Durante anos, as explicações técnicas para os déficits bilionários em fundos de pensão foram variáveis: “conjuntura”, crises e oscilações de mercado. A cada novo relato, um termo sofisticado surgia para justificar o sofrimento real de quem arca com essa conta.
Contudo, é fundamental entender que os déficits não surgem do nada; eles têm origem, decisões e responsáveis.
Recentemente, as investigações sobre os aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master reacenderam uma memória dolorosa. Conforme informado pela imprensa, a Polícia Federal está apurando operações que envolvem cerca de R$ 3 bilhões, com mudanças de comando e indícios de favorecimento que não correspondem ao interesse público.

Policiais cumprem mandados de busca e apreensão durante a Operação Greenfield, em 2016. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Para aqueles que viveram o caso da FUNCEF, esse cenário já não é novidade. Acompanhamos dirigentes sendo levados em camburões durante a Operação Greenfield. Naquele momento, não buscávamos vingança, mas a verdade. Queríamos compreender como recursos somados ao longo de uma vida inteira se transformaram em déficits que continuam a pesar sobre os aposentados e trabalhadores.
O tempo passou e a reparação ainda não veio. Em vez disso, decisões recentes parecem aprofundar essa injustiça: a suspensão, por parte do ministro Toffoli, da multa de R$ 10 bilhões da J&F que fazia parte de seu acordo de leniência, além da decisão de primeira instância que anulou cláusulas e determinou o recálculo do valor alegando “onerosidade excessiva”. Essas medidas têm um impacto significativo na restituição das perdas enfrentadas por fundos e seus participantes.
Enquanto os processos judiciais avançam de forma lenta, os descontos são imediatos e diretos. O impacto desses déficits ultrapassa os números, afetando a saúde, dignidade e estabilidade de milhares de famílias. Embora os déficits sejam apresentados em cifras bilionárias, é crucial lembrar que eles geram vítimas humanas — pessoas que não podem ser invisibilizadas ou silenciadas durante os processos de responsabilização e reparação.
Retirar a segurança daqueles que já contribuíram tanto ao país, dedicando seu trabalho e suas vidas, é uma injustiça profunda. No caso dos economiários da CAIXA, por exemplo, ajudamos a construir políticas públicas, crédito, habitação e inclusão financeira. Esse legado não desaparece com a aposentadoria.
Os fundos de pensão servem como instrumentos de proteção coletiva, garantindo uma estabilidade financeira que alivia a pressão sobre a previdência pública e assegura um envelhecimento digno. No entanto, quando esses fundos são capturados por má gestão ou interesses externos, o resultado é um dano social — que acaba por corroer a confiança da população.
É importante ressaltar que a confiança não se recupera por meio de discursos ou promessas vazias.
As investigações do Rioprevidência são cruciais, pois elucidam decisões que podem levar a tragédias previdenciárias. Por esse motivo, promover a transparência, fiscalização e responsabilização não deve ser visto como uma perseguição, mas como uma defesa inegociável da sociedade.
Aqueles que contribuíram por décadas não devem ser condenados a arcar eternamente com os efeitos de erros que não cometeram.
Uma democracia não se fortalece quando seus trabalhadores envelhecem sob o peso do medo constante.
Assim, continuarei a defender princípios que nunca deveriam ter sido negados: a busca pela verdade, pelo respeito, justiça e dignidade. Porque os déficits bilionários não são fenômenos naturais; são decisões humanas — cujos efeitos refletem diretamente na vida de pessoas.


