O governo espanhol decidiu que o cruzeiro MV Hondius, que enfrenta um surto de hantavírus, deverá ancorar nas Ilhas Canárias neste domingo, dia 10. A ordem foi emitida após o governo local recusar a ancoragem do navio, gerando tensões sobre as medidas de saúde pública envolvidas na situação.
A operadora do cruzeiro, Oceanwide Expeditions, confirmou que passageiros e tripulantes começarão a desembarcar a partir das 08h00, horário local, que corresponde a 4h no horário de Brasília. A empresa destacou que, assim que desembarcados, os indivíduos serão encaminhados diretamente para os seus respectivos voos.
Entretanto, o presidente do governo das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, expressou preocupações sobre a segurança da operação, afirmando que não há um relatório técnico que comprove que não exista risco. Clavijo declarou: “Colaboração, sim. Solidariedade, também. Mas não a qualquer preço. Não sem relatórios, não com imposições do Estado e não colocando em risco a segurança sanitária dos canários.”
Logo após essa declaração, Ana Núñez Velasco, diretora-geral da Marinha Mercante, emitiu uma resolução que anulou o bloqueio das Ilhas Canárias, autorizando a entrada do navio. A autorização foi respaldada pelo artigo 299 da Lei dos Portos e da Marinha Mercante do Estado, permitindo a ancoragem ou atracação da embarcação com base nas decisões das autoridades sanitárias.
Durante uma coletiva à imprensa, a ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, informou que os passageiros de nacionalidade espanhola seriam os primeiros a desembarcar. Além disso, países como Bélgica, Reino Unido, França, Alemanha, Irlanda, Holanda e Estados Unidos se dispondo a enviar aeronaves para evacuar seus cidadãos do navio. A União Europeia também enviará dois aviões para buscar passageiros de outros países europeus, e a Holanda ficará responsável por evacuar cidadãos de países fora da Europa cujos governos não puderem enviar aeronaves.
“A Espanha pode assegurar ao mundo que a operação será conduzida de maneira adequada e que não haverá contato adicional além do já existente no navio,” afirmou García. Após a evacuação total dos passageiros, o Hondius será enviado para a Holanda para um desinfecção completa, conforme informado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.
Atualmente, das 147 pessoas a bordo, nenhuma apresentou sintomas relacionados ao hantavírus, conforme relatado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, escreveu em uma carta dirigida ao “povo de Tenerife” que, ao chegar a Tenerife, os passageiros seriam transportados em veículos lacrados, separados do público, até o Porto de Granadilla. Após este procedimento, a repatriação dos passageiros para seus países de origem será realizada.
Profissionais da saúde estão avaliando o nível de exposição de cada passageiro. De acordo com Maria Van Kerkhove, diretora de preparação e prevenção de epidemias da OMS, o risco para a população em geral permanece baixo. Os passageiros que apresentarem sintomas serão levados para uma aeronave separada e posteriormente transferidos para o tratamento na Holanda.
Tedros também chegou a Tenerife neste sábado, com a finalidade de supervisionar a operação e prestar tributo a “uma ilha que respondeu a uma situação difícil com elegância, solidariedade e compaixão”. Durante sua visita, ele assegurou que a situação não deve ser comparada a eventos anteriores da Covid-19, reforçando que “isso não é outra covid”.
O MV Hondius partiu da Argentina em 1º de abril, contando com 114 passageiros e 61 tripulantes. Desde então, três passageiros vieram a falecer, e um deles teve confirmação de infecção pelo hantavírus, segundo dados da OMS. Entretanto, a ministra García informou que um teste realizado em uma mulher hospitalizada em Alicante, que tinha viajado no mesmo voo de um dos falecidos, resultou negativo, acrescentando que um segundo teste será feito nas próximas 24 horas.
Sete dos 17 passageiros americanos que estavam a bordo já retornaram aos Estados Unidos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) informaram que os demais passageiros serão levados para o Centro Médico da Universidade de Nebraska, em Omaha, onde não ficarão isolados, mas serão monitorados por um período de 42 dias. Isso será feito em colaboração com autoridades locais e outros órgãos governamentais.
Ainda não está decidido quantos permanecerão no centro médico e quantos serão enviados para casa, mas os passageiros americanos restantes estão assintomáticos e não é recomendada a realização de testes para hantavírus neste grupo, segundo os CDC.
Investigações indicam que os casos de hantavírus a bordo do Hondius estão relacionados à cepa Andes do vírus, que é a única conhecida por ser transmissível entre humanos e encontrada principalmente na América do Sul.
Sintomas do hantavírus
Os sintomas iniciais da infecção incluem febre, calafrios, dores no corpo e dores de cabeça. Em casos avançados, pode ocorrer falta de ar, insuficiência pulmonar ou cardíaca. Cientistas de diversas partes do mundo têm trabalhado durante décadas no desenvolvimento de tratamentos e vacinas específicas para o hantavírus, mas, até o momento, sem resultados significativos.
*Com informações de AFP e The New York Times
Fonte: estadao.com.br


