A recente proposta dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio, traz preocupações que ultrapassam as simples questões de exportação. Especialistas já sinalizam que essa medida pode impactar diretamente a economia brasileira, reverberando em áreas como câmbio, crédito e fluxo de capitais estrangeiros.
Embora os itens principais das exportações brasileiras estejam isentos dessa taxação, a criação de novas incertezas econômicas pode criar um cenário de pressão sobre o câmbio, encarecer o crédito e dificultar a atração de investimentos. A investigação, iniciada em julho de 2025 e recentemente finalizada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), apontou práticas que os americanos consideram como injustas ou irrazoáveis provenientes do Brasil.
Entre as justificativas apresentadas pelos EUA, estão o sistema de pagamentos conhecido como Pix — que, segundo os norte-americanos, diminui a utilização de cartões de empresas dos EUA —, questões relacionadas ao comércio digital, ações judiciais envolvendo redes sociais americanas, além de temas associados à propriedade intelectual e restrições no mercado de etanol.
A decisão final sobre a implementação dessas tarifas cabe ao presidente Donald Trump, que tem até o dia 15 de julho de 2026 para tomá-la, com uma audiência pública marcada para 6 de julho, onde os efeitos da proposta poderão ser debatidos.
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, critica a mudança na abordagem americana: “O anúncio de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros representa uma alteração significativa na estratégia dos Estados Unidos que, anteriormente, envolvia uma dimensão mais política. Agora, a questão está sendo estruturada em torno de uma investigação comercial”. Ele alerta que essa incerteza pode levar a perdas de competitividade e custos adicionais para as empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos.
Alívio comercial possível
Um estudo realizado pela XP Investimentos indica que, se as tarifas forem aplicadas conforme planejado, a Seção 301 aumentará a tarifa média efetiva sobre as exportações brasileiras para os EUA em 6,25 pontos percentuais, alcançando um total de 18,5%. A corretora estima que cerca de US$ 9,5 bilhões em exportações, equivalente a 25% do total das transações bilaterais, terão que arcar com esse aumento de 25% na alíquota. A MAG Investimentos apresenta uma análise similar, com um impacto estimado em cerca de US$ 10 bilhões e uma elevação na tarifa próxima a 18%.
No entanto, o impacto na balança comercial poderá ser atenuado pelas exceções que foram detalhadas em um extenso relatório. Itens considerados essenciais para o abastecimento do mercado americano, como carnes (incluindo bovina), café, cereais, fertilizantes, minerais, terras raras e aeronaves civis, foram isentos da sobretaxa. A análise dos especialistas sugere que os efeitos diretos mais significativos devem incidir sobre bens de capital e produtos manufaturados.
Riscos macroeconômicos em perspectiva
Para o setor financeiro, a questão é vista sob a ótica dos impactos colaterais que essa medida pode gerar. Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital, ressalta que as tarifas atuam como um instrumento de pressão política e regulatória. “O canal mais relevante não é simplesmente o preço final nos EUA, mas a repercussão nas áreas de câmbio, juros e no fluxo de capitais. Se essa situação se tornar uma preocupação em longo prazo, podem ser afetados três fatores principais: balança comercial, inflação, que pode ser fomentada por um real mais fraco, e o fluxo de capitais”, explica.
O aumento na percepção de risco já está sendo integrado nas expectativas do mercado. André Matos, CEO da MA7 Negócios, menciona que o Brasil já enfrenta desafios internos significativos, incluindo uma Dívida Bruta que gira em torno de 80,1% do PIB e a taxa Selic fixada em 14,50%. Ele adverte que “qualquer ruído adicional pode desacelerar o fluxo de R$ 67 bilhões que entrou na B3 em 2026”.
Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, também observa que a tensão diplomática pode intensificar a seletividade dos investidores externos. Apesar de essa situação não afastar imediatamente os capitais, ela pode induzir os investidores a requererem um prêmio maior para continuar sua exposição ao mercado brasileiro.
Reflexos no câmbio e para as empresas
Apesar da pressão institucional sobre a moeda, no curto prazo, o câmbio se mostrou menos afetado pelo anúncio da USTR. Na manhã da terça-feira (2), o dólar chegou a ser negociado em baixa, cotado próximo a R$ 5,00. Leonel Oliveira Mattos, analista da Stonex, explica que esse movimento pode ser atribuído a fatores globais, como a queda do índice do dólar em relação a outras moedas e a redução dos preços do petróleo, dadas as expectativas diplomáticas no Oriente Médio. Contudo, o analista adverte que a incerteza em torno das tarifas continuará a ser um fator de pressão sobre o câmbio até julho.
No setor corporativo, a proposta levanta preocupações imediatas acerca de custos e previsibilidade. Mary Elbe Queiroz, advogada tributarista e presidente do Cenapret, sugere que a taxação pode amplificar a insegurança fiscal para as empresas brasileiras, transformando riscos comerciais em desafios de planejamento tributário, financeiro e regulatório. Ela ressalta que possíveis respostas fiscais improvisadas do governo para amenizar os efeitos em setores impactados poderiam gerar distorções adicionais e aumentar a litigiosidade no Brasil.
Fonte: infomoney.com.br


