A tecnologia e a modernização do Estado ganharam espaço central nas discussões políticas e econômicas, gerando debates intensos entre diferentes visões de administração pública. A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, manifestou preocupação em relação a propostas de privatização de empresas públicas federais, destacando o papel estratégico que o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev) desempenham para a soberania nacional e a segurança das informações dos cidadãos.
Em entrevista recente, a ministra rebateu argumentos econômicos associados à campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência e enfatizou que as duas estatais vinculadas à sua Pasta apresentam resultados financeiros positivos. Segundo os dados apresentados, as companhias são altamente lucrativas e preveem investimentos expressivos para trazer ao território nacional dados estratégicos do governo e da população que atualmente se encontram armazenados em servidores de nuvens públicas espalhados pelo mundo.
A chefe da Pasta lembrou que ambas as instituições integraram o Programa Nacional de Desestatização durante a gestão anterior e que a possibilidade de sua venda gera apreensão. Para a ministra, transferir para a iniciativa privada a custódia de informações sensíveis, como dados da Receita Federal e registros sociais dos brasileiros, representa um risco grave à privacidade e à segurança nacional. A gestora questionou a entrega de informações tão vitais para o controle de uma empresa privada.
No contexto macroeconômico das estatais federais, a ministra apontou que, apesar de eventuais desafios enfrentados por companhias específicas como os Correios, o conjunto das empresas estatais gerou um lucro expressivo nos três primeiros anos da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O montante representa um crescimento relevante na comparação com o triênio anterior do governo de Jair Bolsonaro. Os investimentos planejados pelo Serpro e pela Dataprev demonstram o dinamismo e a capacidade de autofinanciamento dessas organizações no setor tecnológico.
Outro ponto central de divergência entre os projetos políticos diz respeito à aplicação da inteligência artificial (IA) na administração pública. Atualmente, a gestão federal já emprega mais de 180 projetos baseados nessa tecnologia para otimizar serviços e processos. Contudo, Esther Dweck rejeitou categoricamente a premissa de que a inovação tecnológica deva servir para substituir o trabalho humano de forma ampla ou justificar demissões em massa no funcionalismo público.
Apesar de reconhecer o potencial da inteligência artificial para elevar a produtividade e eliminar tarefas operacionais repetitivas, a ministra ponderou que a tecnologia não substitui a responsabilidade humana nas tomadas de decisão. Ela destacou que sistemas automatizados podem apresentar falhas técnicas ou reproduzir vieses, o que exige supervisão constante. Em áreas sensíveis, como a análise e concessão de benefícios sociais, a verificação humana é indispensável para garantir que direitos não sejam negados indevidamente sem que haja um responsável legal pela medida.
Do lado oposto, propostas ligadas ao grupo econômico de Flávio Bolsonaro defendem uma reestruturação profunda do Estado amparada por ferramentas digitais. Defensores dessa vertente argumentam que o avanço tecnológico viabiliza uma reforma administrativa focada na redução de custos e na diminuição do quadro de pessoal, questionando a necessidade de manter grandes estruturas operacionais e administrativas diante da capacidade de automação proporcionada pela inteligência artificial.
O debate evidencia visões antagônicas sobre o futuro da máquina pública no Brasil: de um lado, a defesa da soberania digital por meio de empresas estatais fortes e da preservação dos postos de trabalho com o auxílio tecnológico; de outro, a aposta na desestatização e no enxugamento drástico do Estado com base na substituição de funções operacionais por sistemas digitais.
Veja a entrevista da ministra Esther Dweck na Folha pelo Instagram: https://www.instagram.com/reel/DexjfcNlFSm/?psln=MWxrdjJhdHdtNW8xeQ==
Fonte:: convergenciadigital.com.br


