A eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais no Brasil gerou debates sobre a possibilidade de consolidação de um bloco regional favorável ao mercado. Em tese, a configuração política permitiria atrair uma nova onda de investimentos para a América Latina, unindo a maior parte das principais economias da região sob governos conservadores ou de direita, com exceção do México.
Contudo, especialistas apontam que diversos fatores estruturais e políticos tornam improvável a formação de uma aliança coesa e duradoura. Embora exista espaço para acordos pontuais de cooperação, especialmente no combate ao crime organizado — apontado como prioridade por vários líderes locais —, construir uma integração econômica ou política sólida será um desafio complexo.
A ausência do principal articulador internacional
O primeiro obstáculo reside na sustentabilidade do principal elemento unificador desses governos: a proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Caso as projeções eleitorais se confirmem e o Partido Republicano perca o controle do Congresso norte-americano nas eleições legislativas de 3 de novembro, a capacidade de influência de Trump sofrerá forte retração durante o restante de seu mandato.
Com restrições constitucionais para concorrer novamente e enfrentando a possibilidade de investigações parlamentares sobre corrupção e abuso de poder caso perca maioria no Legislativo, o mandatário norte-americano veria seu capital político minguar.
“A esse bloco faltará seu padrinho”, avalia Diego Guelar, ex-embaixador da Argentina no Brasil e nos Estados Unidos. “O artífice dessa onda de direita na América Latina é Trump, mas o mais provável é que, a partir de novembro, Trump entre em declínio.” Dados de plataformas de projeção eleitoral indicam alta probabilidade de que os democratas retomem a Câmara dos Representantes e o Senado.
Nacionalismo econômico e desconfiança multilateral
Outro fator limitante é a postura dos novos líderes em relação ao multilateralismo. Muitos demonstram reservas profundas quanto a blocos de integração regional, como o Mercosul, cujas diretrizes impedem acordos bilaterais de livre-comércio com nações terceiras sem o aval dos parceiros.
A vertente nacionalista da nova direita regional tende a priorizar agendas internas nos moldes da política norte-americana de “America First”, dando origem a correntes como “Brazil First” ou “Argentina First”, o que colide com a criação de um bloco unificado.
“Eu não seria excessivamente otimista a ponto de achar que uma vitória de Bolsonaro resultaria em um modelo de integração como o que foi alcançado na Europa”, aponta Sergio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo. Para o cientista político, a relutância em abrir mão de parcelas de soberania nacional atua como um travão natural para a cooperação institucional profunda.
Competição interna e disputas comerciais
Além das divergências doutrinárias, o foco de uma eventual administração de Jair Bolsonaro e de seus aliados na atração de investimentos dos Estados Unidos pode gerar atritos comerciais entre vizinhos. Na disputa por aportes em infraestrutura tecnológica — como centros de dados para inteligência artificial — e no setor industrial, o Brasil possui vantagens estruturais que podem acirrar a concorrência com países como Argentina, Chile e Colômbia.
Questões migratórias também evidenciam fissuras entre governos ideologicamente alinhados. No Chile, o presidente José Antonio Kast tem implementado barreiras físicas e tecnológicas nas divisas com o Peru e a Bolívia para conter o fluxo migratório irregular, gerando atritos diplomáticos apesar da proximidade ideológica entre as administrações.
Por fim, analistas destacam o fator pessoal e a projeção de lideranças. O estilo de figuras como o presidente argentino Javier Milei em fóruns internacionais pode inspirar dinâmicas de protagonismo individual, levantando dúvidas sobre eventuais rivalidades de liderança na região.
Embora existam oportunidades para iniciativas conjuntas de menor escala — como a facilitação de vistos para determinados mercados turísticos ou a abertura de escritórios comerciais compartilhados —, o cenário geopolítico aponta para uma América Latina numericamente mais conservadora, porém desprovida de uma estratégia regional unificada.
Fonte:: estadao.com.br


