Um evento climático incomum chama a atenção de especialistas e meteorologistas nesta semana no Oceano Pacífico. A bacia oceânica, que atualmente apresenta temperaturas superficiais muito acima da média devido à atuação do El Niño, tornou-se o berço de uma rara sequência formada por dois furacões intensos e uma tempestade tropical simultâneos.
Na quarta-feira, dia 2, o furacão Lowell alcançou a categoria 5, o nível máximo na escala de intensidade, enquanto seguia sua trajetória em direção ao oeste. Logo atrás dele, o furacão Karina destacou-se atingindo a categoria 4, compondo um cenário de grande atividade ciclópica na região.
Informações divulgadas pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC) indicam que a projeção inicial aponta para um deslocamento que manterá ambos os furacões a uma distância segura da costa do Havaí, evitando um impacto direto em áreas habitadas terrestres.
Apesar de passarem longe em termos de trajetória, os efeitos indiretos já começam a ser monitorados de perto pelas autoridades locais. O órgão norte-americano alertou que a forte ondulação gerada pelo furacão Lowell já está se propagando em direção ao norte e deve atingir trechos costeiros das Ilhas Havaianas ao longo dos próximos dias, criando condições potencialmente perigosas para banhistas, surfistas e embarcações nas proximidades da costa.
A formação da tempestade tropical Marie
Como se não bastasse a dupla de grandes furacões, o cenário oceânico ainda conta com a presença da tempestade tropical Marie. O sistema começou a se estruturar a centenas de quilômetros de distância da costa do México e, de acordo com os prognósticos meteorológicos atuais, tem grande potencial para se intensificar nas próximas horas, evoluindo também para a categoria de furacão.
Especialistas apontam que a ocorrência desse trio de sistemas em formação sequencial e paralela foge do padrão habitual. Julia Cole, climatologista da Universidade de Michigan, destacou que o aquecimento anormal das águas provocado pelo El Niño fornece a energia necessária para alimentar essas tempestades. Segundo a pesquisadora, embora o fenômeno oceânico crie o cenário propício, uma sequência simultânea de três tempestades dessa magnitude “é definitivamente rara”.
Para efeito de comparação, episódios passados de grande intensidade registraram comportamentos semelhantes, como ocorreu durante o El Niño de 2015 — considerado um dos mais fortes já documentados —, quando uma sucessão de quatro ciclones se formou na mesma área.
Projeções para o El Niño e impactos globais
Projeções recentes divulgadas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam que o atual ciclo do El Niño apresenta 69% de probabilidade de se consolidar como o mais intenso da história recente, superando marcas anteriores e atraindo atenção redobrada da comunidade científica internacional.
O ciclo do El Niño costuma se manifestar em intervalos que variam de dois a sete anos. O processo físico tem início quando os ventos alísios — correntes que sopram de leste para oeste e normalmente mantêm as águas mais aquecidas concentradas na porção ocidental do Pacífico — enfraquecem de maneira temporária. Esse enfraquecimento permite que o volume de água quente retorne à superfície e se desloque em direção ao leste.
Quando essas anomalias térmicas persistem na região por vários meses consecutivos, criam-se condições atmosféricas que favorecem a proliferação de tempestades, gerando reflexos diretos em todo o sistema climático global. Como consequência direta, o clima mundial sofre alterações expressivas, provocando períodos de estiagem severa e calor intenso em determinadas áreas, enquanto outras regiões passam a registrar índices elevados de umidade e chuvas torrenciais. Cientistas de diversas instituições reforçam o entendimento de que as mudanças climáticas em curso atuam como um fator multiplicador, intensificando os impactos gerados pelo fenômeno.
Fonte:: estadao.com.br


