A inteligência artificial foi o tema central do documento intitulado “Magnifica Humanitas”, ou “Magnífica Humanidade” na tradução do latim para o português. Este texto marca a primeira encíclica do pontificado do papa Leão 14, abordando a importância de proteger “a pessoa humana na era da inteligência artificial”.
Historicamente, encíclicas são considerados textos de grande relevância que compõem o magistério de um papa. Trata-se de cartas destinadas aos bispos e fiéis, nas quais o líder da Igreja expõe suas doutrinas e diretrizes sobre assuntos relevantes. Com essa encíclica, Leão 14 não apenas expressa sua perspectiva sobre a tecnologia, que tem sido um tema recorrente desde sua escolha como sumo pontífice, mas também enfatiza que as preocupações relacionadas ao impacto da tecnologia na dignidade humana devem ser uma prioridade durante seu papado. É um verdadeiro cartão de visitas de suas crenças.
O texto, com suas 105 páginas, é apresentado como um apelo à proteção da humanidade, à promoção da verdade, à dignidade do trabalho, à justiça social e à paz, em um período marcado pela revolução tecnológica acelerada pela inteligência artificial.
O papa, em suas reflexões, aborda a inteligência artificial como um instrumento, não como uma entidade criativa. Ele destaca que essa tecnologia deve servir aos interesses da humanidade, e não o contrário. Leão 14 afirma: “A humanidade — em toda a sua grandeza e em todas as suas feridas — jamais deve ser substituída ou superada”. O papa ressalta que o amor e as relações humanas são fundamentais para o bem-estar das pessoas.
A encíclica inicia com um chamado do papa, que alerta que a humanidade “enfrenta hoje uma escolha decisiva”. Nesta visão, Leão coloca a opção de construir uma nova Torre de Babel ou “edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos”. Essa metáfora retoma uma imagem valorizada por seu antecessor, Francisco, que frequentemente alertava sobre a necessidade de construir pontes em vez de muros.
Um dos diálogos mais significativos presentes na “Magnifica Humanitas” é com a Rerum Novarum, a primeira encíclica social de Leão 13, publicada há exatos 135 anos.
A encíclica parte do princípio de que a tecnologia não deve ser vista como “uma força antagonista à humanidade”, e muito menos “intrinsecamente má”. Entretanto, Leão 14 observa que o problema reside no fato de que a tecnologia “nunca é neutra”; ela reflete as características de quem a concebe, financia, regula e utiliza.
Com isso, o papa pede que a tecnologia seja desenvolvida com foco no “bem comum” e que a condição humana seja sempre preservada. Além disso, Leão 14 se estende para além do campo digital e, ao fazer um histórico da doutrina social da Igreja, defende a dignidade humana como princípio fundamental e os direitos humanos como fundamentos invioláveis. Nesse aspecto, ele classifica escolhas como o aborto, o assassinato de inocentes e a eutanásia como “gravemente erradas” segundo a visão católica.
O papa clama também pela ampliação dos direitos das minorias e pela implementação de “decisões concretas” que assegurem maior igualdade de gênero, aumentando a participação feminina nas leis, no mercado de trabalho, na educação e na política. Em um cenário global marcado por diversos conflitos, Leão 14 adverte que qualquer tentativa ou plano para eliminar ou subjugar uma nação é “gravemente imoral e, portanto, inaceitável”.
Sobre a transformação digital, o papa observa que ela tem alterado a natureza dos conflitos. A decisão sobre vida e morte tornou-se impessoal, e a inteligência artificial, segundo ele, não elimina a desumanidade intrínseca dos conflitos; em vez disso, ela pode agilizar essas situações e torná-las ainda mais impessoais, reduzindo as vítimas a meros dados.
Leão 14 expressa sua preocupação com a visão contemporânea que apresenta os conflitos bélicos como “instrumentos da política internacional” e denuncia o cenário crescente de rearmamento dos países. Para o papa, a paz deixou de ser entendida como um objetivo a ser alcançado, sendo vista apenas como um intervalo entre as guerras.
O papa também aborda a questão dos imigrantes e refugiados. Para ele, a forma como uma sociedade trata os estrangeiros “revela se seu senso de justiça é guiado pelo medo ou pelo espírito de fraternidade”. Assim, ele defende não apenas a acolhida aos imigrantes, mas também a promoção do “direito de permanecer” com segurança em suas terras natais.
No tocante à tecnologia, Leão 14 alerta sobre a concentração de poder nas mãos de um pequeno número de empresas, enfatizando que é preciso observar o princípio do “destino universal dos bens”. A revolução digital, segundo ele, não deve excluir ninguém e deve ser inclusiva.
O papa argumenta que, na era digital, a doutrina social exige acesso equitativo às oportunidades e proteção aos mais vulneráveis. Ele destaca a importância de combater discursos de ódio e desinformação, além de defender que as tecnologias devem estar sob supervisão pública e regulamentação, onde o foco não seja apenas o lucro, mas sim a dignidade de cada indivíduo e o bem comum.
A encíclica deixa claro que Leão 14 compartilha da mesma preocupação de seu antecessor, Francisco: a humanidade atravessa um paradigma tecnocrático onde as decisões são orientadas pela eficiência e pelo lucro. Para o pontífice, a inteligência artificial precisa ser monitorada, pois, embora possa imitar o comportamento humano, carece de consciência moral, empatia e das capacidades afetivas, relacionais ou espirituais.
Leão 14 defende que o avanço tecnológico deve seguir um arcabouço jurídico robusto, assim como políticas adequadas e supervisionadas, indicando que a educação dos usuários é imprescindível. Ele propõe um código de ética que esteja alinhado com a justiça social, salientando que “não basta ter uma inteligência artificial mais moral se a moralidade for determinada por poucos”.
*Com agências internacionais
Fonte: convergenciadigital.com.br


