adolescentes, que lidam cotidianamente com episódios de violência, bullying escolar e a pressão gerada pelo uso intenso das redes sociais. Para reverter o quadro geral de adoecimento, a especialista defende a implementação de políticas públicas integradas que amparem as mulheres desde a gestação, estendendo o suporte por toda a infância e adolescência.
Barreiras no atendimento médico e saúde pública
Levantamentos do Ministério da Saúde indicam que os transtornos mentais associados ao trabalho entre o público feminino registraram um acréscimo de 14 pontos percentuais em dez anos, passando de 58% em 2014 para 72% em 2024. Diante dessa demanda crescente, a demora na obtenção de suporte na rede pública de saúde configura um obstáculo crítico para a preservação da vida.
“Essa mulher não deveria esperar meses até que ela tenha um surto e tenha essas ideações suicidas. Fiquei impressionada com o número de ideações suicidas, isso é aterrorizador”, alertou a doutora em Psicologia.
Embora reconheça a importância de estruturas consolidadas de atendimento, a exemplo dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), Kamkhagi defende a expansão e o fortalecimento dessas unidades. Ela também enfatizou a urgência na criação de mais creches públicas de qualidade, permitindo que as mães possam exercer suas atividades profissionais ou cuidar de outros familiares sem o peso da angústia constante.
“Essa mulher que segura a família, essa mulher que ajuda o país de uma forma enorme, precisa e tem que reivindicar esses direitos”, concluiu a especialista.
Fonte:: cnnbrasil.com.br


