O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) lançou recentemente o Guia Internet, Eleições e Democracia – volume II, uma publicação voltada a orientar cidadãos, legisladores e tomadores de decisão na formulação de políticas públicas. A iniciativa amplia o debate iniciado em 2018 com o primeiro volume, aprofundando a análise sobre como a arquitetura das plataformas digitais e a inteligência artificial generativa moldam o ambiente informacional e afetam diretamente a disputa democrática no país.
Dividido em cinco partes estruturadas, o documento vai além do tradicional combate às notícias falsas. Ele diferencia plataformas digitais de redes sociais tradicionais, analisa sistemas de recomendação, perfilamento, micro direcionamento e os modelos de negócios fundamentados no engajamento. Além disso, o material aborda a transição da desinformação das redes abertas para ambientes mais fechados, destacando a incorporação de vídeos manipulados e o uso intensivo de ferramentas tecnológicas avançadas.
O primeiro capítulo detalha o funcionamento dos algoritmos de recomendação e a lógica econômica das empresas que controlam o ecossistema digital. O segundo capítulo examina o impacto da inteligência artificial generativa no contexto eleitoral, com foco em deepfakes e modelos de linguagem baseados em conversação. Já o terceiro reúne diretrizes institucionais para mitigar a desinformação, enquanto o quarto oferece recomendações práticas para que o eleitor evite consumir e propagar conteúdos enganosos. Por fim, o quinto capítulo apresenta referências para aprofundamento nos temas abordados.
De acordo com a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, as plataformas digitais assumiram um papel central na maneira como a população consome notícias e se mantém informada sobre os acontecimentos globais, nacionais e locais. A especialista ressalta que essas corporações são privadas e guiadas por interesses estritamente comerciais, e não pelo bem comum. Compreender essas engrenagens é vital para assegurar a integridade da informação e preservar os valores democráticos.
A nova fronteira da desinformação e o desafio das deepfakes
A inteligência artificial generativa ganha destaque especial no guia, sendo apontada como o principal desafio técnico e informacional do ciclo eleitoral de 2026. A popularização dessas ferramentas permitiu que qualquer pessoa produza áudios, imagens e vídeos sintéticos altamente realistas, as chamadas deepfakes, sem a exigência de conhecimentos técnicos avançados.
O documento aponta que a circulação massiva desses materiais sintéticos inaugura uma nova fase na disseminação de mentiras durante os pleitos. Para enfrentar essa ameaça, a publicação destaca as normas estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre as principais determinações está a Resolução nº 23.755/2026, que impõe restrições severas à publicação, republicação e ao impulsionamento de conteúdos gerados ou modificados por inteligência artificial nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores a cada turno de votação, mesmo quando devidamente sinalizados. O objetivo é conter a propagação desregulada em momentos críticos em que a checagem tempestiva pode ser inviável.
Chatbots e a persuasão invisível
Outro ponto de alerta levantado pelo material refere-se ao uso de chatbots como ferramentas de consulta eleitoral. Diferente dos mecanismos tradicionais de busca, que apenas listam links e fontes externas, os assistentes conversacionais sintetizam dados e geram respostas personalizadas. Essa dinâmica apresenta maior poder de persuasão e menor transparência quanto à confiabilidade e à origem do conteúdo exibido.
Estudos mencionados no guia revelam que esses modelos têm capacidade de influenciar de forma profunda o posicionamento dos eleitores, superando muitas vezes o alcance de propagandas tradicionais. Mesmo com as vedações impostas pela Resolução nº 23.755/2026, que proíbe ferramentas de IA de ranquear, priorizar ou expressar opiniões sobre candidatos, pesquisas apontam que cerca de 90% das respostas geradas sobre temas políticos ainda apresentam algum grau de interferência nos resultados.
A falta de neutralidade algorítmica
O guia reforça ainda um conceito central já introduzido no primeiro volume: as plataformas de tecnologia não atuam como intermediárias neutras. Guiadas por algoritmos voltados à maximização da atenção e à publicidade direcionada, essas redes priorizam conteúdos que geram fortes reações emocionais e engajamento, favorecendo materiais sensacionalistas em detrimento da precisão informativa.
Para Renata Mielli, a desinformação não decorre apenas de agentes mal-intencionados isolados, mas sim de uma estrutura tecnológica desenhada para reter a atenção do usuário. Expor essa lógica para governos, empresas e sociedade civil é fundamental para fortalecer o debate público muito além do período eleitoral.
O Guia Internet, Eleições e Democracia – volume II está disponível para leitura e download gratuito diretamente no site do CGI.br por meio do link https://cgi.br/publicacao/guia-internet-democracia-e-eleicoes-volume-ii/.
Fonte:: convergenciadigital.com.br


