Expansão de datacenters e o impacto político no Cinturão da Ferrugem americano

Marcelo Borges
5 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Daniel Gateno

A chegada a Columbus, capital do Estado americano de Ohio, revela de imediato o ritmo acelerado de transformação que toma conta da região. Nos terminais aeroportuários, cartazes celebram o salto demográfico e econômico da localidade, enquanto obras de ampliação ocorrem em ritmo acelerado para atender ao fluxo crescente de voos e de novos moradores.

Essa guinada evidencia um movimento mais amplo no Meio-Oeste dos Estados Unidos. A área tradicionalmente conhecida como Cinturão da Ferrugem, marcada pelo declínio industrial, passa por um renascimento gradual impulsionado pelo setor tecnológico.

Antigos armazéns e galpões de siderúrgicas e minas de carvão deram lugar a espaços culturais, ateliês e galerias de arte. A zona metropolitana abriga escritórios de gigantes como Amazon, Intel e Google, atraindo um contingente expressivo de jovens profissionais para a região central.

“A economia está muito forte aqui em Columbus. Todos estão aproveitando o boom da tecnologia”, destaca Dorsey Hager, secretário executivo do Sindicato de Ofícios da Construção Civil de Columbus. “Vamos construir prédios de grande porte e a densidade populacional vai aumentar especialmente porque os mais jovens querem morar na cidade”, completa.

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O bairro de Franklinton, em Columbus, era uma zona industrial que foi transformada em galerias de arte

Crescimento respaldado em números

Em 2017, a capital de Ohio consolidou-se como a segunda maior cidade do Meio-Oeste americano, ficando atrás apenas de Chicago. Com projeções indicando a chegada de até 600 mil novos residentes até 2050 na região metropolitana, o avanço econômico tem sido estimulado por políticas estaduais de incentivos fiscais e regulamentação flexível, além da infraestrutura fornecida pela Ohio State University.

“Estamos vendo o surgimento de uma manufatura de alta tecnologia e maior valor agregado, como aeroespacial, robótica e defesa”, avalia Mark Muro, economista do Instituto Brookings. “O histórico industrial, aliado a uma forte presença universitária na área de tecnologia, provou ser a fórmula de sucesso para Columbus.”

Campus da Ohio State University, em Columbus

O grande motor desse crescimento é o investimento de mais de US$ 28 bilhões realizado pela Intel para a construção de duas novas fábricas de semicondutores na área metropolitana. A iniciativa prevê a geração de milhares de postos de trabalho diretos e na construção civil até o final da década. Outras empresas, como a companhia de defesa Anduril, também expandem suas operações locais.

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North Market Downtown, uma zona descolada e industrial de Columbus

O surgimento do Coração de Silício

A expansão transformou a identidade da área central de Ohio, que passou a ser chamada de Coração de Silício (*Silicon Heartland*), unindo a herança operária do Meio-Oeste ao ecossistema de semicondutores, inteligência artificial e data centers.

O desenvolvimento contou com suporte federal bipartidário, iniciado na primeira gestão de Donald Trump e ampliado no governo de Joe Biden. A aprovação da Lei CHIPS e Ciência em 2022 destinou bilhões em subsídios e financiamentos diretos, como os recursos aplicados no complexo industrial de Columbus, visando reduzir a dependência externa na produção de componentes eletrônicos essenciais.

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“A eleição de Trump em 2016 ressaltou as necessidades e a frustração de comunidades do Cinturão da Ferrugem que sofreram duros golpes durante 30 anos”, aponta Muro. “Apesar disso, foi Biden quem deu passos importantes para investir nessas áreas.”

Dorsey Hager, secretário-executivo do Conselho de Ofícios da Construção Civil de Columbus

Pittsburgh e a transição para a inovação

Outro exemplo de superação de passado industrial é Pittsburgh, situada no sudoeste da Pensilvânia. Conhecida historicamente pela produção de aço e pela forte cultura operária — refletida inclusive no nome do time de futebol americano Pittsburgh Steelers —, a cidade enfrentou grave crise econômica na década de 1970 com o colapso da siderurgia.

Centro de Pittsburgh, na Pensilvânia

O processo de retomada econômica ganhou força a partir dos anos 1990, impulsionado pelo setor de saúde e por instituições acadêmicas de destaque mundial, como a Universidade de Pittsburgh e a Carnegie Mellon, referência em computação, robótica e inteligência artificial.

“A Carnegie Mellon fundou a primeira escola de ciência da computação do mundo. Foi uma aposta arriscada, mas deu certo”, relata Lee Branstetter, professor da instituição e ex-conselheiro econômico do governo de Barack Obama. A concentração de empresas de tecnologia na chamada Avenida da Inteligência Artificial consolidou o novo perfil econômico do município.

Avenida da Inteligência Artificial, em Pittsburgh

Apesar do avanço, especialistas ponderam que os novos polos tecnológicos empregam menos mão de obra direta do que as antigas indústrias, exigindo alta qualificação e automação por meio de robótica. Ainda assim, o renascimento dessas cidades redefine o cenário socioeconômico e político de Estados fundamentais para os rumos eleitorais do país.

Oyster House, bar tradicional em Pittsburgh

Fonte:: estadao.com.br

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