Milhares de cidadãos checos lotaram as ruas de Praga no último domingo, 25, para protestar contra uma polêmica iniciativa do governo liderado pelo bilionário Andrej Babiš. A proposta visa modificar o modelo de financiamento das emissoras públicas do país, uma medida que vem sendo amplamente criticada por especialistas e pela sociedade civil devido ao risco iminente de comprometer a independência jornalística.
A concentração popular foi expressiva, superando a capacidade de lotação da tradicional Praça da Cidade Velha e transbordando para as vias do entorno. O descontentamento popular escalou após a coalizão governante avançar de forma inesperada com o projeto na câmara baixa do Parlamento apenas dois dias antes da manifestação.
Durante a madrugada, especificamente às 4h36, parlamentares da base governista abriram a pauta de forma acelerada, restringindo o tempo de debate para a oposição e aprovando o texto na primeira das três leituras exigidas no processo legislativo.
Armados com cartazes e palavras de ordem, os manifestantes entoavam gritos como “Já tivemos o suficiente”, “Isso não deve ser permitido” e faziam referências irônicas ao horário da votação, gritando “4:36”.
Críticas duras à condução política
Organizador do ato pelo grupo Million Moments for Democracy, Mikuláš Minář criticou severamente a postura da administração atual durante o protesto. “Vocês foram longe demais, não deixaremos este país ser destruído”, declarou. Ele também comparou a manobra política a métodos autoritários: “São sindicatos mafiosos ou o Politburo Soviético que tomam decisões às 4h36.”
Diante do cenário, os manifestantes exigem a imediata retirada do projeto de lei e cobram de Andrej Babiš a abertura de um diálogo amplo e transparente com a sociedade civil e especialistas sobre o futuro da comunicação pública na República Checa.
Pela proposta em tramitação, o financiamento da rádio e da televisão estatais passaria a depender diretamente do orçamento geral do Estado, substituindo o modelo atual baseado em taxas pagas por cidadãos, famílias e empresas. Além da mudança na origem dos recursos, o projeto prevê um corte de cerca de 15% no orçamento repassado a esses veículos.
Preocupações com o modelo internacional
Analistas e críticos do projeto apontam que a alteração pode abrir brechas para que o governo exerça controle político direto sobre os meios de comunicação. O temor é que o país siga os passos de administrações populistas na região, a exemplo do que ocorre na Eslováquia sob o comando do primeiro-ministro Robert Fico, e na Hungria antes da deposição do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán em abril.
O histórico de atritos entre Andrej Babiš, seus aliados e a imprensa tradicional e pública reforça o receio dos críticos em relação à liberdade de expressão e à pluralidade informativa na República Checa.
A resistência à medida tem mobilizado diversos setores da sociedade. Funcionários dos veículos públicos já confirmaram que vão paralisar as atividades em uma greve marcada para o dia 3 de novembro. O movimento conta com o respaldo de sindicatos, reitores universitários, lideranças religiosas, entidades internacionais de imprensa e outros grupos organizados.
Como continuidade dos atos, os organizadores já convocaram uma nova manifestação de grande porte para o dia 15 de novembro, que ocorrerá no parque Letná, em Praga. O protesto antecede em dois dias as celebrações do aniversário da Revolução de Veludo de 1989, marco histórico que encerrou mais de quatro décadas de regime comunista e totalitário no país.
Adrej Babiš assumiu o governo no ano passado após articular uma coalizão com duas legendas menores, cuja plataforma política inclui propostas como a redução do apoio internacional à Ucrânia e a contestação de diretrizes fundamentais da União Europeia.
Fonte:: estadao.com.br


