A recente renúncia de Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, não causou surpresa a ninguém. Seu desgaste político já era evidente há meses, e atualmente sua popularidade é tão baixa que dificilmente seria eleito para qualquer cargo, nem mesmo como síndico de um prédio. Mais do que uma simples questão pessoal, essa situação é parte de uma estratégia mais ampla do Partido Trabalhista, que busca recuperar sua imagem a tempo de enfrentar a onda do populismo à direita nas próximas eleições. O foco central desse plano é uma virada à esquerda nas políticas do governo.
Nas últimas décadas, alguns países na Europa têm sido marcados por instabilidade política, com sucessivas eleições e governos fracos, seja por meio de mandatos interinos ou por composições minoritárias em sistemas parlamentares. Espanha, Bélgica e Bulgária são exemplos notáveis. Embora o Reino Unido não esteja ainda no mesmo nível de frequente troca de governos como a Bulgária, o próximo primeiro-ministro será o sétimo em apenas dez anos, um dado alarmante.
O Reino Unido se distingue por dois fatores nesse cenário. Primeiramente, muitas das substituições de liderança ocorreram internamente nos partidos, sem a necessidade de eleições gerais. Por exemplo, governos efêmeros, como o de Liz Truss, foram substituídos dentro do próprio Partido Conservador. Em segundo lugar, mas talvez mais crítico, está o impacto do Brexit, que iniciou essa sequência de trocas de liderança e pode ser considerado uma das decisões políticas mais controversas da história contemporânea britânica, especialmente por sua execução ineficaz.
Os defensores mais fervorosos do Brexit, como o ex-primeiro-ministro conservador Boris Johnson e o atual candidato da direita populista Nigel Farage, apresentavam a saída da União Europeia como um processo simples, frequentemente comparado a um divórcio. No entanto, o uso de analogias simplistas, como comparar um orçamento nacional ao orçamento doméstico, tende a confundir a população e mascarar as complexidades envolvidas.
A separação do Reino Unido da UE é um processo intrincado e que não foi completamente implementado, levando em consideração os enormes custos e as necessidades de transição que nenhum governo está disposto a arcar. Assim como não se pode entrar na UE da noite para o dia, a saída também é complexa. Desde 2016, o Reino Unido vem enfrentando um período de estagnação, sem os benefícios que a União Europeia proporcionava, arcando com os custos da separação e sem colher os frutos que o Brexit prometia, como liberdade em acordos comerciais globais.
Os cidadãos comuns estão arcando com as consequências dessa inação, enfrentando problemas na saúde pública, uma escassez de mão de obra qualificada—with muitos profissionais retornando à UE—serviços deteriorados e um aumento na inflação, exacerbada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia. O Reino Unido se encontra em uma tempestade perfeita, resultado de ações que em grande parte foram auto-induzidas, e agravada pela ineficácia de governos como o de Boris Johnson.
Os eleitores britânicos votaram nos trabalhistas em busca de alternativas, após anos de desordem sob a liderança conservadora e “brexiteer”. No entanto, o que receberam foi um primeiro-ministro sem carisma que, apesar de ter alcançado alguns avanços em áreas sociais, manteve uma política centrista que não reverteu totalmente os retrocessos dos conservadores, nem avançou de fato. Além disso, não conseguiu concluir o processo do Brexit.
A partir dessa situação, o partido Reform UK, liderado por Farage, cresceu ao estimular um discurso ainda mais incisivo sobre o Brexit. Agora, sem a UE para ser vilã em sua narrativa, o foco do partido se deslocou para minorias, imigrantes e o que é percebido como uma crise de segurança pública. O Reform UK não apenas lidera as pesquisas eleitorais para as próximas eleições nacionais, mas também teve um desempenho destacado nas recentes eleições locais, especialmente nas áreas rurais do país. Essa realidade acendeu um sinal de alerta para os trabalhistas, que já estão considerando Andy Burnham, atual prefeito de Manchester, como um possível novo líder. Um parlamentar já renunciou para abrir espaço para que Burnham possa ocupar um assento na Câmara dos Comuns e, assim, se candidatar como primeiro-ministro em um cenário de maioria trabalhista.
A estratégia do Partido Trabalhista se torna evidente. Uma reorientação à esquerda, com a proposta de reintegrar a nacionalização de serviços que anteriormente foram privatizados pelos conservadores, especialmente em áreas como abastecimento de água, que hoje são amplamente criticadas pela população. É possível que planejarem também uma espécie de moratória em algumas questões referentes ao Brexit, talvez até mesmo a discussão sobre a realização de um novo plebiscito. O tempo é curto, e se os trabalhistas não lograrem recuperar uma imagem positiva do partido até 2029, Nigel Farage poderá muito bem se tornar o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.
Fonte: estadao.com.br


