Operação lívia desarticula rede virtual que induzia jovens ao suicídio

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: © Isaac Amorim/MJSP.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública apresentou os desdobramentos da Operação Lívia, uma força-tarefa conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com o suporte técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas, vinculado à Secretaria Nacional de Segurança Pública. A ação foi estruturada para investigar uma organização criminosa que utilizava o ambiente digital para atrair crianças e adolescentes a comunidades virtuais fechadas, onde as vítimas sofriam intensa coerção psicológica e eram induzidas a praticar atos de violência extrema contra animais, desafios de automutilação e instigação ao suicídio.

A investigação policial teve início logo após o trágico suicídio de uma adolescente de 13 anos, batizada carinhosamente de Lívia, transmitido ao vivo no último dia 22 de julho. A transmissão ocorreu dentro de um grupo virtual na rede social Discord, estendendo-se por aproximadamente 45 minutos. Antes de ser levada a tirar a própria vida na residência onde morava com seus familiares em Naviraí, município localizado a 365 quilômetros de Campo Grande, a jovem foi coagida pelos criminosos virtuais a tentar torturar e matar um gato, embora sem sucesso nessa etapa da exigência sádica.

O papel da supervisão parental e os alertas governamentais

Durante coletiva de imprensa realizada em Brasília, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, enfatizou que o enfrentamento aos crimes cibernéticos direcionados a menores de idade demanda uma postura de prevenção constante e vigilância ativa tanto por parte dos pais quanto da sociedade em geral.

“Redobrem a atenção no cuidado com os seus filhos, com as crianças, com os adolescentes, no contato com esses conteúdos, em função dos graves eventos que foram reportados aqui”, alertou o ministro durante o pronunciamento oficial.

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As investigações desdobraram-se para além do estado de Mato Grosso do Sul, com o cumprimento de oito mandados de busca e apreensão expedidos em mais quatro unidades federativas: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, contando com o apoio operacional das polícias civis locais.

Estrutura da rede criminosa e prisões efetuadas

As autoridades confirmaram que entre os alvos capturados na ofensiva contra os crimes virtuais estão cinco adolescentes, com idades variando entre 13 e 17 anos, além de um homem de 18 anos que utilizava o serviço de mensagens do Telegram para coordenar ações. O apontado como líder do grupo criminoso é um adolescente de apenas 14 anos, apreendido pelas equipes no Rio de Janeiro. Outro indivíduo sob investigação é um estudante seminarista vinculado a um mostoreo localizado em Pernambuco.

A apuração policial revelou detalhes estarrecedores sobre o modus operandi da quadrilha. Conforme explicou o delegado de Polícia Civil do Piauí e representante do Laboratório de Operações Cibernéticas, Alessandro Barreto, os suspeitos chegaram a abrir uma chave Pix em nome da própria vítima, sem o consentimento da mãe da adolescente.

“Os próprios criminosos criaram chave Pix para a menina, mandavam dinheiro para comprar gilete, para se automutilar e tudo”, detalhou o delegado.

Todo o material apreendido durante a operação será submetido a perícias técnicas aprofundadas para rastrear a possível participação de novos integrantes e esclarecer completamente a dinâmica de atuação da organização na internet.

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Infrações ao ECA Digital e responsabilização de plataformas

Durante a apresentação dos dados, o secretário Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Victor Fernandes, apontou falhas graves e o descumprimento sistemático da legislação vigente por parte das plataformas Discord e Telegram. Entre as normais citadas estão o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), o Marco Civil da Internet e o Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital.

De acordo com o secretário, a plataforma Discord falhou em múltiplos pontos cruciais: não interrompeu o sinal da transmissão ao vivo no momento em que os crimes ocorriam, omitiu-se na remoção imediata do conteúdo nocivo e deixou de notificar o ocorrido aos órgãos competentes de segurança pública.

“Pelo ECA Digital, o Discord teria a obrigação de derrubar esses conteúdos e comunicar imediatamente às autoridades policiais, para que as autoridades policiais pudessem agir antes que esses resultados acontecessem. E isso não foi feito”, pontuou Victor Fernandes.

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O representante do ministério também destacou a existência de falhas expressivas nos mecanismos de verificação de idade dos usuários da rede social, requisito obrigatório previsto pelo ECA Digital. Segundo ele, as cenas de automutilação, induzimento e o desfecho trágico com a morte da jovem de 13 anos ocorreram em canais de transmissão acessíveis a menores sem qualquer barreira efetiva de checagem etária.

Como desdobramento legal, o ministério encaminhará um pedido formal de investigação contra o Discord e o Telegram à Agência Nacional de Proteção de Dados, órgão encarregado de fiscalizar e aplicar as diretrizes do ECA Digital no território nacional.

Ações de resgate e novas vítimas identificadas

A força policial informou que o monitoramento contínuo permitiu identificar mais uma vítima da mesma rede criminosa em outro estado brasileiro. A intervenção rápida evitou que essa segunda adolescente tirasse a própria vida, já que havia um novo ato extremo agendado e transmitido previamente.

“Estamos vendo os nomes de outras possíveis vítimas para mandar avisar aos pais e responsáveis para que fiquem atentos”, concluiu o delegado Alessandro Barreto, reforçando o apelo para que famílias redobrem o acompanhamento da rotina digital de crianças e adolescentes.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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