Taxa das blusinhas pode voltar? Confira o que muda

Marcelo Borges
9 min. de leitura
Foto: (Foto: RoseBox/ Unsplash)

A recente decisão do governo brasileiro de suspender a cobrança federal sobre compras internacionais de até US$ 50, comumente referida como a “taxa das blusinhas”, reacendeu um antigo debate sobre as implicações dessa medida na economia nacional. Esse tema levanta questões sobre os impactos em várias áreas, como a indústria local, o varejo e a arrecadação pública.

Essa suspensão representa um alívio imediato para muitos consumidores, especialmente em tempos de dificuldades financeiras. Produtos adquiridos em plataformas internacionais como Shein, Shopee e AliExpress poderão ser mais acessíveis para o público brasileiro, especialmente em categorias populares que incluem vestuário, acessórios, itens de beleza, eletrônicos pequenos e utensílios domésticos.

No entanto, enquanto os consumidores e as plataformas estrangeiras celebram a redução nos preços, a indústria e o varejo nacional enxergam essa mudança como um retrocesso que pode acentuar as distorções competitivas no mercado brasileiro, particularmente em relação aos produtos importados da China, que já dominam prateleiras de lojas físicas e virtuais.

Alívio para o consumidor

A “taxa das blusinhas” foi criada em uma tentativa de corrigir distorções concorrenciais e aumentar a arrecadação, mas, na prática, gerou um forte descontentamento entre os consumidores ao encarecer bens de menor valor, que são bastante consumidos no Brasil. Sua suspensão agora, pode ser justificada pela expectativa de preços mais baixos em produtos que, devido à tributação, se tornaram artificialmente caros, afetando especialmente os clientes mais sensíveis a preços.

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Esse raciocínio encontra respaldo na atual situação econômica do Brasil, marcada por taxas de juros elevadas, altas taxas de endividamento e perda do poder de compra das famílias. Qualquer redução no preço de itens de consumo do dia a dia pode proporcionar um alívio significativo para os lares brasileiros.

Ademais, a concorrência internacional tende a incentivar a queda dos preços internos e auxiliar na diminuição da inflação em determinados setores, especialmente no vestuário e acessórios. De uma perspectiva política, essa decisão pode ser vista como uma estratégia para mitigar os efeitos negativos de uma medida que se mostrou impopular no passado.

Possibilidade de retorno da cobrança

Entretanto, segundo Mírian Lavocat, advogada tributarista e conselheira da OAB-DF, a suspensão da taxa poderá enfrentar desafios legais, sendo necessária a aprovação da Medida Provisória (MP) pelo Congresso Nacional no prazo de até 120 dias. Caso não aconteça, a cobrança poderá ser restaurada automaticamente.

A especialista destaca que há incertezas quanto ao impacto fiscal dessa decisão, pois a Lei de Responsabilidade Fiscal exige que o governo apresente compensações para a perda de receitas tributárias. “Se as entidades de controle não considerarem as compensações suficientes, essa medida pode ser alvo de questionamento. Além disso, é importante lembrar que, mesmo com a suspensão da tributação federal, o ICMS estadual de 17% continuará a ser aplicado sobre compras internacionais”, alerta.

Gabrieli Caroline Freire, tributarista da Salamacha, Abagge e Calixto Advocacia, chama a atenção para outro aspecto relevante: a MP 1.357 confere ao Ministro da Fazenda poderes para modificar as alíquotas do Imposto de Importação (II) e pode vincular o direito a isenções de acordo com a adesão a programas governamentais, como o Remessa Conforme. “No entanto, a regulamentação da MP não alterou a alíquota para produtos importados acima de US$ 50,00, limitando-se a aumentar o desconto de US$ 20,00 para US$ 30,00”, explica.

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Expectativa versus realidade

Ainda que se acredite que a “taxa” tenha sido efetivamente eliminada, a realidade é mais complexa. A suspensão aplica-se apenas ao tributo federal, enquanto o ICMS estadual permanece em vigor, o que significa que as compras internacionais continuarão a ser tributadas, mas com um peso menor. Essa redução de custos, no entanto, pode fazer com que produtos estrangeiros se tornem mais competitivos novamente.

É aqui que surge a principal crítica das entidades de classe do setor produtivo. Indústrias e varejistas afirmam que a suspensão da tributação cria uma competição desigual. Enquanto as empresas brasileiras enfrentam uma elevada carga tributária, custos trabalhistas, logísticos, burocráticos e financeiros, produtos importados poderão ser oferecidos ao consumidor brasileiro com uma carga tributária reduzida.

Na avaliação do setor, essa situação não representa uma verdadeira concorrência livres, mas sim uma desvantagem estrutural para o produtor nacional.

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Esse ponto é especialmente sensível em mercados que são vulneráveis à competição estrangeira, tais como:

  • Confecção
  • Têxtil
  • Calçados
  • Acessórios
  • Pequenos eletrônicos

Esses segmentos são intensivos em mão de obra e estão entre os mais afetados pela concorrência de produtos importados de baixo custo.

Consequências adicionais

A preocupação do setor produtivo vai além da concorrência direta. Há receios de que o aumento das compras internacionais possa ameaçar cadeias produtivas locais, impactando o emprego, investimento e a arrecadação tributária. Esse é um argumento que merece atenção, pois, ao contrário de uma plataforma internacional, uma empresa brasileira gera empregos formais e contribui com tributos locais, além de movimentar a economia através de fornecedores e logística interna.

A inquietação, portanto, é que se o consumidor optar por concentrar suas compras em plataformas estrangeiras, o impacto pode ser significativo, não apenas para o caixa dos varejistas, mas também para a produção e circulação econômica interna.

Outro aspecto crítico é a questão fiscal. A criação da cobrança tinha como um dos objetivos aumentar a arrecadação. Com sua suspensão, parte do potencial dessa receita deixa de existir. Contudo, é importante notar que a revisão da cobrança levanta a discussão sobre o real impacto das compras internacionais na arrecadação perdida, uma vez que parte desse consumo poderia ser inviável caso os preços permanecessem muito altos.

“É evidente que o propósito inicial dessa tributação não era onerar o consumidor, mas sim proteger a economia local. A decisão recente vai contra o bom senso, já que é fundamental garantir a competitividade da indústria brasileira para manter empregos e gerar renda. As importações são bem-vindas, desde que ocorram em condições justas”, enfatiza a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A distorção permanece

Um aspecto essencial que emerge dessa discussão é que a suspensão não resolve os problemas estruturais do setor. O verdadeiro desafio da competitividade no Brasil está vinculado ao chamado “Custo Brasil”, que compromete a produtividade das indústrias locais.

Mesmo com a manutenção da tributação, as empresas nacionais continuariam a enfrentar uma série de obstáculos, incluindo um sistema tributário complicado, altos custos de crédito, logística ineficiente, baixa produtividade e incertezas regulatórias. Ou seja, a taxa, na prática, funcionava mais como uma barreira defensiva do que como uma solução para os desafios estruturais enfrentados. Retirá-la revela novamente essas fragilidades, apontam os especialistas.

Além disso, um estudo conduzido pela LCA Consultores, quando a “taxa das blusinhas” completou um ano, revelou que a taxação afetou principalmente os consumidores de menor renda, sem gerar um impacto significativo na criação de novos empregos, como prometido pelas empresas.

Portanto, a curto prazo, o consumidor pode sentir um alívio com a possibilidade de compras mais baratas. No entanto, a médio e longo prazo, a fragilidade da produção local pode resultar em prejuízos à oferta interna e à geração de empregos. Em outras palavras, a economia atual pode estar pagando um preço alto por um benefício imediato.

Fonte: infomoney.com.br

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