Um repasse de R$ 1 milhão destinado pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) está no centro de apurações conduzidas pela Polícia Federal (PF). O caso veio à tona com a deflagração da Operação Make Up, autorizada por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A ação policial cumpriu dezenas de mandados de busca e apreensão em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, além do Distrito Federal.
O parlamentar foi um dos alvos da operação em sua residência, onde autoridades apreenderam equipamentos eletrônicos. Além dele, a produtora Karina Gama, responsável pelo filme Dark Horse — uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro — e presidente do ICB, também entrou na mira das investigações. A entidade comandada por ela recebeu duas emendas parlamentares do deputado, somando o montante de R$ 2 milhões.
De acordo com os documentos judiciais cujo sigilo foi retirado pelo STF, uma das iniciativas financiadas, batizada de Jovem Empreendedor, falhou em cumprir suas metas. O projeto previa o uso de R$ 1 milhão para capacitar 250 multiplicadores e atender 2.250 estudantes na região de Pirassununga, no interior paulista. No entanto, a Controladoria-Geral da União (CGU) constatou que os objetivos pactuados não foram alcançados, levando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) a rejeitar a prestação de contas.
Outra iniciativa contemplada, chamada Lutando pela Vida e também orçada em R$ 1 milhão, apresentou problemas semelhantes. Embora a CGU tenha encontrado indícios de que atividades esportivas foram realizadas, o órgão avaliou que a comprovação da execução integral foi insuficiente. O plano previa atendimento a 500 beneficiários, mas foram apontadas falhas na validação de serviços prestados e na entrega de materiais.
Fluxo de recursos sob escrutínio
A investigação policial mapeou uma rede de transferências financeiras entre empresas associadas ao instituto e à produtora cinematográfica. No início de 2025, cerca de R$ 700 mil repassados ao ICB pelas emendas de Frias foram direcionados a companhias ligadas ao empresário Heric Dias, alvo da operação. Desse total, R$ 400 mil foram para a Dinâmica Editora e R$ 300 mil para o Instituto Super Poder Educacional, dentro do escopo do projeto Jovem Empreendedor.
Meses mais tarde, na reta final de 2025, durante a produção do filme Dark Horse, outra empresa pertencente ao grupo de Heric Dias, identificada como NTT Brasil, efetuou uma transferência de R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa-metragem. Os investigadores buscam esclarecer se verbas públicas integraram essa cadeia até chegarem à execução da obra audiovisual.
Transações financeiras e outras suspeitas
Os agentes também examinaram um repasse de R$ 645,4 mil realizado diretamente por Mario Frias de sua conta particular para a Go Up Entertainment durante o período de filmagens. A PF questionou a compatibilidade da transação com os rendimentos declarados pelo deputado, cujo salário bruto no Legislativo é de R$ 44.008,52 mensais.
Dados anexados ao processo mostram que, apenas em novembro do ano passado, a produtora movimentou aproximadamente R$ 19 milhões. Entre os gastos registrados figuram despesas de R$ 906,8 mil com o Hotel Unique e R$ 653,2 mil com serviços de alimentação, além de repasses a outras produtoras do setor audiovisual.
A apuração ainda revisou emendas no valor total de R$ 1,15 milhão enviadas pelos deputados Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL-DF) à Academia Nacional de Cultura (ANC), instituição também presidida por Karina Gama. Segundo a decisão judicial, contudo, tais verbas não chegaram a ter execução financeira.
Defesa do parlamentar
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Mario Frias negou irregularidades e criticou a atuação policial. “A investigação é sobre uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões que eu destinei para contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital, para tirar crianças da rua, para ensinar crianças, jovens e adolescentes a se desenvolverem intelectualmente. Emenda pública, registrada, transparente, que qualquer um pode consultar no Portal da Transparência”, declarou.
O deputado argumentou não ter tido acesso prévio ao inquérito e classificou a operação como uma medida inoportuna. “Como é que pode-se defender de alguma acusação sem ler? A gente descobre o que estão dizendo pelo jornal, no mesmo dia em que sua porta é arrombada”, afirmou, confirmando a apreensão de seus dispositivos eletrônicos.
Frias ressaltou que recursos de emendas não passam pelo controle direto do parlamentar. “Ela vai do Tesouro para o órgão executor, que aprova um plano de trabalho previamente e fiscaliza a prestação de contas. Se há alguma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição. Cortina de fumaça”, sustentou. O deputado não se manifestou sobre a transferência de recursos próprios feita à produtora do filme.
Além das buscas, o ministro Flávio Dino determinou a proibição de que Mario Frias deixe o país e restrições de contato com os demais investigados. A reportagem tentou contato com a defesa da produtora Karina Gama e do empresário Heric Dias, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


