Pressão do petróleo em bens industriais reduz influência desinflacionária sobre IPCA

Marcelo Borges
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Foto: Divulgação / Foto: Estadão Conteúdo

A recente guerra no Oriente Médio causou um choque de oferta global que impactou o fornecimento de petróleo e de matérias-primas essenciais, alterando a dinâmica desinflacionária que caracterizava um grupo de bens industriais. Anteriormente, esses itens não eram motivo de preocupação para economistas e para o Banco Central.

Embora ainda não tenham exercido pressão significativa sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), os bens industriais começaram a apresentar uma tendência de alta. Em abril, esses itens subiram 0,61%, um aumento quase duas vezes maior do que a taxa de 0,32% registrada no mês anterior. Especialistas do mercado acreditam que essa tendência será mantida ao longo do segundo semestre.

Conforme dados apresentados, ao longo de 12 meses, o aumento nos preços desses itens ainda está consideravelmente abaixo do IPCA, que se mostrou em 2,41%, em comparação com os 4,39% do índice geral. Entretanto, projeções indicam que esses bens podem apresentar uma elevação próxima a 4% até o final do ano, prejudicando a desaceleração da inflação. Essa expectativa contrasta com os números de 2025, quando o aumento foi limitado a apenas 2,39%.

Os bens industriais têm um peso de aproximadamente 23% na cesta do IPCA e, nos últimos anos, mostraram evolução estável. Esse segmento é composto por produtos que podem ser tanto importados quanto exportados, o que gera uma correlação significativa com a variação do dólar. Em 2026, o real acumulou uma desvalorização próxima a 9% em relação à moeda americana. No entanto, dados do mercado atacadista indicam que a estabilidade dos preços nos bens industriais pode estar com os dias contados, mesmo diante da desvalorização da moeda americana.

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De acordo com Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, o último Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) revelou uma reversão na tendência favorável para os bens industriais. O núcleo complementado do atacado, que exclui itens como gás, minério de ferro e alimentos, conhecido como “core industrial”, registrou uma alta de 2,5% no último mês, a maior taxa para abril desde 2010. Essa pressão deverá atingir os consumidores em breve.

O economista Matheus Dias, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV-Ibre), apontou que o aumento no preço do petróleo começou a impactar de maneira generalizada os índices de preços em abril, elevando custos logísticos e industriais. Um exemplo notável é o aumento acentuado no preço de embalagens plásticas, que passaram de 33% para 38% de março a abril. Andréa ressalta que a pressão não é oriunda de uma aceleração do câmbio, mas sim do choque causado pela guerra, prevendo que os bens industriais possam encerrar o ano com um aumento de aproximadamente 3,2% no IPCA.

Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, observou que a alta nos preços dos itens de higiene pessoal foi responsável por dois terços do aumento de 0,3 pontos percentuais nos bens industriais em abril. A combinação de matérias-primas e fretes mais caros, aliada à resiliência do consumo, pode contribuir para a continuidade da tendência de alta nos preços dos produtos industrializados, mesmo com o desempenho favorável do real em relação ao dólar ajudando a moderar essa pressão.

Além disso, Secemski notou um início de ano mais pressionado do que o esperado em produtos como eletroeletrônicos e celulares. Embora esses itens continuem a apresentar taxas negativas em 12 meses, muitos começaram a mostrar aumentos mensais significativos, possivelmente devido ao aumento do imposto de importação. Apesar da reversão parcial da alta, certos componentes eletrônicos ainda estão sendo afetados.

As projeções do Barclays para 2026 indicam um avanço de 2,9% nos preços dos itens industriais no IPCA, um número que atualmente está em 3,8%, enquanto a inflação geral é estimada em 5%. O economista João Fernandes, da gestora Quantitas, destaca que a recente aceleração nos bens industriais é influenciada pela alta do petróleo, mas também pelo comportamento econômico da China. A desaceleração econômica e a inflação baixa do país asiático, que anteriormente tornavam os produtos exportados mais acessíveis, resultaram em uma nova pressão inflacionária com a guerra, tornando os produtos mais caros para os mercados emergentes.

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Fernandes observa que, embora o acumulado em 12 meses para bens industriais subjacentes continue controlado, outras métricas estão mostrando sinais de preocupação. Ele menciona que a média móvel trimestral anualizada, que chegou a 1,40% no ano passado, subiu para 3,64% no IPCA de abril. Caso esse nível se mantenha, os preços dos bens industriais deverão aumentar ao longo do tempo.

Adicionalmente, há a expectativa de que a inflação em vestuário comece a refletir a alta no preço do algodão, ainda não percebida. O aumento no preço do petróleo afeta o custo do poliéster, e com a demanda por algodão aumentando como substituto, a pressão inflacionária deve se intensificar.

Fonte: infomoney.com.br

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